“Sola Fide” X Lei – Como entender a a Justificação bem como nossa responsabilidade quanto a Lei do Senhor – Tiago Souza

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O coração do evangelho está na doutrina da justificação pela graça somente. Dentre todos os presentes de Deus ao homem nenhum se compara a obra da justificação em Cristo. Se assim for, como fica a lei? Seria ela abolida ou desprezada pelos escritos do novo testamento? Paulo em Romanos 10:4 diz “o fim da lei é Cristo para a justiça de todo aquele que Nele crê”.

Sabemos que Paulo está se referindo a Cristo, mas que lei é essa? E que fim é esse? Para Paulo a justiça de Deus estava na lei (torá) e não na forma que esta lei estava sendo cumprida.

Nos versos 2 e 3 de Romanos 10, Paulo exorta a igreja de Roma a não depositar a sua fé de  forma ignorante em uma justiça mal compreendida pelo seu povo, os judeus, que inclusive mataram Jesus Cristo achando que ele estava ferindo a lei.

Portanto, a má compreensão dessa lei e a má compreensão da forma que ela deve ser cumprida fazem com que o povo seja alheio e ignorante quanto à graça redentiva de Jesus. Ou seja, o problema não está na lei, mas, está no homem. Essa é a tese do capitulo 1 e 2 de Romanos. Em Cristo fomos chamados para a liberdade (Gl 5). Liberdade da falsa liberdade que a nossa ignorância sobre a justiça de Deus, nos coloca. É um erro gravíssimo achar que a Lei não deva ser cumprida.

E é um erro gravíssimo achar que o homem consegue cumpri-la. Sabemos, de acordo com Paulo e com muitos outros profetas que tal homem não existe. Portanto, se a lei deve ser cumprida e o homem é incapaz de cumpri-la a única forma de sermos salvos é mediante a fé em Jesus, o Deus-homem que cumpriu toda a Lei. Nele não só deixamos de ser ignorantes, mas somos feitos “justiça de Deus” (1Co 5:21), não mediante a lei, mas mediante ao Cristo da lei.

Assim, fomos feitos também “ministros de uma nova aliança”(2Co 3:6) ,pois, não estamos mais debaixo de um julgo enganador que outrora nos condenava por tentar cumprir a lei por méritos próprios, mas debaixo da graça de Cristo que nos socorreu quando andávamos errantes por não cumprir a lei. A nova aliança em Cristo faz com que a pessoa que não cumpriu a lei descanse na vida de Cristo, pois, Cristo cumpriu a toda a lei. Tais pessoas, judeus ou gentios, que foram alcançados pela graça de Cristo podem cumprir a lei na prática do amor e gratidão a Deus sabendo que por mais que sua vida esteja guardada na vida de Cristo ela dará conta de seus atos no juízo vindouro (2Co 5:10).

Assim o evangelho penetrado no coração do homem por meio da dádiva do Espírito faz com que ele cumpra a lei mosaica na pratica do amor, que também é um sinal da autenticidade da sua salvação.

É importante também salientar que Paulo lutou incansavelmente e constantemente contra os argumentos dos judaizantes que saiam de forma itinerante pregando um falso evangelho que minava a sua autoridade apostólica. Portanto, concluo que “a letra mata” todos aqueles que depositam a sua fé na tentativa de auto-salvação mediante o cumprimento da lei, e o “espirito vivifica” todos aqueles que depositam a sua fé no Cristo de Deus, aquele que cumpriu toda a lei de Deus.

