Orientações para odiar o pecado – Richard Baxter

Por Richard Baxter

Richard Baxter, considerado o "Pastor" da era puritana.

 

1º. Orientação

Se esforce tanto para conhecer a Deus quanto para ser afetado pelos Seus atributos. Viva sempre diante Dele. Ninguém pode conhecer o pecado perfeitamente porque ninguém pode conhecer Deus perfeitamente. Você não pode conhecer o pecado mais do que você conhece a Deus, contra quem o seu pecado é cometido; a malignidade formal do pecado é relativa, pois é contra a vontade e os atributos de Deus. O homem piedoso tem algum conhecimento da malignidade do pecado porque ele tem algum conhecimento do Deus que é ofendido pelo mesmo. O ímpio não tem um conhecimento prático e prevalente da malignidade do pecado porque eles não têm um conhecimento de Deus. Aqueles que temem a Deus temerão o pecado; aqueles que em seus corações são irreverentes e impertinentes para com Deus, serão, em seus corações e em suas vidas, a mesma coisa para com o pecado; o ateísta, que acha que não existe Deus, também acha que não há pecado contra Ele. Nada no mundo inteiro irá nos mostrar de maneira tão simples e poderosa a maldade do pecado, do que o conhecimento da grandeza, bondade, sabedoria, santidade, autoridade, justiça, verdade, e etc., de Deus. Portanto, o senso da Sua presença irá reviver em nós o senso da malignidade do pecado.

 

2º. Orientação

Considere bem o ofício de Cristo, Seu sangue derramado e Sua vida santa. Seu ofício é expiar o pecado e destruí-lo. Seu sangue foi derramado por ele. Sua vida o condenou. Ame a Cristo e você odiará o que causou Sua morte. Ame-O e você irá amar ser feito à imagem Dele, e odiará aquilo que é tão contrário a Ele.

 

 

3º. Orientação

Pense bem o quão santo é a obra e o ofício do Espírito Santo, e quão grande misericórdia isto é para nós. Irá o próprio Deus, a luz celestial, descer a um coração pecaminoso para iluminá-lo e purificá-lo? E ainda devo manter minha escuridão e corrupção, em oposição a essa maravilhosa misericórdia? Embora nem todo pecado contra o Espírito Santo seja uma blasfêmia imperdoável, tudo é ainda mais agravado por meio disso.

 

 

4º. Orientação

Considere e conheça o maravilhoso amor e a misericórdia de Deus, e pense no que ele tem feito por você e você odiará o pecado, e terá vergonha dele. É um agravamento do pecado até mesmo para a razão comum e a ingenuidade, que devemos ofender um Deus de infinita bondade que encheu nossas vidas de misericórdia. Você será afligido se você tem injustiçado um extraordinário amigo; seu amor e sua bondade virão aos seus pensamentos e você sentirá raiva de sua própria maldade. De um lado veja a grande lista das misericórdias de Deus pra você, para sua alma e seu corpo. Do outro, observe satanás, escondendo o amor de Deus de você, e tentando você debaixo de uma pretensa humildade de negar Sua grande e especial misericórdia; procurando destruir seu arrependimento e humilhação escondendo também o agravamento do seu pecado

 

 

. 5º. Orientação

Pense no propósito da existência da alma humana. Para que ela fora criada? Para amar, obedecer, e glorificar nosso Criador; e você verá o que é o pecado, pois ele perverte e anula esse propósito. Quão excelentemente grande e santa é a obra para o qual fomos criados e chamados para fazer! E deveríamos desonrar o templo de Deus? E servir ao diabo em sua imundície e tolice, quando deveríamos receber, servir, e glorificar nosso Criador?

 

 

6º. Orientação

Pense bem quão puros e doces deleites uma alma santa pode desfrutar de Deus em Sua santa adoração; e então você verá o que o pecado é, pois ele rouba-nos destes deleites e prefere uma luxúria carnal ao invés deles. Oh com quão grande felicidade poderíamos realizar cada dever, quão grandes frutos poderíamos produzir servindo nosso Senhor, e que deleites encontraríamos em Seu amor e aceitação, e como pensaríamos mais na bem-aventurança eterna, se não fosse o pecado; o qual afasta as almas dos portões dos céus, e as faz cair, como um suíno, no seu amado lamaçal.

