Cristão se encontra com Interesse-Próprio – Livro “O Peregrino” de Bunyan

Abaixo segue um trecho do famoso livro O Peregrino de John Bunyan. Neste capítulo Cristão e Esperança se deparam com Interesse-Próprio e seus companheiros: Apego-ao-Mundo, Amor-ao-Dinheiro e Avareza.

 

Por John Bunyan no Livro “O Peregrino.”

Cristão, personagem do livro "O peregrino" um clássico da literatura deJohn Bunyan publicado em 1678

Vi, então, no meu sonho, que Cristão e Esperança o abandonaram, conservando-se ambos a certa distância na sua frente. Um deles, olhando para trás, viu três homens que seguiram Interesse-Próprio, o qual cumprimentou respeitosamente quando eles se aproximaram, recebendo em troca afetuosas saudações. Eram estes três recém-chegados os senhores Apego-ao-Mundo, Amor-ao-Dinheiro e Avareza, antigos conhecidos de Interesse-Próprio, que juntamente com ele freqüentavam a escola do senhor Cobiça, na cidade de Amor-ao-Ganho. Esse sábio professor ensinara-lhes a arte de adquirir, tanto pela violência, pela fraude, pela adulação e pela mentira, como sob o pretexto de religião, e todos os quatro tinham aproveitado com as lições, a ponto de poder qualquer deles tomar sobre si o encargo de reger a escola.

Depois de se haverem saudado reciprocamente, como já disse, Amor-ao-Dinheiro perguntou a Interesse-Próprio quem eram os que iam na frente, pois ainda avistava ao longe Cristão e Esperança.

Interesse-Próprio – São dois habitantes dum país longínquo, que vão peregrinando a seu modo.

Amor-ao-Dinheiro – Que pena é não se terem demorado mais um pouco, para podermos gozar da sua boa companhia, porque todos somos peregrinos!

Interesse-Próprio – É verdade; mas aqueles são tão rígidos, amam tanto as suas idéias, e têm tão pouca consideração pelas de outrem, que, por mais piedoso que seja, ninguém lhes agrada se não pensa como eles, e logo se apartam da sua companhia.

Avareza – Isso é mau; mas há muitos exemplos de pessoas demasiado justas, cuja rigidez os faz julgar e condenar a todos, exceto a si próprias. Quais eram, então, os pontos em que divergiam as suas opiniões?

Interesse-Próprio – Eles asseguram, na sua inflexibilidade, que devem prosseguir em seu caminho contra todos os demais, enquanto eu quero esperar o vento e a maré; eles não duvidam arriscar tudo por Deus, e eu desejo aproveitar-me de todas as ocasiões para assegurar a minha segurança e os meus bens; eles empenham-se em sustentar as suas idéias, ainda que estejam em oposição às de todo o mundo, e eu sigo os preceitos da religião enquanto e até onde permitem os tempos e a minha própria segurança; eles estimam a religião, ainda que seja pobre e desgraçada, eu estimo-a quando ela anda com esplendor e com aplauso.

Apego-ao-Mundo – Tendes vós muita e muita razão. Pela minha parte, considero muito tolo aquele que, podendo guardar o que tem, é tão néscio que o deixa perder. Sejamos sábios como serpentes e ceifemos a erva em tempo próprio. A abelha conserva-se imóvel durante o inverno, e só aparece quando pode reunir o proveito com prazer. Deus manda o sol e a chuva, alternadamente. Se eles querem andar à chuva, deixemo-los, e vamos nós andando com o bom tempo. Pela minha parte, prefiro a religião que seja compatível com a posse e com as dádivas de Deus. Pois se Deus nos concedeu as coisas boas da vida, quem será tão destituído de razão que possa imaginar que o Senhor não quer que as conservemos e guardemos por causa dele? Abraão e Salomão enriqueceram – na sua religião. Jó diz-nos que o homem bom entesourará ouro como pó. Mas, por certo, não seria assim com esses que vão aí adiante, se efetivamente são como vós dizeis.
[…]

Interesse-Próprio – Amigos, pelo que se vê, todos somos peregrinos, e, para melhor nos apartarmos das coisas más, permitam-me que lhes proponha uma questão. Suponhamos que um pastor de almas, ou um comerciante, a quem se apresentasse a ocasião de possuir as boas coisas desta vida, mas que não pudesse alcançá-las de modo algum sem que fizesse, pelo menos na aparência, extraordinariamente zeloso em algum ponto da religião, com que até então se não houvesse importado muito; não lhe será permitido empregar os meios necessários para obter o seu fim, sem por isso deixar de ser homem honrado?