O que é Fé? – J.I Packer

Por J.I Packer

J.I Packer


           Em primeiro lugar, o que é fé? Vamos aclarar a questão. A idéia popular a respeito é que se trata de um certo otimismo obstinado: a esperança tenazmente assegurada, face à adversidade, de que o universo é fundamentalmente amigável e de que as coisas podem melhorar. Diz a Sra. A. à Sra. B.: “Você precisa ter fé”. Mas, tudo quanto ela quer dizer é: “Coragem, não desanime se as coisas vão mal”. Isso, porém, é apenas a forma da fé, sem seu conteúdo vital. Uma atitude confiante que seja divorciada de um objeto que corresponda a essa confiança não é a fé no sentido bíblico.
           Em contraste, a noção histórica da Igreja Católica Romana acerca da fé tem sido de mera confiança e docilidade. Para Roma, a fé é apenas a crença naquilo que a Igreja Romana ensina. De fato, Roma distingue entre fé “explícita” (a crença em algo que foi compreendido) e fé “implícita” (o assentimento incompreensível de qualquer coisa, seja o que for que a Igreja Romana assevere). A Igreja Romana diz que somente esse último tipo de fé, que na realidade é apenas um voto de confiança no ensino da igreja e que pode manifestar-se lado a lado com a total ignorância da doutrina cristã, é requerido dos leigos para a sua salvação! É evidente que a fé, na concepção da Igreja Romana, quando muito, é apenas o conteúdo da fé, sem sua forma apropriada; pois conhecimento, pouco ou muito, divorciado de qualquer correspondente exercício de confiança, não é a fé, no total sentido bíblico. O exercício da confiança é precisamente o que se faz ausente na análise da Igreja Romana. Segundo Roma, fé consiste em confiar nos ensinos da igreja. Mas, de acordo com a Bíblia, fé significa confiar em Cristo como Salvador, e isso é algo totalmente diferente.
          Na Bíblia, ter fé ou crer (no grego, o substantivo épistis; o verbo é pisteuõ envolve tanto confiança como entrega da vida. De várias maneiras o objeto da fé é descrito como sendo Deus (Rm 4.24; 1 Pe 1.21), Cristo (Rm 3.22, 26), as promessas de Deus (Rm 4.20), o caráter de Jesus como Messias e Salvador (1 Jo 5.1), a realidade da ressurreição (Rm 10.9), o evangelho (Mc 1.15) e o testemunho dos apóstolos (2 Ts 1.10).
         A natureza da fé, porém, é invariável. É uma apreensão responsiva de Deus e de sua verdade salvadora; é um reconhecimento da resposta dada por Deus à necessidade humana, que doutro modo jamais seria atendida; é a compreensão de que o evangelho é a mensagem pessoal de Deus, bem como o convite pessoal de Cristo ao seu ouvinte; é o mover-se confiante da alma em direção ao Deus vivo e ao seu Filho.
        Isso se torna claro através da mais comum das construções gramaticais no Novo Testamento grego — o verbo pisteuo com a preposição eis, ou, ocasionalmente, com a preposição epi, com o objeto direto no acusativo — cujo significado é “confiar para dentro de” ou “confiar sobre”. Esta construção jamais aparece no grego clássico e raramente na Septuaginta. Trata-se de uma nova expressão idiomática, desenvolvida no Novo Testamento, para expressar a idéia de um movimento de confiança que se dirige ao objeto da confiança e que descansa no mesmo.
         Esse é o conceito bíblico e cristão de fé. Os reformadores frisaram esse conceito, afirmando que a fé não é apenas fides (crença), mas também fiducia (confiança). Nas palavras do bispo Ryle:
         A fé que salva é a mão da alma. O pecador é como um homem que está se afogando, prestes a afundar de vez. Ele vê o Senhor Jesus Cristo oferecendo-lhe ajuda. Ele a aceita e é salvo. Isso é fé (Hb6.18).
        A fé que salva é o olho da alma. O pecador é como um israelita picado por uma serpente venenosa no deserto e que está à morte. O Senhor Jesus lhe é oferecido como a serpente de bronze, levantado para sua cura. O pecador olha para Ele e é curado. Isso é fé (Jo3.14, 15).
        A fé que salva é a boca da alma. O pecador está definhando por falta de comida e sofrendo de uma doença dolorosa. O Senhor Jesus lhe é apresentado como o pão da vida e o remédio universal. Ele O recebe e fica bem de saúde e forte. Isso é fé (Jo. 6.35).
        A fé que salva é o pé da alma. O pecador é perseguido por um inimigo mortal e teme ser vencido. O Senhor Jesus lhe é apre¬sentado como uma torre forte, um refúgio e um esconderijo. O pecador corre para Ele e fica em segurança. Isso é fé (Pv 18.10)”. (Old Paths — Caminhos Antigos — pp. 228 e 229).

Por todo o Novo Testamento, de fato, esse é o conceito normal de fé. As únicas exceções são as seguintes:
1.         Algumas vezes, “fé” exprime o conjunto das verdades em que cremos (Jd 3 e 1 Tm 4.1, 6, etc).
2.         Algumas vezes, “fé” significa um mais estrito exercício de confiança, que opera milagres (Mt 17.20, 21; 1 Co 13.2). Mesmo nos dias do Novo Testamento, porém, a fé salvadora nem sempre era acom¬panhada pela “fé que opera milagres” (cf. 1 Co 12.9) e vice-versa (cf. Mt 7.22, 23).