 

 

7º. Orientação

Considere a vida que você deverá viver para sempre, se você for para o céu; e a vida que os santos vivem lá agora; e então não pense que o pecado, que é tão contrário a isso, não seja uma coisa tão vil e odiosa. Ou você viverá no céu, ou não. Se não, você não é um daqueles para quem eu falo. Se você for, você sabe que lá não há prática de pecado; não há mente mundana, orgulho, paixões, luxúria e prazeres carnais lá. Oh se você pudesse ver e ouvir apenas uma hora, como aqueles abençoados espíritos estão elevadamente amando e magnificando o glorioso Deus em pureza e em santidade, e quão longe eles estão do pecado, isso faria você repugnar o pecado e ver os pecadores num estado de extrema decadência como homens nus nadando em seus excrementos. Especialmente, pensar que vocês têm esperança de viver para sempre com aqueles santos espíritos; e, portanto o pecado será desgostoso para você.

 

8º. Orientação

Olhe para o estado e tormento dos condenados, e pense bem na diferença entre anjos e demônios, e aí saberá o que é o pecado. Anjos são puros; demônios são sujos; santidade e pecado são extremos. Pecado habita no inferno, e santidade no céu. Lembre-se que toda tentação vem do diabo, para fazer você ser como ele; e toda santa disposição vem de Cristo, para fazer você como Ele. Lembre-se que quando você peca, você está aprendendo e imitando o diabo, e está até agora sendo como ele (João 8:44). E o fim de tudo isso é que você sinta também os sofrimentos dele. Se o inferno de fogo não é bom, então o pecado não é também.

 

 

9º. Orientação

Sempre veja o pecado como alguém que está pronto a morrer e considere como todo homem o julga no final. O que os homens no céu dizem a respeito do pecado? O que os homens no inferno dizem a respeito do pecado? E o que os homens à beira da morte dizem a respeito do pecado? E o que as almas convertidas e as consciências despertadas dizem? O pecado traz deleite e é algo que eles não temem como é agora? Eles o aplaudem? Irão alguns deles falar bem do pecado? Porém, todo mundo fala mal do pecado em geral agora, mesmo quando eles amam e cometem diversos atos; Você irá pecar quando estiver à beira da morte?

 

 

10º. Orientação

Sempre veja o pecado e o julgamento juntos. Lembre-se que você terá que responder por isso diante de Deus, dos anjos, e de todo o mundo; e você o conhecerá melhor.

 

 

11º. Orientação

Olhe para a doença, pobreza, vergonha, desespero, podridão e morte na sepultura; e isso vai te ajudar um pouco a entender o que é o pecado. Estas são coisas que estão diante de ti e em seus sentimentos; você não precisa de fé para entendê-las. E por tais efeitos você poderá entender um pouco da sua causa.

 

 

12º. Orientação

Olhe para algumas pessoas santas e eminentes sobre a terra e para o louco, profano e maligno mundo. E a diferença vai te dizer em parte o que é o pecado. Não há afabilidade numa pessoa santa e irrepreensível, que vive em amor para com Deus e para com as pessoas, e na alegre esperança da vida eterna? Não é um abominável beberrão, promíscuo, blasfemador, malicioso, perseguidor, uma criatura muito repugnante e deformada? Não é uma visão muito miserável o estado ímpio, louco, confuso e ignorante deste mundo? Não é nisso tudo em que o pecado consiste? Embora a principal parte da cura seja fazer com que a vontade odeie o pecado, e isso é feito descobrindo sua malignidade; eu ainda adicionarei mais algumas orientações para a parte prática, supondo que o que já foi dito tenha causado efeito.

 

 

13º. Orientação

Quando você descobrir a sua enfermidade e perigo, se entregue a Cristo como o Salvador e médico de almas, e para o Espírito Santo como seu Santificador, lembrando que ele é suficiente e disposto a fazer o trabalho que Ele mesmo prometeu fazer. Não são vocês que devem salvar e santificar a vocês mesmos (a não ser que vocês façam isso através de Cristo). Mas aquele que assumiu fazê-lo, o faz para a sua glória.

