A Reforma e Missões – A Presença da Igreja como agente de expansão da Palavra pregada – Ronaldo Lidório

A Reforma Protestante desencadeada com as 95 teses de Lutero divulgadas em 31 de outubro de 1517 foi sobretudo eclesiástica em um momento em que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a Igreja cria e vivia. Renasceram assim os dogmas evangélicos. A Sola Scriptura defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, Palavra de Deus; a Sola Gratia reconhecia a salvação e vida cristã fundamentadas na Graça do Senhor e não nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava construindo Sua Igreja na terra sendo seu único Senhor e a Soli Deo Gloria enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus.

A Missão da Igreja, sua Vox Clamantis, não fez parte dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isto por um motivo óbvio: os reformadores como Lutero, Calvino e Zuínglio possuíam em suas mãos o grande desafio de reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e assim todos os escritos foram revestidos por uma forte convicção eclesiológica e sem uma preocupação imediata com a missiologia. Isto não dilui, entretanto, a profunda ligação entre a reforma e a obra missionária por alguns motivos:

a) A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus (submetendo o próprio sacerdócio a este crivo bíblico) e foi justamente esta ênfase escriturística que despertou Lutero para a tradução da Palavra na língua do povo e inspirou posteriormente centenas de traduções populares em diversos idiomas fomentando posteriormente movimentos como a Wycliffe Bible Translators, com a visão da tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra. Hoje contamos com a Palavra do Senhor traduzida para 2.212 línguas vivas. João Calvino enfatizava que “… onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza… não há dúvida de que existe uma Igreja de Deus ”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente dos ensinos reformados.

b) A Reforma reavivou o culto onde todos os salvos, e não apenas o sacerdote, louvavam e buscavam a Deus. E Lutero em uma de suas primeiras atitudes colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Esta convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja pós reforma o pensamento multiétnico onde “o desejo de levar o culto a todos os homens”, como disse Zuínglio, não demorou a ressoar na Igreja culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela Igreja Reformada holandesa no século XVII. Tal fato disparou um progressivo envio missionário e expansão da fé Cristã nos séculos que viriam. Um culto vivo ao Deus vivo foi um dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar este culto a todos os homens transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas.

c) A Reforma trouxe a Glória de Deus como motivo de vida da Igreja e isto definiu o curso de todo o movimento missionário pós reforma onde o estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada entre outros povos. Os morávios já testificavam isto quando o conde Zinzendorf, ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial movimento missionário, responde: “estou indo buscar para o Cordeiro o galardão do Seu sacrifício”. John Knox na segunda metade do século XVI escreveu que a Genebra de Calvino era “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”. O centro das atenções portanto era Cristo e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores.

Mas, sobretudo, a Reforma Protestante submeteu a Igreja ao crivo da Palavra e isto revelou-nos a nossa identidade bíblica, segundo o coração de Deus. Seguindo o esboço desta eclesiologia reformada poderemos concluir que somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor com uma finalidade na terra. Zuínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões expositivos em janeiro de 1519, afirmou em sua primeira prédica que “a salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência ”.

Seguindo esta ênfase eclesiológica sob cunho escriturístico vemos que Ekklesia, Igreja, é um termo composto que pode ser dividido em “Ek” (para fora de) e “Klesia”, que vem de “Kaleo” (chamar). Etimologicamente pode, portanto, ser entendida como “chamada para fora de” o que a principio nos dá uma ideia mais real desta comunidade dos santos que entra em um templo mas precisa postar seus olhos além muros. Obviamente o termo também está ligado a “agrupamento de indivíduos” e de certa forma a “instituição” porém, em todo o N.T. adquire o conceito de “comunidade dos santos” e fora MT. 16:18 e 18:17 está ausente dos evangelhos aparecendo, porém, 23 vezes em Atos e mais de 100 vezes em todo o Novo Testamento. Gostaria que déssemos atenção neste momento a alguns conceitos neotestamentários e reformados para esta comunidade dos filhos de Deus que foram demoradamente estudados pelos reformadores e impulsionam a Igreja hoje para uma obra missionária baseada na Sola Scriptura e para a glória de Deus.

1. Igreja de Deus
 Comumente encontramos no N.T. a expressão “Igreja de Deus” (“Ekklesia tou Theou”) o que evidencia que esta Igreja veio de Deus e pertence a Deus. É uma comunidade que possui Deus como fonte; é eterna, espiritual e universal. Não provém de elucidação humana ou de uma obsessão nutrida por um grupo de loucos há 20 séculos, antes foi articulada por Deus, formada por Deus, é pertencente a Deus e permanece ligada a Deus. Independente das deturpações da fé, das ramificações que se liberalizaram, dos que se perderam pelo caminho, a Igreja permanece, pois é posse de Deus.

Desta forma a “Ekklesia tou Theou” necessita caminhar de acordo com o palpitar do coração de Deus, a quem pertence, traduzindo para sua vida os desejos profundos deste coração. É baseados nesta verdade que necessitamos renovar nosso compromisso com a eclesiologia bíblica – um grupo de santos chamado por Deus para a inusitada tarefa de transtornarem o mundo com o evangelho de Cristo.

2. Igreja local
 Também no N.T. encontramos o conceito de “igreja local”. Em 1o Co 1:12 vemos, por exemplo, a expressão “Igreja de Deus que está em Corinto”, onde “que está” (“te ouse”) indica a localidade da igreja. Mostra-nos que os santos de Corinto pertencem à Igreja, e não que a Igreja pertence à Corinto, o que deve ficar bem claro. Nos últimos 2.000 anos a Igreja adquiriu uma forte tendência de se “localizar” condicionando-se tão fortemente a uma cidade ou bairro a ponto de alguns chegarem a defender uma “demarcação” geográfica da responsabilidade da Igreja impedindo trabalhos fora da sua “jurisdição”.

Num conceito neotestamentário “Igreja” é uma comunidade sem fronteiras e, portanto, creio que há necessidade de sacramentalizarmos mais os santos e menos os templos. Missões não é um programa eclesiástico, é a respiração da Igreja. Lembro que na tribo Konkomba no oeste africano há uma expressão que diz: “respiração é vida – não é preciso pensar para respirar; não é preciso pensar para viver”.

3. Igreja humana
 Também dentro do conceito de “Igreja” nos deparamos no N.T. com um perfil bastante humano. Em 1 Ts 1.1 por exemplo vemos “igreja de Tessalônica” (“ekklesia Thesalonikeon”) dando-nos a ideia daqueles que são Igreja também sendo Tessalônicos, cidadãos de Tessalônica.

Mostra-nos o fato de que por serem “Igreja” não significa que deixam de ser cidadãos, patriotas, carpinteiros, lavradores, comerciantes, desportistas, pais, mães ou filhos. “Igreja” no N.T. não é apresentada como uma comunidade alienante, mas como uma comunidade que abrange o homem em seu contexto humano fazendo-nos entender que esta Igreja não foi separada do mundo e sim purificada dentro dele. Mostra-nos também que na obra missionária não há super homens mas sim gente como a gente tendo o privilégio de espalhar o Evangelho de Cristo além fronteiras.

No livro de Atos, a humanidade passo a passo era chocada com a fé daqueles que “transtornavam o mundo”, onde o viver é Cristo, o objetivo era ganhar almas, a alegria era a adoração, o que os unia era a verdadeira comunhão, o amor era traduzido em ações, os fortes guiavam os fracos, as dificuldades eram enfrentadas com oração, a paz enchia os corações e todos, mesmo sem muita estrutura humana, possuíam como finalidade de vida apenas testemunhar do seu Mestre. Era uma Igreja visionária formada por gente limitada como nós.