Em Tiago 2.14-26, “fé” e “crer” denotam mero assentimento intelectual à verdade, sem a correspondente resposta de uma vida de obediência confiante. Mas, parece que Tiago estava simplesmente imitando o uso da palavra “fé” daqueles a quem procurava corrigir (cf. v. 14), e não precisamos supor que ele normalmente a usasse em um sentido tão limitado (por exemplo, a sua alusão à fé, no verso 5, cla¬ramente envolve um sentido muito mais amplo).

 

Fonte: Calvinismo

Postado por Tiago H. Souza

Esfera em que Ocorre a Justificação – Louis Berkhof

Por Louis Berkhof

Louis Berkhof

A questão quanto à esfera em que ocorre a justificação deve ser respondida com discernimento. É costume distinguir entre uma justificação ativa e uma passiva, também denominadas objetiva e subjetiva, cada qual com a sua própria esfera.
1. JUSTIFICAÇÃO ATIVA OU OBJETIVA. Esta é a justificação no sentido mais funda¬mental da palavra. É básica em relação ao que se chama justificação subjetiva, e consiste numa declaração que Deus faz a respeito do pecador, declaração feita no tribunal de Deus. Não se trata de uma declaração de que Deus simplesmente absolve o pecador, sem levar em conta as reivindicações da justiça, mas, sim, de uma declaração divina de que, no caso do pecador em foco, as exigências da lei são satisfeitas. O pecador é declarado justo em vista do fato de que a justiça de Cristo lhe é imputada. Nesta transação Deus comparece, não como um Soberano absoluto que simplesmente põe de lado a lei, mas como um Juiz justo, que reconhece os méritos infinitos de Cristo como uma base suficiente para a justificação, e como um Pai misericordioso, que perdoa e aceita graciosamente o pecador. Esta justificação ativa antecede logicamente à fé e a justificação passiva. Cremos no perdão dos pecados.
2. JUSTIFICAÇÃO PASSIVA OU SUBJETIVA. A justificação passiva ou subjetiva tem lugar no coração ou na consciência do pecador. Uma justificação puramente objetiva, que não fosse dada a conhecer ao pecador, não corresponderia ao propósito pretendido. A concessão de perdão a um prisioneiro não significaria nada, se as alegres novas não lhe fossem comunicadas e as portas da prisão não fossem abertas. Além disso, é exatamente neste ponto, melhor do que noutro qualquer, que o pecador aprende a entender que a salvação é inteiramente de graça. Quando a Bíblia fala de justificação, normalmente se refere àquilo que é conhecido como jus¬tificação passiva. Deve-se ter em mente, porém, que as duas são inseparáveis. Uma se baseia na outra. Faz-se a distinção simplesmente para facilitar a correta compreensão do ato de justificação. Logicamente, a justificação passiva vem em seguida à fé; somos justificados pela fé.
F. Ocasião em que se Dá a Justificação
Alguns teólogos separam cronologicamente a justificação ativa e passiva. Neste caso, dizem que a justificação ativa deu-se na eternidade, ou quando da ressurreição de Cristo, ao passo que a justificação passiva realiza-se pela fé, e, portanto, assim se diz, segue-se à outra, no sentido cronológico. Consideraremos sucessivamente a justificação desde a eternidade, a justificação na ressurreição de Cristo e a justificação pela fé.
1. JUSTIFICAÇÃO DESDE A ETERNIDADE. Os antinominianos afirmavam que a jus-tificação do pecador aconteceu na eternidade ou na ressurreição de Cristo. Eles a confundiam, quer com o decreto eterno de eleição, quer com a justificação objetiva de Cristo quando ele ressurgiu dos mortos. Eles não distinguiam acertadamente entre o propósito divino na eternida¬de e sua execução no tempo, nem entre a obra de Cristo em que ele obteve as bênçãos da redenção, e a do Espírito Santo, na aplicação delas. Segundo esta posição, somos justificados antes de crermos, embora inconscientes disto, e a fé apenas nos transmite a declaração deste fato. Além disso, o fato de que os nossos pecados foram imputados a Cristo faz dele pessoal¬mente um pecador, e a imputação da sua justiça a nós faz-nos pessoalmente justos, de modo que Deus não pode ver absolutamente nenhum pecado nos crentes. Alguns teólogos reformados também falam de uma justificação desde a eternidade, mas, ao mesmo tempo, recusam-se a subscrever a elaboração antinominiana desta doutrina. As bases sobre as quais eles acreditam numa justificação desde a eternidade merecem breve consideração.