 

14º. Orientação

Você deve estar preparado a ser obediente em aplicar os remédios que Cristo prescreveu a você; e observando as Suas orientações para que haja cura. Não seja tímido ou fraco dizendo que é muito amargo e muito dolorido; mas confie em Seu amor e no Seu cuidado; pegue aquilo que Ele te prescreveu ou te deu e não adicione mais nada. Não diga: “É muito penoso, e eu não consigo”. Porque o que Ele te ordena é seguro, proveitoso, e necessário; e se você não consegue, tente então carregar sobre você sua enfermidade, morte e o fogo do inferno! São a humilhação, confissão, restituição, mortificação e a santa diligência piores que o inferno?

 

 

15º. Orientação

Veja que você não tome parte com o pecado, nem dispute ou lute contra seu Médico, ou com qualquer coisa que lhe faça bem. Justificar o pecado, ir em direção a ele e subestimá-lo, lutar contra o Espírito e a consciência, ir contra os ministros e amigos piedosos, odiando a disciplina; estes não são os meios pelos quais você será curado e santificado.

 

 

16º. Orientação

Veja aquela malignidade em cada um dos seus pecados particulares, que você pode ver e dizer que é generalizada. É um grotesco engano de vocês mesmo, se você vai falar muito do mal do pecado e não ver nenhuma malignidade em seu orgulho, em seu mundanismo, paixões e perversidades, em sua malícia e severidade, em suas mentiras, maledicências, escândalos, ou pecando contra a consciência por comodidade e segurança mundana. Que contradição é um homem orar e agravar seu pecado, e quando ele é reprovado por isso, tentar se esquivar ou justificar-se. É como se ele fosse falar contra a traição e contra os inimigos do rei, mas porque os traidores são os seus amigos e parentes, irá proteger ou escondê-los e tomar parte com eles.

 

 

17º. Orientação

Mantenha-se o mais longe que puder das tentações que alimentam e fortalecem o pecado que você dominaria. Ponha um cerco em seus pecados e os deixe morrer de fome afastando a comida e o combustível que o mantém vivo.

 

18º. Orientação

Viva no exercício das graças e deveres que são contrários ao pecado que você está mais em perigo. Pois a graça e o dever são contrários ao pecado, isso o mata e nos cura, como o fogo nos cura do frio ou como a saúde nos cura da doença.

 

19º. Orientação

Não seja enfraquecido ouvindo a incredulidade e a desconfiança, e não jogue fora os confortos de Deus, pois eles são sua força e podem te encorajar. Não é assustador, deprimente, nem desesperadamente desencorajador, estar apto a resistir ao pecado; mas o senso do amor de Deus e o senso de gratidão da graça recebida é um grande encorajamento (com temor cauteloso).

 

 

20º. Orientação

Sempre suspeite do amor carnal próprio, fique atento a isso. Pois essa é a fortaleza onde o pecado se esconde, e é também o seu patrono; sempre pronto para te arrastar para o pecado e para justificá-lo. Nós somos sempre muito propensos a sermos parciais em nosso próprio caso; como no caso de Judá com Tamar e Davi quando Natã o reprovou em sua parábola; isso mostra nossas próprias paixões, nosso próprio orgulho, nossa própria censura, nossa própria maledicência, nossas relações prejudiciais, nossa negligência nos deveres; estas coisas para nós parecem pequenas, desculpáveis, senão justificáveis. Considerando que poderíamos ver facilmente a culpa disso tudo nos outros, especialmente em um inimigo, deveríamos estar ainda mais familiarizado conosco e deveríamos amar mais a nós mesmos e, portanto odiando mais ainda nossos próprios pecados.

 

 

21º. Orientação

Considere seu primeiro e principal trabalho matar o pecado em sua raiz; limpar o coração, que é a fonte; pois é do coração que vem todo o mal em nossa vida. Saiba quais são as principais raízes; e use o seu maior cuidado e diligência para mortificá-las, especialmente as seguintes: 1) Ignorância. 2) Incredulidade. 3) Inconsideração. 4) Egoísmo e orgulho. 5) Carnalidade, em agradar um apetite, luxúria e fantasia selvagens. 6) Insensibilidade, dureza de coração e sonolência no pecado.

 

 

22º. Orientação

Conte o mundo todo e todos os seus prazeres; honras e riquezas não são melhores do que aparentam ser; assim satanás não vai conseguir encontrar iscas para te pegar. Como Paulo, considere tudo como esterco (Fp. 3:8) e nenhum homem irá pecar e vender sua alma, pois ele conta estas coisas como esterco.