Entretanto, quando olhamos para esta Ekklesia do Senhor Jesus no contexto embrionário do Novo Testamento a pergunta que salta aos olhos é: qual deve ser a principal motivação dos santos para o envolvimento com a obra missionária mundial fazendo Cristo conhecido entre todos os povos da terra? Nesta expectativa olhamos para Paulo o qual, como missiólogo, expôs aos Romanos a nossa real motivação bíblica e reformada.

Para isto é preciso reler Romanos 16:25-27 quando o apóstolo, encerrando esta carta de grande profundidade missiológica, diz:

“Ora, àquele que é poderoso para
vos confirmar segundo o meu evangelho “
(fala de Deus)

“conforme a revelação do mistério ”
(o mistério é o Messias prometido a todos os povos)

“e foi dado a conhecer por meio das Escrituras Proféticas”
(este é o meio de Revelação)

“segundo o mandamento do Deus eterno”
(este é o meio de Eleição)

“para a obediência por fé ”
(este é o meio de Salvação)

“entre todas as nações ”
(Isto é Missões – a extensão do plano salvífico de Deus)

Mas qual o motivo para este plano divino que visa a redenção de todos os povos? Ele responde no verso 27: “Ao Deus único e sábio seja dada glória …”

É a glória de Deus. Este é o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da criança caída na esquina da nossa rua.

Martinho Lutero, em um sermão expositivo em 1513 baseado no Salmo 91 afirmou que “a glória de Deus precede a glória da Igreja”. É momento de renovar nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o próprio Jesus está construindo a Sua Igreja na terra. E quando colocarmos as mãos no arado, sem olhar para trás, nos lembremos: a razão da nossa existência é a glória do Deus. Pois Deus é maior do que nós

A Missiologia no Livro de Rute – Tiago H. Souza

Rute colhendo espigas no campo de Boaz, o resgatador.INTRODUÇÃO:

       – O livro de Rute tem seu destaque entre os livros do Antigo Testamento. Não é difícil explicar a atração exercida por esse breve livro.  A história contada no livro de Rute tem gerado varias opiniões entre os estudiosos. Alguns a vem como um simples romance, outros asseveram que de fato o evento aconteceu, mas todos concordam que Yahweh  intervém na história e surpreende a todos colocando uma moabita como descendente abraâmica. O autor dedicou  grande esforço para tornar seu livro em uma obra de arte,e é evidente que teve o propósito de que fosse aceito como histórico. É uma historia verdadeira, contada com beleza, seguindo o estilo das narrativas  patriarcais, em que aparecem alguns dos mesmos temas, como a fome, o exílio e a esterilidade, mediante o qual Yahweh se torna conhecido. Como que em uma novela, o livro de Rute apresenta um estilo altamente artístico em sua estrutura. Nessa historia, um enredo desenvolve-se em certo numero de episodio até atingir um desfecho e assim comunicar uma lição que os leitores devem interpretar.

            O livro de Rute nos relata o soberana intervenção de Deus sobre a história e sobre o tempo, demonstrando que suas promessas e bênçãos podem vir ao seu povo da maneira mais improvável. A fidelidade de Deus em Rute é vista quando este Deus faz de uma tragédia em Moabe uma benção para seu povo em Belém, incluindo uma pagã na linhagem direta do Rei Davi.

 

Titulo: 

– O nome “Rute” significa “amizade”, uma característica verdadeira daquela que deu o nome ao livro. É um dos seis livros históricos que levam o nome das principais figuras de ação e vida descritas neles (Josué, Rute,Samuel,Esdras,Neemias e Ester) É um dos dois livros bíblicos que levam o nome de uma mulher: Rute(a gentia que se casou com um rico judeu de linhagem real da promessa) e Ester (a judia que se casou com um rei gentio).

 

Autoria: 

– O livro não fornece nenhum indicio quanto á identidade do autor. A tradição judaica atribui a autoria do livro a Samuel, mas Samuel morreu antes de Davi se tornar Rei (1 Samuel 28:3). O mais provável é que o autor tenha sido um mestre-narrador, comissionado pela família real, para registrar a soberana intervenção de Deus na constituição da árvore genealógica real.

 

Data:

– Estudiosos da linha mais radical defendem uma data mais recente para o livro, argumentando que o uso de tradições deutoronomicas aponta para uma data posterior ao reinado de Josias (640-609 a.C). Outros poucos têm defendido a data do livro como próximo a era monárquica, o que é coerente com o conhecimento dos fatos relatados no livro e a ausência do nome de Salomão na genealogia.

 

 Contexto Histórico:

 O fato ocorrido no livro de Rute tem como pano de fundo o período dos juízes (1.1), um tempo de apostasia, desordem moral e social entre o povo. Em consonância com as maldições da aliança, uma terrível fome assolou a terra fazendo uma família efratita a peregrinarem em busca de pão chegando assim a uma terra chamada Moabe.

 

A Teologia de Rute: 

– A entrada de Rute na nação da aliança com todos os privilégios desta foi pronunciada pela posição dela como viúva estrangeira que, em uma época de necessidade desesperadora, foi salva de sua desesperança por um redentor que  pagou a hipoteca da propriedade da sogra dela, ao mesmo tempo, tomou a jovem como esposa. Não há dúvida de que Rute, apesar de sua etnia, serve como modelo de graça redentora de Deus. Desde o princípio, Deus tinha o propósito de produzir uma semente de Abraão que não só modelaria a natureza e o etos do Reino do Senhor, mas que também atrairia as nações da terra a o buscar e o encontrar, tornando-se, assim servos Dele.

A Missiológia de Rute:

Como em vários outros livros do Antigo Testamento, Rute quer evidenciar o chamado de Deus para outras nações. No caso de Rute, Moabe é representada por Rute que é inclusa em Israel por intermédio da sua lealdade a sua sogra Noemi e sua disposição em se casar com Boaz, cuja hombridade trouxe segurança para Noemi. A mensagem Missional tem como objetivo ligar Davi a aliança abraâmica via a moabita e pagã Rute, que por sua vez, tornar-se-ia bisavó de Davi e ancestral direta de Cristo. O livro é um tiro contra o atnocentrismo hebreu, destacando a soberania de Deus em causar fatos e até mesmo tragédias em prol de salvar seus escolhidos, que no caso de Rute, estava alem dos limites étnicos de Israel.

 

 Contribuições singulares de Rute: 

1-    A Missão das Mulheres:

Dois livros do antigo Testamento têm nome de mulher: Rute, no início da história de Israel em Canaã, e Ester, no término da história de Israel do antigo Testamento. Rute foi umas das mulheres mais preeminentes no período inicial dos juízes. Outras foram Débora, Jael ,  a filha de Jefté e a mãe de Sansão. No livro de Rute, a simpatia de Noemi em difíceis provações traz sua nora para o Deus de Israel. O amor de Rute transcende laços raciais, e as duas virtuosas mulheres cumprem a lei dos judeus. Assim fazendo, contribuem para o nascimento de Davi, o grande rei salmista. O autor achou o relato da vida de duas nobres mulheres merecia um lugar na história de Israel, juntamente com as historias de grandes homens Israelitas.

 

2-    Fé dos gentios no Antigo Testamento (1:6):

A declaração de fé realizada por Rute é um clássico do Antigo Testamento: “O teu povo é meu povo, o teu Deus é o meu Deus”. Embora não seja a primeira conversão de gentios registrada no antigo Testamento, a conversão de Rute é a mais detalhada e famosa. Apresenta também um contraste interessante com a conversão de sua segunda sogra, Raabe. Enquanto a de Raabe é apresentada como uma reação ao medo do julgamento que viria, a de Rute é uma reação ao amor (Josué 2:9-13; Rute 1:16). O Senhor usa tanto o amor como o medo para ativar a fé de gentios no Antigo Testamento.