Amor-ao-Dinheiro – Vejo o fundo da vossa questão, e, com o amável consentimento destes cavalheiros, vou dar-vos uma resposta, que considerarei primeiro em relação ao pastor. Imaginemos um homem desta classe, um homem bom, que possui um benefício muito pequeno, e que, na expectativa de outro mais cômodo e mais rendoso, tem ensejo de obter, com a condição de ser mais estudioso, de pregar mais e com maior zelo; apesar das opiniões contrárias, eu não vejo razão alguma para que este homem não possa fazer isso e ainda muito mais, uma vez que tenha ocasião, e sem deixar de ser homem honrado. E por que?

1º) Desejar um benefício melhor é lícito, sem a menor contradição, posto que seja a Providência que o depara; e assim pode obtê-lo se isto está ao seu alcance e não se prende com questões de consciência.

2º) Além do que, o desejo desse benefício torna-o mais estudioso e mais zeloso pregador, obriga-o a cultivar mais o seu talento, tudo o que é, sem dúvida, muito em conformidade com a vontade de Deus.

3º) Quanto a acomodar-se ao caráter do seu povo, deponho em suas asas alguns dos seus princípios, isto supõe: a) que é dotado dum espírito cheio de abnegação; b) de proceder doce e atrativo; c) que é mais apto, portanto, para o ministério pastoral.

4º) Deduzo, pois, que um pastor, que troca um benefício pequeno por outro maior não deve ser alcunhado de avarento. Antes, pelo contrário, deve considerar-se que não faz senão seguir a sua vocação e aproveitar-se da oportunidade de fazer o bem que se lhe depara.

Quanto à segunda parte da questão, isto é, com referência ao negociante, suponhamos que o seu negócio é muito reduzido, mas que, tornando-se religioso, pode melhorar de sorte, encontrando talvez uma esposa rica, ou maior número de fregueses. Quanto a mim não vejo razão alguma para que isto não possa fazer-se com lisura; porque,

1º) tornar-se religioso é uma virtude, qualquer que seja o caminho que se siga para o realizar;

2º) também não é ilícito procurar uma esposa rica ou mais e melhores fregueses;

3º)além do que, o homem que alcança estas coisas fazendo-se religioso, obtém uma coisa boa de outras igualmente boas, e torna-se a si mesmo bom; consegue muitas coisas boas, boa esposa, bons fregueses, bons ganhos, e torna-se bom. Logo, fazer-se religioso para obter todas estas coisas é uma tentação boa e de proveito.

Estas palavras de Amor-ao-Dinheiro foram muito aplaudidas por todos, concluindo-se unanimemente que tal doutrina era sã e vantajosa.

E, como lhes parecia que não podia ser contestada, resolveram apressar o passo para proporem a questão a Cristão e Esperança, […]

Cristão respondeu nestes termos:

Cristão – Não só eu, mas qualquer novato em religião poderia facilmente responder a mil perguntas como essa; se é ilícito seguir a Cristo por causa dos pães, como se vê em João 6:26, quanto mais abominável será servir-te de Cristo e da religião como meio para conseguir e gozar as coisas do mundo! Só os gentios, os hipócritas, os demônios e os feiticeiros poderão aceitar semelhante opinião.

1°) Os gentios: Quando Hamor e Siquém quiseram possuir as filhas e os gados de Jacó, e viram que não havia outro meio para conseguir senão deixarem-se circuncidar, disseram aos seus companheiros:”Se todos os nossos varões se circuncidarem, como eles fazem, todos os seus gados e toda a sua fazenda serão nossos”. (Leia-se toda a história em Gênesis 34:20-24) O que eles buscavam eram as filhas e os gados de Jacó. A religião era apenas o meio de obterem o seu fim.

2º) Os fariseus hipócritas também foram religiosos deste gosto. Grandes orações eram entre eles o pretexto para devorarem a casa das viúvas, e por isso o resultado foi maior condenação da parte de Deus (Lucas 20:46-47).

3º) Tal era também a religião de Judas. Este demônio era religioso pela bolsa e pelo que ela continha; mas perdeu-se e foi expulso como filho da perdição.

4°) Nesta religião estava também filiado Simão Mago, porque queria possuir o Espírito Santo para ganhar dinheiro; mas recebeu da boca de Pedro a merecida sentença (Atos 8:18-23).

5º) Também não posso deixar de dizer que todo aquele que toma a religião para possuir o mundo, a deixará, se necessário for, para não abandonar este; pois é tão certo que Judas se fez religioso por causa do mundo como é certo que pela mesma causa vendeu sua religião e o seu Senhor. Responder afirmativamente à questão que opusestes, como me parece que vós tendes respondido, e aceitar essa resposta como boa é ser pagão, hipócrita e filho da perdição, e assim a vossa recompensa será condigna com as vossas obras.

Ouvindo este discurso, ficaram os falsos peregrinos sem saber o que haviam de replicar. Então Cristão disse para o seu companheiro: Se estes homens não podem sustentar-se ante a sentença do homem, o que será quando se apresentarem no tribunal de Deus? Se os vasos de barro os fazem calar, o que será quando forem repreendidos pelas chamas dum fogo devorador?

 

Postado por Tiago H. Souza