a. Bases da doutrina da justificação desde a eternidade.
(1)     A Escritura fala de uma graça ou misericórdia de Deus que é desde a eternidade, SI 25.6; 103.17. Ora, toda graça ou misericórdia que seja desde a eternidade tem que ter como sua base judicial uma justificação que seja também desde a eternidade. Mas, em resposta a isto, pode-se dizer que existem misericórdias e bondades eternas de Deus que não são baseadas em nenhuma justificação do pecador, como, por exemplo, o seu plano de redenção, a dádiva de seu Filho e a voluntária função de penhor exercida por Cristo no pactum salutis.
(2)     No pactum salutis a culpa dos pecados dos eleitos foi transferida para Cristo, e a justiça de Cristo lhes foi imputada. Quer dizer que o fardo do pecado foi retirado dos ombros deles e que eles foram justificados. Pois bem, não há dúvida de que houve certa imputação da justiça de Cristo ao pecador no conselho de redenção, mas nem toda imputação pode ser cha¬mada justificação, no sentido escriturístico do termo. Devemos distinguir entre o que teve apenas um caráter ideal no conselho de Deus e aquilo que se concretiza no transcurso da história.
(3)     O pecador recebe a graça inicial da regeneração sobre a base da justiça de Cristo a ele imputada. Conseqüentemente, os méritos de Cristo têm que lhe ser imputados antes da sua regeneração. Mas apesar desta consideração levar à conclusão de que a justificação precede logicamente à regeneração, isto não prova a prioridade cronológica da justificação. O pecador não pode receber a graça da regeneração com base numa justificação existente idealmente no conselho de Deus e que conta com a certeza de que se concretizará na vida do pecador.
(4)     As crianças também precisam da justificação, para serem salvas, e, todavia, é-lhes totalmente impossível experimentar a justificação pela fé. Mas, embora seja mais que certo que as crianças que ainda não atingiram a maturidade não podem ter experiência da justificação passiva, podem ser justificados ativamente no tribunal de Deus e, assim, podem ter posse da¬quilo que é absolutamente essencial.
(5)     A justificação é um ato imanente de Deus e, como tal, só pode ser oriundo da eternidade. Não é bem correto, porém, falar da justificação como um actus immanens (ato imanente) em Deus; é, antes, um actus transiens (ato transitivo), exatamente como a criação, a encarnação e outros mais. Os defensores da justificação desde a eternidade vêem o peso desta consideração e, daí, apressam-se a garantir-nos que eles não pretendem ensinar que os eleitos são justificados desde a eternidade actualiter (em termos de ação concretizada), mas unicamente na intenção de Deus, no decreto divino. Isto nos leva de volta à distinção usual entre o conselho de Deus e sua execução. Se esta justificação presente na intenção de Deus nos permite falar de uma justificação desde a eternidade, então não há absolutamente nenhum motivo pelo qual não devamos falar também de uma criação desde a eternidade.
b. Objeções à doutrina da justificação desde a eternidade.
(1)     A Bíblia ensina uniformemente que a justificação se dá pela fé ou é provinda da fé. Naturalmente, isto se aplica à justificação passiva ou subjetiva, que, entretanto, não pode sepa¬rar-se cronologicamente da justificação ativa ou objetiva, exceto no caso das crianças. Mas, se a justificação se realiza pela fé, certamente não precede à fé, no sentido cronológico. Ora, é certo que os defensores da justificação desde a eternidade também falam da justificação pela fé. Mas, na sua descrição da matéria, isto só pode significar que, pela fé, o homem ganha consciên¬cia daquilo que Deus fez na eternidade.