 

23º. Orientação

Mantenha-se em conversas celestiais, e então sua alma estará sempre na luz, assim como aos olhos de Deus; e ocupe-se com aqueles afazeres e deleites que o livram do prazer com as iscas do pecado.

 

24º. Orientação

Que seu trabalho diário seja ser um cristão vigilante; embora haja distração e um medo desencorajador, nutra a perseverança.

 

25º. Orientação

 

Preste atenção no começo do pecado e suas primeiras abordagens. Oh quão grande diferença faz um pouco desse fogo aceso! E se você cair, levante rápido através de um profundo arrependimento, não importando o quanto isso pode te custar. 26º. Orientação Faça do seu único labor e regra diligente o entender a Palavra de Deus.

 

27º. Orientação

Em casos de dúvidas, não se aparte facilmente do julgamento unânime da maioria dos sábios e piedosos de todas as épocas.

 

28º. Orientação

Não seja precipitado nem aja por emoções, mas proceda deliberadamente e prove bem todas as coisas antes de se firmar nelas.

 

29º. Orientação

Esteja familiarizado com a sua temperatura corporal e em quê o pecado é mais inclinado a você, e também em que situação o pecado te deixa mais vulnerável, e nisso você deve ser mais rigoroso.

 

30º. Orientação

Mantenha sua vida em ordem santa, tal como Deus ordenou que você vivesse. Pois não há preservação para os retardatários que não se mantém no caminho, que abandonaram a ordem e o mandamento de Deus. E esta ordem está principalmente nestes pontos: 1) Que você mantenha união com a universal igreja. Não esteja separado do corpo de Cristo sobre qualquer pretensão que seja. Esteja na igreja como um regenerado, mantendo a comunhão espiritual em fé, amor e santidade; como um congregado, mantendo a comunhão externa, na profissão de fé e na adoração. 2) Se vocês não são mestres, vivam sob seus fiéis pastores como obedientes discípulos de Cristo. 3) Que os mais piedosos, se possível, sejam seus amigos íntimos. 4) Seja esforçado em algum chamado externo.

 

 

31º. Orientação

Coloque todas as providências de Deus, quer a prosperidade ou adversidade, contra seus pecados. Se ele te der saúde e prosperidade, lembre-se que por meio disso Ele requer sua obediência e tem um chamado especial para você. Se Ele te afligir, lembre-se que pode ser algum pecado pelo qual Ele está ofendido; portanto, agarre isso como Seu remédio e veja que você não obstrua essa obra, mas seja diligente, pois isso pode purgar seu pecado.

 

 

32º. Orientação

Espere pacientemente em Cristo até que ele tenha realizado a cura, que não acabará até que essa árdua vida chegue ao fim. Persevere na assistência do Seu Espírito e dos Seus meios; pois Ele virá no tempo certo e não tardará. “Conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor; como a alva, a sua vinda é certa; e ele descerá sobre nós com a chuva serôdia que rega a terra” (Os. 6:3). Ainda que você diga: “Não há cura para nós” (Jr. 14:19) “Eu curarei sua infidelidade, eu de mim de mesmo os amarei” (Os. 14:4). “Mas para vós outros que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, trazendo curas nas suas asas” (Ml. 4:2) “e bem-aventurado todos os que nele esperam” (Is. 30:18). Deste modo, eu dei algumas orientações que podem ser úteis para o ódio ao pecado, humilhação e libertação dele.

 

Postado por Tiago H. Souza

O Método da Evangelização Puritana – Dr. Joel Beeke

Por Dr. Joel Beeke

 

Raízes da evangelização moderna

A fim de compreendermos estes dois pensamentos (o método da evangelização Puritana e a disposição interna do coração) precisamos contrastá-los com a evangelização moderna. Só assim poderemos apreciar o aspecto característico da evangelização puritana. Para isso vamos voltar um pouco ao século XIX para considerarmos as raízes da evangelização moderna.