 

3-    A Providencia em Meio a Tragédia de Uma Família:

Rute é o único livro da Bíblia que focaliza as provações e dificuldades de uma única família, em vez de uma tribo ou nação numa perspectiva maior. O livro trata de uma viúva de Israel, atingida pelo triplo infortúnio de haver perdido o esposo e os dois filhos, depois de a fome te-la forçado, a ela e à família, a sair de Belém. Como o livro de Ester, essa história demonstra como Deus age na infelicidade a fim de cuidar dos seus fiéis em tempos mais difíceis, e como Ele fez com aquelas provações contribuíssem para o nascimento de Davi e, mais tarde, para a vinda do Messias.

 

4-    A Relação dos Moabitas com Davi e o Messias (4:18-22):

Embora os moabitas fossem descendentes de Ló e sua filha (por incesto) e fossem, portanto, primo de Israel, foi-lhes negada entrada na congregação israelita “até a décima geração” em virtude de sua hostilidade para com os judeus quando eles saíram do Egito (Deuteronômio 23:3-6). Por que, então, Rute foi bem recebida por Israel dentro de duas ou três gerações? Evidentemente aquela lei aplicava-se aos homens moabitas e não às mulheres, de modo semelhante ao regulamento registrado em Deuteronômio 21:10-13 acerca da mulher moabita enfatiza que, embora a linhagem de Davi e do Messias fosse formada apenas de hebreus pelo lado paterno, ela inclui muitas mulheres gentias. Tamar e Raabe eram cananéias, Rute moabita e Naamá, mãe de Roboão, amonita. O Messias realmente veio de extensa gama de nacionalidades pela linhagem materna.

 

5-    Rute: Meditação de Israel para o Pentecoste:

Esse livro era lido anualmente pela nação, em público, quando se reuniam para a festa de verão do pentecoste. A colheita lembra-os da colheita anterior de cevada dada por Deus e da recompensa do culto de amor que ainda viria. Do mesmo modo que o Pentecoste comemorava a primeira safra, a leitura de Rute recordava  a colheita das primícias dos gentios.  Lembrando que o Pentecoste do Novo Testamento comemora as primícias da colheita divina na Igreja, sendo gentios muitos desses crentes.

6-    Cristologia em Rute:

Há duas referencias básicas a Cristo no livro de Rute, ambas relativas a Boaz:

a-    Deduz-se que Boaz seja um tipo de Cristo como um parente redentor, qualificado e disposto a redimir o seu povo. É esse um aspecto da obra de Cristo ilustrado aqui. A expressão “resgatar” é usada seis vezes em Rute. Como redentor do crente, Cristo torna-se o seu Redentor para pagar todas as dívidas, seu Defensor para defendê-lo de todos os adversários, seu Mediador para conseguir reconciliação, e seu Noivo para união e comunhão perpétua.

 b-    O nome de Boaz esta registrado em todas as genealogias de Jesus, mas somente em Mateus 1:5 Rute também é mencionada. Nesta genealogia Mateus menciona de propósito o nome de Rute e de três outras mulheres estrangeiras. O ponto cristológico parece ter o objetivo de enfatizar a ampla genealogia internacional do Messias que viria trazer salvação para todas as nações. Ele não veio como um simples “Salvador” local.

 

 

A Relação Missiológica entre Rute e Gálatas 3:8

– Paulo escreve a Carta aos Gálatas para contrapor-se aos falsos mestres judaizantes que estavam abalando a doutrina central do Novo Testamento da justificação pela fé, Ignorando o decreto expresso no concilio de Jerusalém (At.15:23-29). Eles espalhavam o perigoso ensino de que os gentios deveriam primeiro, torna-se prosélitos judeus e submeter-se a todas as leis mosaicas antes de poderem se tornar Cristãos. Chocado com a receptividade dos gálatas a essa heresia demoníaca, Paulo escreveu essa carta a fim de defender a justificação pela fé e advertir essas igrejas a respeito das terríveis conseqüências de abandonar a doutrina essencial do qual já vinha sendo revelada. Em meio a sua argumentação para refutar a heresia da salvação por obras, Paulo trás a perfeita interpretação da Palavra de Deus dada a Abraão em Genesis 12:3, iluminando assim os gálatas e os advertindo que a salvação é somente pela fé, ocasionando a salvação de todos os povos.

– Quando Gálatas 3:8 se refere “… prenunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos da terra”, Paulo tem em mente que: Abraão sendo o primeiro a depositar fé nessa promessa, ele se torna tanto o patriarca daqueles que haveriam de crer, quanto o patriarca genético de Cristo. Ou seja, o que Paulo esta afirmando é que qualquer gentio de qualquer período do tempo pode ser salvo porque tal salvação é obtida mediante a fé em Cristo que foi da linhagem direta de Abraão, o pai da fé.

 – A Palavra abençoados (eveylogeo) é um verbo indicativo (ele indica uma certeza) na voz passiva (sofre ação). Gramaticalmente podemos afirmar então que todos os povos da terra de fato serão o alvo da benção de Deus depositada em Abraão. Por isso o verbo esta no tempo futuro, pois Paulo esta usando a passagem do Antigo Testamento para confirmar que a benção da justificação pela fé seria pregada as nações após Deus ter abençoado a Abraão.

– No caso de Rute podemos observar sua entrada na aliança não tão somente via o casamento com Boaz, mas crendo no Deus de Israel como sendo o seu Deus (Rute 1:16) e tendo total devoção a Ele chamando-O de Senhor. Rute creu em Deus da mesma forma que Abraão creu e a justiça também foi lhe imputada pela fé. A justificação pela fé em Rute esta em harmonia com os decretos divinos estabelecidos em Genesis 12:3 que tem como alvo a salvação não de um povo, mas de todos os povos. A devoção e a demonstração de fé exercida por Noemi fez com que Rute cresse no Deus da sua sogra, crendo aceitou ser também parte do povo Dele.

– Rute é um exemplo da forma que Deus salva os gentios em toda história. A maneira é a mesma: justificação pela fé.

 

 Considerações Finais:

   – Fica evidente no livro de Rute o propósito de Deus em relação aos povos da terra. Deus quer que eles o conheçam que o busque e que se torne seu povo. Rute deixa clara a manifestação de Deus em salvar seus escolhidos que estão fora dos limites étnicos de Israel. Rute, o moabita é um exemplo da disposição e fé que os gentios devem ter em relação ao Deus que é Senhor de todos os povos, o Deus que merece ser louvado por todos os povos (Salmos 67:3).

  – Assim, devemos levar o conhecimento de Deus as nações e povos da terra, do qual são alvos do amor de Deus e da promessa feita a Abraão onde “ …em ti serão abençoadas todas as famílias da terra ”(Genesis 12:3).

– Rute nos faz saber que os gentios são tão preciosos para Deus que Ele mesmo fez questão de colocá-los na linhagem e genealogia direta de Davi (4:18) do qual foi ancestral direto do Messias, o salvador de todos os homens.

 

Tiago H. Souza

 

 

Livros consultados:

MERRILL, Eugene H. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009

 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006.

 ALLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1999. 

EVERY-CLAYTON, Joyce Elizabeth W. Rute. Curitiba e Belo Horizonte: Missão Editora e Encontrão Editora, 1993.