(2)     Em Rm 8.29,30, onde vemos alguns dos degraus (scalae) da ordo salutis (ordem da salvação), a justificação está entre dois atos de Deus realizados no tempo, quais sejam, a voca¬ção e a glorificação, sendo que esta começa no tempo e se completa na eternidade futura. E estes três, juntos, resultam de outros dois que são explicitamente indicados como eternos. O Dr. Kuyper não tem base para dizer que Rom 8.30 se refere àquilo que aconteceu com os regenerados antes de nascerem, como até o dr. De Moor, que também acredita numa justificação desde a eternidade, mostra-se disposto a admitir.
(3)     Ao ensinar-se a justificação desde a eternidade, o decreto de Deus a respeito da justi¬ficação do pecador, que é um actus immanens, é identificado com a própria justificação, que é um actus transiens. Isto só leva a confusão. O que teve lugar no pactum salutis (aliança da salvação) não pode ser identificado com o que disso resulta. Toda imputação ainda não é justificação. A justificação é um dos frutos da obra redentora de Cristo aplicada aos crentes pelo Espírito Santo. Mas o Espírito não aplicou, nem poderia aplicar, este ou qualquer outro fruto da obra de Cristo desde a eternidade.
2. JUSTIFICAÇÃO NA RESSURREIÇÃO DE CRISTO. A idéia de que, nalgum sentido da palavra, os pecadores são justificados na ressurreição de Cristo, foi apregoada por alguns Arminianos, é ensinada por aqueles teólogos reformados que acreditam numa justificação des¬de a eternidade, e também é definida por alguns outros eruditos reformados. Este conceito se funda nas seguintes bases:
a.       Com sua obra expiatória, Cristo satisfez todas as exigências da lei pelo seu povo. Na ressurreição de Cristo dentre os mortos, o Pai declarou publicamente que todas as condições da lei foram preenchidas para todos os eleitos e, com isso, eles foram justificados. Mas aqui também se requer uma distinção muito cuidadosa. Mesmo que seja verdade que houve uma justificação objetiva de Cristo e de todo o corpo de Cristo em sua ressurreição, não se deve confundir isto com a justificação do pecador a que a Bíblia se refere. Não é verdade que, quando Cristo prestou plena satisfação ao Pai por todos os seus, a culpa destes acabou naturalmente. O débito penal não é como uma dívida pecuniária, neste sentido. Mesmo depois de pago o resgate, a remoção da culpa pode depender de certas condições, e não ocorre como um resultado líquido e certo. No sentido escriturístico, os eleitos não são justificados enquanto não aceitam a Cristo pela fé, apropriando-se assim dos seus méritos.
b.      Em Rm 4.25 lemos que Cristo “ressuscitou por causa da {dia, causai, a causa de) nossa justificação”, isto é, para efetuar a nossa justificação. Pois bem, é indubitavelmente certo que dia com o acusativo aqui é causai nesta passagem. Ao mesmo tempo, não é necessariamente retrospectiva, mas também pode ser prospectiva e, daí, pode significar “com vistas à nossa justificação”, o que equivale dizer: “a fim de que pudéssemos ser justificados”. A interpretação retrospectiva entraria em conflito com o contexto imediatamente subseqüente, que mostra claramente: (1) que Paulo não está pensando na justificação objetiva de todo o corpo de Cristo, mas na justificação pessoal dos pecadores; e (2) que ele entende que isto se dá por meio da fé.
c.       Em 2Co 5.19 lemos: “… Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões”. Desta passagem se deduz a inferência de que a reconciliação do mundo com Cristo envolve a não imputação do pecado ao pecador. Mas esta interpretação não é correta. O que o apóstolo quer dizer é, evidentemente: Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, como transparece no fato de que ele não imputa aos homens os seus pecados, e de que ele confiou aos seus servos a palavra da reconciliação. Observe-se que me logizomenos (tempo presente) refere-se a algo que está indo avante constantemente. Não se pode conceber que isto faz parte da reconciliação objetiva, pois, neste caso, a cláusula seguinte, “e nos confiou a palavra da reconciliação”, também teria que ser interpretada assim, o que é inteiramente impossível.