A evangelização moderna tem as suas raízes nos anos 1820 sob a liderança de Charles Finney, que frequentemente é chamado de “o pai” da evangelização moderna. Finney foi criado em Nova Iorque e tinha o grau de advogado. Começou sua prática como advogado nos anos de 1820 em Nova Iorque. No ano seguinte teve uma experiência religiosa muito profunda e isso o influenciou para que deixasse seu escritório de advocacia e se dedicasse inteiramente ao ministério. Foi ordenado pastor presbiteriano em 1824 e por 8 anos liderou eventos e reuniões de avivamento no leste dos E.U.A. Por quatro anos trabalhou como pastor em Nova Iorque e nos últimos quarenta anos de sua vida foi professor na Universidade de Oberlin no estado de Ohio. Através dessas décadas ele continuou fazendo reuniões de avivamento. Ele inventou aquilo que se chama de “novas medidas” para avivamento que incluem: (a) reuniões com muita emoção e (b) o banco dos “ansiosos”. Eram reuniões evangelísticas caracterizadas por uma atividade intensa, que duravam dois ou três dias e nos quais Finney pregava duas vezes ao dia. O banco dos “ansiosos” era o primeiro banco da igreja que era deixado vazio para que as pessoas ansiosas pudessem vir e se assentar ali, recebendo uma ministração individual. No final dos seus sermões Finney diria: “Aqui está o banco dos “ansiosos”, se vocês estiverem do lado do Senhor, venham à frente.” Hoje a evangelização de massa, é um desenvolvimento das chamadas “novas medidas” dos avivamentos de Finney.

Em suas campanhas evangelísticas, Billy Graham apresenta um estilo polido destas cruzadas feitas por Finney. Essas chamadas ao altar para que as pessoas venham à frente e confessem Jesus Cristo, é uma versão moderna do banco dos “ansiosos”. Hoje nós estamos tão acostumados com este estilo de evangelização moderna, que dificilmente percebemos que é uma inovação na história da Igreja. Com frequência nos esquecemos de quão distante está da evangelização bíblica. Tanto Finney, quanto a evangelização moderna, cometeram alguns erros básicos em diferentes aspectos das Escrituras. Vamos mencionar quatro áreas em que se afastaram dos princípios bíblicos.

Deficiências da evangelização moderna

Uma Pintura que retrata a evangelização puritana

1. Aceitação do pelagianismo. Embora certos elementos calvinistas estejam presentes, a evangelização moderna, seguindo a teologia de Finney, é essencialmente arminiana na sua apresentação do evangelho. Finney era confessadamente um pelagiano (Pelágio foi um herege do século IV que sofreu dura oposição de Agostinho). Ele negava que o homem caído fosse incapaz de se arrepender. Dizia que cada pessoa tem a liberdade e a vontade livre de arrepender-se e voltar-se para Deus; que cada pecador pode resistir ao chamado do Espírito Santo, e que este Espírito apenas apresenta-lhe razões pelas quais ele deve ir a Deus. O pecador, entretanto, é livre para aceitar ou rejeitar as razões apresentadas. Dessa forma, em última análise, a salvação não é uma obra de Deus, é realmente um trabalho do próprio homem. Finney escreveu o seguinte: “Pecadores vão para o inferno apesar de Deus”. Finney negou os cinco pontos do calvinismo, e não subscreveu os ensinamentos de Jesus de que o homem precisa nascer de novo, nascer do alto, doutra forma ele não pode entrar no reino de Deus.

2. Finney e a evangelização moderna colocam uma pressão indevida sobre a vontade humana. Se a vontade humana, pecadora, é livre, segundo os evangelistas semipelagianos afirmam, a pregação é reduzida simplesmente a uma batalha entre a vontade dos ouvintes e a vontade do pregador. O resultado disso é que todos os meios que o pregador puder usar para persuadir os seus ouvintes a aceitar a Cristo, acabam se tomando lícitos, mesmo que sejam baseados num excesso de emocionalismo do auditório. O alvo principal nestes casos é mover a vontade do homem, e levá-lo a fazer uma decisão imediata. O contrário disso, vemos no ensino de João 1: 13: “… os quais não nasceram do sangue nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”.