Uma breve análise de Mateus 28:19 – por Tiago H. Souza

Analise de Mateus 28:19

Talvez nenhuma outra passagem bíblica isolada da bíblia seja mais amplamente usada para desafiar os cristãos a serem fieis á sua tarefa primaria do que Mateus 28:16-20. Apesar disto, os pregadores quase nunca gastam tempo para fazer exegese da passagem e compará-la com passagens paralelas. Como resultado, a essência e o método da real missão tem se perdido a uma diversidade de pensamentos acerca desse mandamento.

Para o texto de Mateus 28:16:20 os teólogos tem 4 possíveis interpretações:

1-      Forte ênfase no particípio “IDE”.

– Essa interpretação da uma conotação exagerada em cruzar fronteiras, minimizando o “fazer discípulos”.

 

2-       Forte ênfase no imperativo “FAZER DISCÍPULOS”.

– Essa interpretação sugere a idéia do “fazer discípulos” como proposta principal do texto. Alguns chegam a afirmar que o “ide” não é tão importante, podendo ser descartado do mandamento.

 

3-      Subordinação do “IDE” ao FAZER DISCÍPULOS”.

– Essa terceira interpretação sugere que ao “fazer discípulos” o “ide” praticamente esta sendo cumprido, pois o imperativo esta sendo obedecido de qualquer maneira.

 

4–  “Indo” e “Fazendo Discípulos” – A quarta interpretação sugere que o particípio “ide” pode ter um tom imperativo junto ao “fazer discípulos”, dando uma conotação também de ordem ,urgência e propósito para algo.

Gramaticalmente a palavra “ide” ( poreythentes) é um particípio no original e não um imperativo. Provavelmente deva ser traduzida “indo” ou “enquanto ides”. Mas este fato não deve deixar que a força da palavra seja embotada. A mesma construção é achada em atos 16:9 :” Passa e (ou, passando) ajuda-nos. Obviamente, se Paulo não “passar” para lá, não poderá “ajudar”! E se nós não “vamos” não podemos cumprir nossa missão. Por outro lado, a ênfase não somente recai sobre o “ir”, mas, sobre a razão para ir.

O “fazer discípulos” (Matheteysate) é o único imperativo e a atividade central indicada na grande comissão. O verbo “Matheteysate” é empregado para dar luz á razão do “ir” (poreythentes). Não há como desassociar um verbo do outro, pois os dois se completam apesar de o imperativo ser “fazer discípulos” o “ir” não pode ser esquecido ou negligenciado, pois, a vontade de Deus é que o evangelho chegue em “todas as nações”.

Ora, há possibilidade de todas as nações ouvirem o evangelho se todas as igrejas somente discipular seus amigos e familiares? Não. Não há possibilidade de a grande comissão ser cumprida dessa forma porque muitas culturas e povos ainda estariam isolados pelo preconceito racial e cultural do homem. Então, a ênfase também recai sobre o ir, porque é ele que conduz o imperativo “fazer discípulos” no propósito de alcançar todas as nações.

Por essa razão defendo a quarta posição “INDO” E “FAZENDO DISCIPULOS” que defende o particípio “ir” com um tom imperativo, pois prepara o verbo principal “fazer discípulos” em sua melhor definição.

Nas palavras de Cleon Rogers:

                                  “   O particípio não deve ser enfraquecido como uma opção secundária que não é tão importante. O aspecto de aoristo torna o mandamento definido e urgente. Não é “caso você esteja indo” ou “onde quer que você esteja”, mas sim “vá e faça algo”. Isto não deve ser tomado exclusivamente no sentido de ir a um país estrangeiro. A ênfase é na natureza universal da tarefa – uma atividade global que envolve tanto o país natal quanto os países estrangeiros.”

            A tarefa missionária segundo a quarta posição é “fazer discípulos de todas as nações”. É a posição mais coerente com a lógica e com a teologia bíblica de missões encontradas também no Antigo testamento como em Genesis 12:3.

É interessante notar também algo muito significativo em relação a Mateus, o autor do evangelho. Mateus freqüentemente coloca um particípio aoristo antes do aoristo do verbo principal. Logo após ele postula que o particípio adquiriu também uma força imperativa, como vários verbos no Antigo Testamento. Isso acorre para dar certa urgência ao verbo principal, que no caso da passagem é o “fazer discípulos”. Ou seja, a interpretação“INDO E FAZENDO DISCÍPULOS” sugere que a igreja cruze fronteiras para cumprir a grande ordem de fazer discípulos em prol que todas as nações venham conhecer a Deus.

Temo que por conta de um “pequeno grande erro” a igreja se desvie daquilo para do qual ela foi chamada. Se isso acontencer as conseqüências serão serias para aqueles que já conhecem o evangelho e para aqueles que não o conhecem.

Não foi fácil para o Kalley, para o Simonton e nem para Gunnar Vingren e Daniel Berg cumprir a grande comissão sobre o olhar da quarta posição “indo e fazendo discípulos”. A diferença entre eles e nós é uma distancia de percepção quanto a urgência do texto. Por conta da obediência correta do mandamento do texto na vida desses missionários, é que hoje escrevo esse artigo.

 

Esse texto é basiado no artigo de Carl J. Bosma para a Fides Reformata XIV n°1 (2009)

 

 

postado por Tiago H. Souza

Carne Forte para os Músculos de Missões – Jonh Piper

      Por Jonh Piper

Jonh Piper

Estou cada vez mais convencido de que um movimento profundo e duradouro de missões precisará de uma doutrina de salvação que tenha raízes profundas. Em minhas férias, li algumas das memórias de Adoniram Judson. Você recorda que ele foi um Congregacional que se tornou Batista. Judson foi à Birmânia em 1812 e só retornou ao seu país depois de 33 anos.
Courtney Anderson conta a história emocionante e romântica em seu livro To The Golden Shore (Rumo à Praia Dourada). Mas, assim como muitos biógrafos de missionários, Anderson parece não saber o que motivava Judson. São as memórias que nos fazem ver as raízes teológicas. Hoje somos teologicamente superficiais e, por isso, não podemos imaginar quão apaixonados por doutrinas eram os primeiros missionários. O que motivava Judson era, simplesmente, um forte compromisso evangélico com a soberania da graça (um amor missionário intenso, humilde e reverente chamado calvinismo). Judson escreveu uma liturgia birmanesa e um credo que incluía as seguintes afirmações: “Deus, sabendo desde o princípio que a humanidade cairia em pecado e seria arruinada, por sua misericórdia, escolheu alguns da raça e deu-lhes o seu Filho, para salvá-los do pecado e do inferno… Adoramos a Deus… que envia o Espírito Santo para capacitar aqueles que foram escolhidos antes da fundação do mundo e dados ao Filho” O Breve Catecismo de Westminster, na Pergunta 20, atinge o âmago da fé exercida por Judson e acende o estopim de missões.

Pergunta: Deus deixou todos os homens a perecerem na condenação do pecado e miséria? Resposta: Deus, motivado por seu beneplácito, desde toda a eternidade, tendo escolhido um povo para a vida eterna, entrou em um pacto de graça, para livrá-los da condição de pecado e miséria e trazê-los à condição de salvos por meio de um Redentor (Ef 1.3-4; 2 Ts 2.13; Rm 8.29- 30; 5.21; 9.11-12; 11.5-7; At 13.48; Jr 31.33). O termo “aliança da graça” está repleto de esperança agradável e preciosa. Refere-se à decisão e ao juramento espontâneo de Deus para empregar toda a sua onipotência, sabedoria e amor para resgatar seu povo do pecado e miséria. A aliança é iniciada e realizada completamente por Deus mesmo. E não pode falhar. “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jr 32.40).
A aliança da graça é válida para todos os que crêem. Todos os que quiserem podem vir e desfrutar desta salvação. E, sendo este querer uma obra da graça soberana de Deus (Ef 2.5-8), aqueles que crerem e vierem são os eleitos — eleitos em Cristo “antes da fundação do mundo” (Ef 1.4). A aliança foi selada no coração de Deus antes que o mundo existisse (2 Tm 1.9).
Esta aliança da graça é o clamor de vitória sobre todos os conflitos no campo missionário. A graça de Deus triunfará. Ele tem um compromisso de aliança e de juramento para salvar todos os que estão predestinados para a vida eterna, de cada tribo, língua, povo e nação (At 13.48; Ap 5.9). “Jesus estava para morrer pela nação [de judeus] e não somente pela nação, mas também para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos” (Jo 11.51-52). O clamor da batalha de missões é: “O Senhor tem outras ovelhas, não deste aprisco.

Ele as trará (um compromisso de aliança!); elas ouvirão (um compromisso de graça) a voz dEle” (Jo 10.16). Enquanto estava na Birmânia, Adoniram Judson pregou um sermão sobre João 10.1-18. Qual foi o objetivo de Judson? “Embora envolvidas no amor eletivo do Salvador, [as suas ovelhas] podem até vaguear nas montanhas obscuras do pecado.” Portanto, o missionário tem de chamar a todos com a mensagem de salvação, a fim de que, conforme disse Judson, “o convite de misericórdia e amor, que penetra nos ouvidos e coração apenas dos eleitos”, seja eficaz.
Se desejamos ver homens semelhantes a Adoniram Judson, William Carey, John G. Paton, Henry Martyn e Alexander Duff surgir entre nós, outra vez, devemos beber a mesma doutrina forte que os governou na causa de missões.

 

Fonte: Fiel

 

Postado por Tiago H. Souza

FELIZ NATAL! FELIZ MISSÃO! – Marcelo Carvalho

Por Marcelo Carvalho

Você já parou para pensar que Natal e Missão são dois termos que representam a mesma coisa em duas perspectivas distintas? Começar por Natal pode ser mais fácil. Natal vem do latim natale que significa nascimento. Para nós cristãos, Natal representa o nascimento de Jesus Cristo, o único Filho de Deus, que foi prometido ser enviado ao mundo através dos profetas do Antigo Testamento. Aquela imagem que temos do menino Jesus numa manjedoura, num curral é típica. Ali a salvação se tornou concreta, palpável, muito bem representada por aquele homem, que depois de ter posto o menino-Deus no colo, disse que já poderia descansar em paz pois os seus olhos já tinham visto a salvação do Senhor. Natal é o nascimento de Jesus, aquele que salva os homens dos seus pecados.

E Missão? Bem, missão, vem de uma palavra latina que se escreve quase da mesma forma: missio. Na verdade missio foi utilizada para traduzir duas palavras gregas, apostellein e pempein quando da tradução do Novo Testamento para o latim. E sabe o que essas duas palavras significam? Ambas querem dizer enviar. E se encontram naquele famoso texto de João 20.21: “Assim como o Pai me enviou (apostellein), eu também vos envio (pempein)”. Missio, ou melhor, Missão, é o envio do Filho de Deus nascido de uma virgem para cumprir o propósito de Deus Pai em salvar o perdido, como eu e você.

E qual a relação do Natal com Missão? Vamos lá… Sempre quando nos reportamos ao Natal, o colocamos situado lá no passado, há aproximadamente 2.000 anos. Mas, levando em consideração o que já falamos, Natal não ocorreu com um fim em si mesmo. Natal é o começo. Natal é o ponto de partida da obra completa que Jesus haveria de realizar e está realizando. Essa obra se estendeu aos seus discípulos quando ele disse: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio”. O envio de Jesus continua quando ele envia os discípulos ao mundo. A partir daquele momento o envio com o propósito de trazer salvação ao perdido passa para nós a igreja de Cristo. Somos enviados não para sermos crucificados como ele, ou para imitá-lo simplesmente. Mas para anunciar o Natal, anunciar que o Deus Filho se encarnou, sofreu, foi tentado, mas não pecou, e morreu numa cruz, sendo o nosso substituto, para pagar a nossa dívida eterna com Deus e nos dar vida eterna. E que o próprio Jesus ressuscitou e virá uma segunda vez para nos buscar.

Você e eu, igreja de Cristo, representamos de forma viva o Natal de Jesus. Você e eu podemos vivenciar não só o Natal, mas também essa Missão (missio). Ser cristão é ser enviado ao mundo para falar do Natal, da obra e da ressurreição de Cristo. Ser igreja de Cristo só faz sentido quando nos vemos como o povo de uma missão (de um envio) que continua: O Pai enviou o Filho que enviou a Igreja. A nossa origem é o Natal. Somos povo missionário de Deus ansiando a volta do primeiro Missionário, o Cordeiro e Leão. Ser igreja é ser povo natalino, é ser povo missionário, povo enviado…

Feliz Natal, Feliz Missão!

Marcelo Carvalho

Postado por Tiago H. Souza

O Cenário Indígena Brasileiro e a Atuação Missionária Evangélica – Ronaldo e Rossana Lidório

O Cenário Indígena Brasileiro e a Atuação Missionária Evangélica

Por Ronaldo e Rossana Lidório

Vivemos em um país onde há oficialmente 257 etnias indígenas perfazendo uma população aproximada de 700.000 pessoas. Segundo o pesquisador Paulo Bottrel apenas 4 etnias (Katuena, Mawayana, Wai-Wai e Xereu) possuem a Bíblia completa em seus idiomas, 34 dispõe do Novo Testamento e outras 59 contam com porções bíblicas. Apesar das 25 Agências Missionárias que bravamente atuam entre os índios em nosso país, ainda contamos com um vasto campo que necessita do evangelho: 103 grupos permanecem sem presença missionária e 180 não possuem uma igreja local entre eles.

É certo que o desafio vai muito além das estatísticas e das palavras, pois é composto por faces, vidas, histórias e culturas milenares as quais tem sofrido ao longo dos séculos a devassa dos conquistadores, a forte imposição sócio-economica, etnofagias e perdas culturais irreversíveis.

Em meio a todo este quadro há gritante necessidade de homens e mulheres que se disponham a encarar a transmissão do evangelho valorizando o homem e sua cultura dentro de uma esfera de compreensão lingüística e aplicabilidade social, o que envolve o ultrapassar de várias barreiras. Uma delas é o estudo, registro, preservação, uso e valorização das línguas maternas.

O Apelo das Minorias

No contexto sul-americano nosso país possui a maior densidade lingüística e diversidade genética e, paradoxalmente, uma das menores concentrações demográficas por língua falada. As 185 línguas indígenas são distribuídas em 41 famílias, dois troncos e uma variedade desconhecida de línguas isoladas . Em meio a esta gritante diversidade apenas 3 etnias (Tikuna, Kaingang e Kaiwá) possuem mais de 20.000 pessoas e a média de falantes por língua é de 196 pessoas. 53 povos têm menos de 100 indivíduos e há aqueles com menos de 10 representantes como os Akunsu, com 7 pessoas, os Arua com 6 e os Juma também com 7 indivíduos. Quando pensamos em grupos indígenas nos confrontamos com a realidade de povos minoritários.

Nos anos 80 pesquisadores do Museu Goeldi encontraram os dois últimos falantes do Puruborá. Em 1995 foi identificado um grupo arredio como sendo falante do até então desconhecido Canoê e Pierre Grenand reconhece a existência de 52 grupos ainda sem contato com o mundo exterior cujas línguas não foram estudadas, praticamente todas minoritárias.