3. Finney e a evangelização moderna reduzem o processo de conversão a um espaço curto de tempo. Isso não é bíblico! A Bíblia apresenta a conversão como sendo um processo por vezes demorado. Entretanto, para a evangelização moderna, a conversão é um processo de mais ou menos dez minutos. Recentemente foi escrito um livro sobre evangelização que faz com que o evangelista caia em profundo sentimento de culpa, se demorar mais de dez minutos para converter alguém. Chegamos a conclusão que, para muitos evangelistas modernos, a salvação não é mais aquele trabalho miraculoso, soberano e misterioso do Espírito Santo de Deus, e sim, o trabalho calculável da ação do homem. Isso é contrário ao que lemos em João 3:8: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”. O que realmente tem acontecido nos últimos 175 anos, é o seguinte: Finney e a evangelização moderna perderam o sentido de conversão bíblica; perderam o conceito de conversão como uma obra miraculosa; perderam o sentimento daquela dependência total do homem em Deus, na sua conversão.

4. Grande parte dos resultados da evangelização moderna é questionável. Diversos estudos têm provado que a evangelização de massa, utilizado em grande parte nas cruzadas, em que o próprio homem decide a sua salvação, leva, finalmente, a um cristianismo muito superficial, que quase não dá fruto. Isso não quer dizer que não existam certos indivíduos a quem Deus realmente converteu em tais tipos de reuniões. A Bíblia diz que Deus pode fazer com que uma vara torta se tome reta. Entretanto, esse fato não nos isenta da responsabilidade em apresentar aos nossos ouvintes uma evangelização bíblica e saudável, uma evangelização que tenha uma profundidade maior, uma evangelização que começa, centraliza-se e termina em Deus. É isso que descobrimos quando nos voltamos para o método dos puritanos.

Estilo direto de pregar

Quando nos referimos aos métodos da evangelização puritana, não estamos dizendo que devemos copiar cada detalhe dos puritanos. Muito da linguagem dos puritanos, por exemplo, está fora de época. Ainda assim os seus métodos têm muito para nos ensinar. O método puritano foi chamado pelos próprios puritanos, e por estudiosos hoje, de o “estilo direto de pregação”. Um dos pais do puritanismo, William Perkins, escreveu o seguinte: “A nossa pregação precisa ser direta e evidente. É um dito comum entre nós: “este foi um sermão direto. “Eu digo que quanto mais incisivo e simples for o sermão, melhor”. Um dos grandes pregadores puritanos chamado Henry Smith disse o seguinte: “Pregar de uma maneira direta, não é pregar de uma maneira dura e cruel”. Também não significa pregar de qualquer forma, sem estudo. Significa pregar o sentido pleno das Escrituras de uma maneira tão clara que o homem mais simples possa entender o que esteja sendo ensinado, como se ele estivesse ouvindo seu próprio nome ser chamado.

Implementando este estilo simples e incisivo de pregação, os puritanos seguem um processo de três passos:

(1) Escolhem e estudam seu texto. (2) Fazem uma exegese desse texto, dando o seu sentido básico, e em seguida coletam do texto duas ou três doutrinas, que fluem dele. (3) Em seguida, aplicam estas doutrinas de uma forma prática ao coração dos seus ouvintes. Dessa forma, a primeira parte do sermão é exegética, a segunda parte é doutrinária e a terceira é aplicativa. À quarta parte eles chamavam de “como usar”, que é a parte prática do sermão, como usar os ensinos na vida diária. Eles dividem a aplicação em duas partes, uma para os ouvintes que são salvos, e a outra para os não salvos. Aplicam a cada indivíduo o que o texto pregado tem a dizer para ele. Dessa forma, o ouvinte, ao sair da igreja, sabia com toda clareza o que aquele texto do sermão tinha a dizer a si em particular.

Vamos focalizar quatro qualidades deste estilo direto de pregar.

1. Usavam um método racional de pregar. Eles pregavam a criaturas racionais. Trabalhavam arduamente para mostrar aos pecadores a loucura de não buscar o Senhor. Eles procuravam mostrar às suas congregações o aspecto racional de todas as doutrinas da graça. John Owen, por exemplo, expunha à sua congregação como a doutrina da eleição era racional e lógica. Eleição é a primeira coisa do lado de Deus, mas é a última coisa que é conhecida do lado daquele que crê. Eles usavam este tipo de ensino para alcançar a mente e também a consciência. Labutavam para conduzir cada ouvinte a esta conclusão. Seria totalmente ridículo não buscar o Senhor. Ridículo em função do julgamento que há de vir, mas também em termos da maneira como vivemos nesta vida presente.