O Brasil evangélico não indígena, por sua vez, experimenta desde os anos 80 um rápido crescimento tanto em número de templos como de convertidos, motivo de louvor a Deus. Isto por outro lado têm nos levado a desenvolver uma missiologia mais pragmática, que cultua os resultados, do que Escriturística, que valoriza a obediência à Palavra. Assim, tanto a expectativa missionária por parte do corpo evangélico nacional quanto a prática no plantio de igrejas valoriza o quantitativo. E isto não será encontrado no universo indígena pois a conversão de toda uma tribo pode representar, em alguns casos, apenas uma dúzia de pessoas. Precisamos ser relembrados do desejo de Jesus: tornar-se conhecido dentre todos os povos, tribos línguas e nações da terra e isto jamais acontecerá enquanto não evangelizarmos os grupos minoritários. Precisamos de uma Igreja apaixonada por Jesus e disposta a gastar tempo e recursos no preparo de seus obreiros a fim de fazer o evangelho de Cristo conhecido entre todos os povos, também os minoritários. É preciso encarnar a conceito bíblico sobre o valor de uma alma. Vale mais que o mundo inteiro.

O Apelo da Subsistência Lingüística

Michael Kraus afirma que 27% das línguas sul-americanas não são mais aprendidas pelas crianças. Significa que um número cada vez maior de crianças indígenas perde seu poder de comunicação a cada dia. Isto possui raízes diferenciadas que vão desde a imposição socioeconômica nas tribos mais próximas dos vilarejos e povoados até a falta de uma proposta educacional na língua materna, fazendo-os migrar para o Português ou outra língua indígena predominante na região.

Rodrigues estima que, na época da conquista, eram faladas 1273 línguas, ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Luciana Storto delata uma crise sociolingüística no estado de Rondônia onde 65% das línguas estão seriamente em perigo por não serem mais usadas pelas crianças e por terem um numero pequeno de falantes.

Precisamos perceber que a perda lingüística está associada a perdas culturais irreparáveis como a transmissão do conhecimento, formas artísticas, tradições orais, perspectivas ontológicas e cosmológicas. Perde-se também a ponte de comunicação para um pleno entendimento do evangelho. No processo de perda lingüística e migração para o Português, os grupos indígenas normalmente passam por um processo de adaptação quando não possuem mais fluência na antiga língua materna e também não aprenderam o suficiente do novo idioma, para uma comunicação mais profunda. Este é um momento de perigo e perdas quando a identidade indígena é auto-questionada, seus valores substituídos e, sobretudo, seu poder de comunicação diminuído. A presença missionária catalogando, analisando e registrando a língua indígena a valoriza perante seu próprio povo e abre caminho para sua preservação. O evangelho, assim, não apenas responde os questionamentos da alma mas contribui para a sobrevivência cultural.

O Apelo da Tradução Bíblica

‘Se Deus nos ama, porquê Ele não fala a nossa língua ?’  Estas palavras impactaram a mente de William Cameron Towsend quando trabalhava com o povo Cakchiquel da Guatemala desde 1919. Após ser despertado para a necessidade de comunicar o evangelho na língua materna de cada povo ele se dispôs a fundar a SIL (Sociedade Internacional de Lingüística) que atua perseverantemente na tradução das Escrituras. Mas esta não é apenas uma preocupação moderna. Martinho Lutero, reformador protestante, percebeu rapidamente a incapacidade da Igreja conhecer a Deus sem conhecer a Palavra e, assim, lançou em 1534 a primeira edição da Bíblia por ele traduzida, e em linguagem comum alemã.

A força missionária tem sido ao longo das décadas um divisor de águas na subsistência das línguas indígenas brasileiras sob o esforço da SIL , Missão Novas Tribos do Brasil, ALEM e JOCUM, além de outras Agências que bravamente se empenham nesta tarefa. Apesar do contigente missionário ser formado em maior parte por Brasileiros, devemos reconhecer que os resultados historicamente obtidos nesta área advém do esforço de muitos preciosos linguístcas estrangeiros que valorosamente trabalharam e trabalham na análise e grafia lingüística, e tradução da Palavra para vários idiomas, como o caso do missionário Robert Hawkins que dedicou 54 anos de sua vida traduzindo a Bíblia completa para a língua Wai-Wai. Louvado seja Deus.

O presente apelo é por mais obreiros (estrangeiros, brasileiros e indígenas), que tenham desejo de se esmerar no estudo lingüístico e se preparar da melhor forma possível para transmitir o evangelho para estes 180 grupos onde ainda não há, entre eles, uma igreja genuinamente indígena.

Conclusão

Alguns anos atrás, quando estávamos integralmente envolvidos com a evangelização dos Konkombas em Gana na África, participei de uma conferência em Chicago onde se reuniam missiólogos e missionários de boa parte do mundo. Muitos temas eram estudados mas sobretudo havia oportunidade para desafios missionários nas preleções da noite. Em minha sessão, falando sobre povos ainda não alcançados, tentei confrontar o auditório com um silogismo bíblico de responsabilidade na comunicação do evangelho dizendo: ‘… em Gana a Igreja fortemente expressiva no sul do país ainda não se despertou para as quase 100 tribos não alcançadas ao norte, dentre elas os Konkombas-Bimonkpeln com os quais trabalhamos. Infelizmente ainda é necessário o envio de missionários estrangeiros para o alcance das tribos ao norte porque a Igreja dorme’.

Na preleção a seguir um norte americano falaria sobre o desenvolvimento de igrejas autóctones. Ele iniciou seu sermão mais ou menos da seguinte forma: ‘Fui missionário por mais de 20 anos na Amazônia brasileira entre indígenas ainda não alcançados, pois apesar da existência de milhões de evangélicos naquele país não havia missionários suficientes. Isto porquê a Igreja dorme’. 

Apesar do constrangimento reconheci, infelizmente, que suas palavras não estavam tão longe da verdade. É preciso mudar.

Ronaldo Lidório

 

Postado por Tiago H . Souza

Sadu Sundar Singh – O Apóstolo dos Pés Sangrentos

Em 03 de setembro de 1889 nascia na Índia Sundar Singh o terceiro e ultimo filho de um influente político e governador de Putiala que pensava em fazer deste filho um político maior que ele próprio. Mas por influencia de sua mãe se tornara desde cedo uma pessoa religiosa dentro dos costumes da religião sik. Mas aos 14 anos com a morte de sua mãe se revoltou contra tudo chegando a duvidar da existência de um Deus. Seu pai o colocou no melhor colégio da cidade que era da Igreja Presbiteriana. E no primeiro dia lhe deram um novo testamento o que lhe causou um ataque de fúria em plena aula e chegando em casa queimou o livro. Mas o livro era obrigatório na escola e tinha que estudá-lo, isto gerou um conflito em sua cabeça, passou a odiar os cristãos.

Sadu Sundar Singh

Em poucos dias tomou uma decisão radical, se trancou em seu quarto e passou a estudar sobre Jesus e se fosse tudo verdade sobre o que falavam, então se suicidaria. Passados três dias Jesus lhe apareceu e então como no episódio de Paulo ouviu a voz que dizia: “Porque me persegues se eu vim para te salvar.” Seu conflito cessou foi tomado de uma grande paz, mais tarde afirmaria. Mas para um indiano mudar de religião é um caos! Reunida a família foi lhe proposto a negar a nova fé e teria as melhores posições, privilégios que ninguém da família tivera ou seria banido para sempre. Fez a opção pela segunda escolha, seu pai foi radical e o mandou embora de casa só com a roupa do corpo. Na mesma noite dormiu embaixo de uma árvore e acordou terrivelmente doente, procurou uma missão americana aonde foi acolhido.