2. Tinham uma pregação afetuosa, apaixonada. É uma coisa rara nos nossos dias encontrar um pregador que tanto alimenta a mente dos ouvintes com substância bíblica sólida, quanto também mova os seus corações, com um calor afetivo. Mas, esta combinação era coisa comum aos pregadores puritanos. Falavam com amor e com convicção. Pregavam com uma chamada clara à fé e ao arrependimento. Pregavam com paixão o terror do pecado. Pregavam com calor a respeito de Jesus Cristo. Derramavam do púlpito suas próprias almas em seus sermões. Eles praticamente davam suas vidas pelo seu povo. Suplicavam aos seus ouvintes que se reconciliassem com Deus, não porque pensassem que eles podiam se reconciliar com um Deus santo, mas porque eles sabiam que o Deus todo-poderoso usa a loucura da pregação para salvar aqueles que realmente vão crer. Sabiam, pelas Escrituras, que somente o Cristo onipotente podia vivificar um pecador espiritualmente morto e mortificar a sua pecaminosidade, separá-lo dele mesmo, fazendo-o desejoso de abandonar o seu pecado e voltar-se para Deus e para a salvação completa por Ele oferecida. A pregação puritana apresentava todas estas verdades com paixão.

3. A evangelização puritana era reverente e sóbria. Os puritanos geralmente não usavam humor nos seus sermões; não acreditavam em contar histórias engraçadas com a finalidade de levar pessoas a se interessarem por Cristo. O alvo deles era exatamente o oposto. Eles procuravam fazer as pessoas se tomarem mais sóbrias diante das grandes exigências do Criador e diante do grande juízo que está chegando. Diante da eternidade, Deus é digno de ser adorado; digno por causa dEle mesmo e por causa de Seu Filho.

4. A evangelização puritana se caracterizava por fazer uma análise específica de temas bíblicos. Se um puritano pregasse sobre o inferno, o sermão inteiro seria sobre o inferno. O mesmo aconteceria se pregasse sobre o céu, todo o sermão seria sobre o céu. Noutras palavras, eles pregavam o seu texto o tempo todo. Calculavam que assim, após certo período de tempo, teriam coberto cada assunto principal da Bíblia. Assim, procuravam edificar o seu povo em todo o conselho de Deus, demonstrando sua apreciação por todo o ensinamento das Escrituras. Quero dar alguns exemplos. Os títulos que vou dar agora são de um livro de um puritano: “Quantos Já Experimentaram Uma Vida Seriamente Identificada com Deus?”; “Qual o Melhor Preservativo Contra a Depressão Espiritual”; “Como Podemos Crescer no Conhecimento de Cristo?”; “O Que Precisamos Fazer Para Evitar o Orgulho Espiritual?”; “Como Devemos Lidar Com Doutrinas Que Não Podemos Compreender Completamente?”; “Como Podemos Conhecer de Uma Forma Melhor o Valor Real da Nossa Alma?”. Espero que vocês estejam percebendo quão específicos eram os puritanos ao pregarem o seu texto bíblico, e como depois de certo período de tempo eles conseguiam falar a respeito de todo o conjunto de verdades espirituais.

Os puritanos reforçavam os seus sermões com uma evangelização catequética. O pastor puritano típico visitava o lar dos membros da sua igreja pelo menos uma ou duas vezes ao ano. Eles catequizavam cada criança em cada lar e estas crianças também vinham para a aula de catecismo na igreja. Eles treinavam os pais em cada família para que também fizessem o estudo do catecismo com suas crianças no culto doméstico. Normalmente levavam 30 a 40 minutos por dia para essa atividade. No domingo à noite davam treinamento aos pais para que pudessem analisar o sermão do dia com as crianças por duas razões: para levar o sermão ao nível de uma criança e também para levar o pai a lembrar o sermão. Os puritanos tinham como alvo evangelizar a família inteira. Eles não estavam buscando convertidos de “dez minutos” ou uma decisão momentânea do coração. Eles procuravam convertidos que permanecessem convertidos a vida inteira, cujas mentes e corações tivessem sido vencidos, tornando-se cativos pela Palavra de Deus.

 

Postado por Tiago H Souza