Passou três longos anos no seminário da missão, onde procurou aprender tudo sobre Jesus. E então decidiu que iria voltar ao seu povo e iria evangelizá-los, mas não em trajes ocidentais (casaco e gravata), e sim vestiu o hábito de sadu indiano e com os pés descalços. E assim o fez, atravessou toda a Índia de norte a sul, de leste a oeste pregando nas praças, nas aldeias, vilas, indo até ao Tibet. Tendo a oportunidade de ter pregado para o Lama,foi ridicularizado e acabou ficando preso, mas milagrosamente conseguiu sua liberdade. Ao sair jurou que voltaria ali, pois viu muita incoerência em nome da religiosidade. Sua fama ultrapassou as fronteiras da Índia, foi convidado a pregar em igrejas na Birmânia, China, Japão, e no ocidente esteve na Inglaterra, Holanda, Suécia. Dizem que a sua bondade, suas vestes longas, sua face amorenada, seus olhos brilhantes faziam-no parecer o próprio Jesus.

Quando soube que seu pai se convertera voltou imediatamente à Índia para passar alguns dias com ele. Mas seu coração batia pelo Tibet. Por duas vezes se dirigiu para lá, mas misteriosamente não conseguiu chegar ao seu destino e teve que ser trazido muito enfermo, quase morto. Mesmo aconselhado por amigos e por seu médico quando recuperado se pos a caminho. Sobre o gelo, o sangue; pés feridos em caminhos de brancura, regando o alvor da neve. À noite, o frio, o vento, a solidão, o gelo. Vermelhos de sangue, violentados pelos climas glaciais, sobre as montanhas, os pés de Sudar Singh deixaram um rastro vermelho, um doloroso rastro de sacrifício pelo evangelho, testemunho vivo que conduz a Jesus Cristo. E nunca mais foi visto o seu corpo não foi encontrado em parte alguma. Não houve noticia de que tenha cruzado com algum viajante ou que passasse em algum lugarejo. É provável que no Himalaia esteja hoje sua sepultura.

Postado por Tiago H. Souza

O Método da Evangelização Puritana – Dr. Joel Beeke

Por Dr. Joel Beeke

 

Raízes da evangelização moderna

A fim de compreendermos estes dois pensamentos (o método da evangelização Puritana e a disposição interna do coração) precisamos contrastá-los com a evangelização moderna. Só assim poderemos apreciar o aspecto característico da evangelização puritana. Para isso vamos voltar um pouco ao século XIX para considerarmos as raízes da evangelização moderna.

A evangelização moderna tem as suas raízes nos anos 1820 sob a liderança de Charles Finney, que frequentemente é chamado de “o pai” da evangelização moderna. Finney foi criado em Nova Iorque e tinha o grau de advogado. Começou sua prática como advogado nos anos de 1820 em Nova Iorque. No ano seguinte teve uma experiência religiosa muito profunda e isso o influenciou para que deixasse seu escritório de advocacia e se dedicasse inteiramente ao ministério. Foi ordenado pastor presbiteriano em 1824 e por 8 anos liderou eventos e reuniões de avivamento no leste dos E.U.A. Por quatro anos trabalhou como pastor em Nova Iorque e nos últimos quarenta anos de sua vida foi professor na Universidade de Oberlin no estado de Ohio. Através dessas décadas ele continuou fazendo reuniões de avivamento. Ele inventou aquilo que se chama de “novas medidas” para avivamento que incluem: (a) reuniões com muita emoção e (b) o banco dos “ansiosos”. Eram reuniões evangelísticas caracterizadas por uma atividade intensa, que duravam dois ou três dias e nos quais Finney pregava duas vezes ao dia. O banco dos “ansiosos” era o primeiro banco da igreja que era deixado vazio para que as pessoas ansiosas pudessem vir e se assentar ali, recebendo uma ministração individual. No final dos seus sermões Finney diria: “Aqui está o banco dos “ansiosos”, se vocês estiverem do lado do Senhor, venham à frente.” Hoje a evangelização de massa, é um desenvolvimento das chamadas “novas medidas” dos avivamentos de Finney.

Em suas campanhas evangelísticas, Billy Graham apresenta um estilo polido destas cruzadas feitas por Finney. Essas chamadas ao altar para que as pessoas venham à frente e confessem Jesus Cristo, é uma versão moderna do banco dos “ansiosos”. Hoje nós estamos tão acostumados com este estilo de evangelização moderna, que dificilmente percebemos que é uma inovação na história da Igreja. Com frequência nos esquecemos de quão distante está da evangelização bíblica. Tanto Finney, quanto a evangelização moderna, cometeram alguns erros básicos em diferentes aspectos das Escrituras. Vamos mencionar quatro áreas em que se afastaram dos princípios bíblicos.

Deficiências da evangelização moderna

Uma Pintura que retrata a evangelização puritana

1. Aceitação do pelagianismo. Embora certos elementos calvinistas estejam presentes, a evangelização moderna, seguindo a teologia de Finney, é essencialmente arminiana na sua apresentação do evangelho. Finney era confessadamente um pelagiano (Pelágio foi um herege do século IV que sofreu dura oposição de Agostinho). Ele negava que o homem caído fosse incapaz de se arrepender. Dizia que cada pessoa tem a liberdade e a vontade livre de arrepender-se e voltar-se para Deus; que cada pecador pode resistir ao chamado do Espírito Santo, e que este Espírito apenas apresenta-lhe razões pelas quais ele deve ir a Deus. O pecador, entretanto, é livre para aceitar ou rejeitar as razões apresentadas. Dessa forma, em última análise, a salvação não é uma obra de Deus, é realmente um trabalho do próprio homem. Finney escreveu o seguinte: “Pecadores vão para o inferno apesar de Deus”. Finney negou os cinco pontos do calvinismo, e não subscreveu os ensinamentos de Jesus de que o homem precisa nascer de novo, nascer do alto, doutra forma ele não pode entrar no reino de Deus.

2. Finney e a evangelização moderna colocam uma pressão indevida sobre a vontade humana. Se a vontade humana, pecadora, é livre, segundo os evangelistas semipelagianos afirmam, a pregação é reduzida simplesmente a uma batalha entre a vontade dos ouvintes e a vontade do pregador. O resultado disso é que todos os meios que o pregador puder usar para persuadir os seus ouvintes a aceitar a Cristo, acabam se tomando lícitos, mesmo que sejam baseados num excesso de emocionalismo do auditório. O alvo principal nestes casos é mover a vontade do homem, e levá-lo a fazer uma decisão imediata. O contrário disso, vemos no ensino de João 1: 13: “… os quais não nasceram do sangue nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus”.

3. Finney e a evangelização moderna reduzem o processo de conversão a um espaço curto de tempo. Isso não é bíblico! A Bíblia apresenta a conversão como sendo um processo por vezes demorado. Entretanto, para a evangelização moderna, a conversão é um processo de mais ou menos dez minutos. Recentemente foi escrito um livro sobre evangelização que faz com que o evangelista caia em profundo sentimento de culpa, se demorar mais de dez minutos para converter alguém. Chegamos a conclusão que, para muitos evangelistas modernos, a salvação não é mais aquele trabalho miraculoso, soberano e misterioso do Espírito Santo de Deus, e sim, o trabalho calculável da ação do homem. Isso é contrário ao que lemos em João 3:8: “O vento sopra onde quer, ouves a sua voz, mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo o que é nascido do Espírito”. O que realmente tem acontecido nos últimos 175 anos, é o seguinte: Finney e a evangelização moderna perderam o sentido de conversão bíblica; perderam o conceito de conversão como uma obra miraculosa; perderam o sentimento daquela dependência total do homem em Deus, na sua conversão.

4. Grande parte dos resultados da evangelização moderna é questionável. Diversos estudos têm provado que a evangelização de massa, utilizado em grande parte nas cruzadas, em que o próprio homem decide a sua salvação, leva, finalmente, a um cristianismo muito superficial, que quase não dá fruto. Isso não quer dizer que não existam certos indivíduos a quem Deus realmente converteu em tais tipos de reuniões. A Bíblia diz que Deus pode fazer com que uma vara torta se tome reta. Entretanto, esse fato não nos isenta da responsabilidade em apresentar aos nossos ouvintes uma evangelização bíblica e saudável, uma evangelização que tenha uma profundidade maior, uma evangelização que começa, centraliza-se e termina em Deus. É isso que descobrimos quando nos voltamos para o método dos puritanos.

Estilo direto de pregar

Quando nos referimos aos métodos da evangelização puritana, não estamos dizendo que devemos copiar cada detalhe dos puritanos. Muito da linguagem dos puritanos, por exemplo, está fora de época. Ainda assim os seus métodos têm muito para nos ensinar. O método puritano foi chamado pelos próprios puritanos, e por estudiosos hoje, de o “estilo direto de pregação”. Um dos pais do puritanismo, William Perkins, escreveu o seguinte: “A nossa pregação precisa ser direta e evidente. É um dito comum entre nós: “este foi um sermão direto. “Eu digo que quanto mais incisivo e simples for o sermão, melhor”. Um dos grandes pregadores puritanos chamado Henry Smith disse o seguinte: “Pregar de uma maneira direta, não é pregar de uma maneira dura e cruel”. Também não significa pregar de qualquer forma, sem estudo. Significa pregar o sentido pleno das Escrituras de uma maneira tão clara que o homem mais simples possa entender o que esteja sendo ensinado, como se ele estivesse ouvindo seu próprio nome ser chamado.

Implementando este estilo simples e incisivo de pregação, os puritanos seguem um processo de três passos:

(1) Escolhem e estudam seu texto. (2) Fazem uma exegese desse texto, dando o seu sentido básico, e em seguida coletam do texto duas ou três doutrinas, que fluem dele. (3) Em seguida, aplicam estas doutrinas de uma forma prática ao coração dos seus ouvintes. Dessa forma, a primeira parte do sermão é exegética, a segunda parte é doutrinária e a terceira é aplicativa. À quarta parte eles chamavam de “como usar”, que é a parte prática do sermão, como usar os ensinos na vida diária. Eles dividem a aplicação em duas partes, uma para os ouvintes que são salvos, e a outra para os não salvos. Aplicam a cada indivíduo o que o texto pregado tem a dizer para ele. Dessa forma, o ouvinte, ao sair da igreja, sabia com toda clareza o que aquele texto do sermão tinha a dizer a si em particular.

Vamos focalizar quatro qualidades deste estilo direto de pregar.

1. Usavam um método racional de pregar. Eles pregavam a criaturas racionais. Trabalhavam arduamente para mostrar aos pecadores a loucura de não buscar o Senhor. Eles procuravam mostrar às suas congregações o aspecto racional de todas as doutrinas da graça. John Owen, por exemplo, expunha à sua congregação como a doutrina da eleição era racional e lógica. Eleição é a primeira coisa do lado de Deus, mas é a última coisa que é conhecida do lado daquele que crê. Eles usavam este tipo de ensino para alcançar a mente e também a consciência. Labutavam para conduzir cada ouvinte a esta conclusão. Seria totalmente ridículo não buscar o Senhor. Ridículo em função do julgamento que há de vir, mas também em termos da maneira como vivemos nesta vida presente.

2. Tinham uma pregação afetuosa, apaixonada. É uma coisa rara nos nossos dias encontrar um pregador que tanto alimenta a mente dos ouvintes com substância bíblica sólida, quanto também mova os seus corações, com um calor afetivo. Mas, esta combinação era coisa comum aos pregadores puritanos. Falavam com amor e com convicção. Pregavam com uma chamada clara à fé e ao arrependimento. Pregavam com paixão o terror do pecado. Pregavam com calor a respeito de Jesus Cristo. Derramavam do púlpito suas próprias almas em seus sermões. Eles praticamente davam suas vidas pelo seu povo. Suplicavam aos seus ouvintes que se reconciliassem com Deus, não porque pensassem que eles podiam se reconciliar com um Deus santo, mas porque eles sabiam que o Deus todo-poderoso usa a loucura da pregação para salvar aqueles que realmente vão crer. Sabiam, pelas Escrituras, que somente o Cristo onipotente podia vivificar um pecador espiritualmente morto e mortificar a sua pecaminosidade, separá-lo dele mesmo, fazendo-o desejoso de abandonar o seu pecado e voltar-se para Deus e para a salvação completa por Ele oferecida. A pregação puritana apresentava todas estas verdades com paixão.

3. A evangelização puritana era reverente e sóbria. Os puritanos geralmente não usavam humor nos seus sermões; não acreditavam em contar histórias engraçadas com a finalidade de levar pessoas a se interessarem por Cristo. O alvo deles era exatamente o oposto. Eles procuravam fazer as pessoas se tomarem mais sóbrias diante das grandes exigências do Criador e diante do grande juízo que está chegando. Diante da eternidade, Deus é digno de ser adorado; digno por causa dEle mesmo e por causa de Seu Filho.

4. A evangelização puritana se caracterizava por fazer uma análise específica de temas bíblicos. Se um puritano pregasse sobre o inferno, o sermão inteiro seria sobre o inferno. O mesmo aconteceria se pregasse sobre o céu, todo o sermão seria sobre o céu. Noutras palavras, eles pregavam o seu texto o tempo todo. Calculavam que assim, após certo período de tempo, teriam coberto cada assunto principal da Bíblia. Assim, procuravam edificar o seu povo em todo o conselho de Deus, demonstrando sua apreciação por todo o ensinamento das Escrituras. Quero dar alguns exemplos. Os títulos que vou dar agora são de um livro de um puritano: “Quantos Já Experimentaram Uma Vida Seriamente Identificada com Deus?”; “Qual o Melhor Preservativo Contra a Depressão Espiritual”; “Como Podemos Crescer no Conhecimento de Cristo?”; “O Que Precisamos Fazer Para Evitar o Orgulho Espiritual?”; “Como Devemos Lidar Com Doutrinas Que Não Podemos Compreender Completamente?”; “Como Podemos Conhecer de Uma Forma Melhor o Valor Real da Nossa Alma?”. Espero que vocês estejam percebendo quão específicos eram os puritanos ao pregarem o seu texto bíblico, e como depois de certo período de tempo eles conseguiam falar a respeito de todo o conjunto de verdades espirituais.

Os puritanos reforçavam os seus sermões com uma evangelização catequética. O pastor puritano típico visitava o lar dos membros da sua igreja pelo menos uma ou duas vezes ao ano. Eles catequizavam cada criança em cada lar e estas crianças também vinham para a aula de catecismo na igreja. Eles treinavam os pais em cada família para que também fizessem o estudo do catecismo com suas crianças no culto doméstico. Normalmente levavam 30 a 40 minutos por dia para essa atividade. No domingo à noite davam treinamento aos pais para que pudessem analisar o sermão do dia com as crianças por duas razões: para levar o sermão ao nível de uma criança e também para levar o pai a lembrar o sermão. Os puritanos tinham como alvo evangelizar a família inteira. Eles não estavam buscando convertidos de “dez minutos” ou uma decisão momentânea do coração. Eles procuravam convertidos que permanecessem convertidos a vida inteira, cujas mentes e corações tivessem sido vencidos, tornando-se cativos pela Palavra de Deus.

 

Postado por Tiago H Souza