Com relação a esta matéria, pode-se dizer que podemos falar de uma justificação do corpo global de Cristo em sua ressurreição, mas esta justificação é puramente objetiva, e não deve ser confundida com a justificação pessoal do pecador.

Fonte: Calvinismo

Postado por Tiago H. Souza

PastoresTeólogos – Tom Ascol

Por Tom Ascol

Tom Ascol

Cristo tenciona que suas igrejas sejam guiadas por homens que preenchem certas qualidades. Em suas cartas a Timóteo e Tito, o apóstolo Paulo escreveu com muita clareza a respeito do que os presbíteros de uma igreja devem ser. A principal preocupação é o caráter. Eles devem ser homens cujas vidas são exemplo de santidade.

Além disso, os homens que devem pastorear o rebanho de Deus têm de ser doutrinariamente corretos. Precisam crer sinceramente na verdade e ser capazes de ensiná-la com clareza. Paulo estabeleceu esse fato em Tito 1.9, depois de ressaltar as qualificações morais que todo presbítero tem de possuir. Um presbítero, ele escreveu, deve ser “apegado à palavra fiel, que é segundo a doutrina, de modo que tenha poder tanto para exortar pelo reto ensino como para convencer os que o contradizem”.

As igrejas devem ser assistidas pelo ministério de pastores que são teólogos. Essa idéia parece bastante estranha em nossos dias porque nos últimos cem anos testemunhamos uma separação desses ofícios. Pastores estavam ligados às igrejas, enquanto os teólogos, fomos levados a crer, estavam vinculados a universidades e seminários.

No entanto, a instrução de Paulo a Tito nos força a admitir que todo pastor é chamado a ser um teólogo. A verdade que Deus revelou em sua Palavra tem de ser explorada, entendida, crida, ensinada e defendida. Isso descreve a obra de um teólogo, e o ministério pastoral não pode ser realizado eficazmente por um homem que não se engaja nesse tipo de esforço.

As igrejas devem ser governadas pela Palavra de Deus. Os homens que têm a responsabilidade de liderar uma igreja não têm outra alternativa, senão a de serem bem alicerçados nas Escrituras.

Um pastor deve ser firme em sua compreensão da Palavra, “que é segundo a doutrina”. Paulo estava se referindo ao que, naquele tempo, havia se tornado um corpo reconhecido de ensino doutrinário. Antes de um homem ser qualificado para servir na função de pastor em uma igreja, ele deve “apegar-se” às doutrinas da Palavra de Deus; ou seja, ele tem de compreender essas doutrinas e crer nelas. Nem o pensamento superficial, nem um compromisso indiferente com os ensinos das Escrituras será suficiente para o homem que deseja ser um pastor na igreja de Jesus Cristo. Isso significa que os pastores devem ser homens que se dedicam com diligência ao estudo e cultivam constantemente fé humilde.

Paulo menciona duas razões por que um pastor tem de ser um teólogo diligente. A primeira diz respeito à sua responsabilidade de nutrir e cuidar do rebanho ao qual ele serve. Pastores têm de alimentar as ovelhas, e a única dieta que Deus prescreveu para seu povo é a sua Palavra (Hb 5.12-14; 1 Pe 2.2). Um presbítero de igreja deve ser “apto para ensinar” (1 Tm 3.2), pois é por meio do ministério da Palavra que os crentes são alimentados. Como David Wells sugere corretamente, um pastor é um agente da verdade, cuja responsabilidade primária é estudar, proclamar e aplicar a Palavra de Deus, para que o “caráter moral seja formado e a sabedoria cristã se manifeste” no povo de Deus. Essa é a primeira razão por que um pastor tem de ser um teólogo – para que possa instruir na “sã doutrina”.

Mas um pastor não tem apenas de ensinar os filhos de Deus. Ele precisa também defendê-los. Ele tem de afirmar a verdade e refutar o erro. E ambas as tarefas exigem discernimento resultante de estudo cuidadoso. A igreja de Cristo sempre esteve impregnada de pessoas que “contradizem” a sã doutrina. A tarefa dos pastores consiste de repreender essas pessoas, de modo que o erro delas não se espalhe, como um câncer,  na igreja (2 Tm 2.15-18).

O pastor tem de ser “bem instruído”, escreveu Calvino, “no conhecimento da sã doutrina; a segunda é que tenha inabalável firmeza de coragem… e a terceira é que ele faça a sua maneira de ensinar tender à edificação”.

Os maiores teólogos na história da igreja foram pastores fiéis. E os maiores pastores na história da igreja foram teólogos dedicados. É óbvio que os nomes em ambas as listas (com raras exceções) são os mesmos.

Agostinho, Lutero, Calvino, Gill, Edwards, Fuller, Spurgeon e Lloyd-Jones eram pastores-teólogos. Eram homens que levavam bem a sério as qualificações apostólicas quanto a um presbítero e, no cumprimento de sua chamada para pastorear o rebanho de Deus, dedicaram-se fielmente à obra de teologia.

J. I. Packer observou sabiamente: “Para ser um bom expositor… um homem tem de ser, primeiramente, um bom teólogo. Teologia é aquilo que Deus colocou nos textos da Escritura, e teologia é aquilo que os pregadores devem extrair desses textos”.

Se anelamos ver renovada vitalidade espiritual enchendo as nossas igrejas, temos de insistir com aqueles que servem como pastores para que reconheçam estar inerente em sua vocação a responsabilidade de serem teólogos sãos. Somente assim o povo de Deus será instruído apropriadamente no caminho de Cristo e protegido, com eficácia, de erros e heresias que corroem a saúde espiritual.

 

Traduzido por: Francisco Wellington

Fonte: Fiel

 

Postado por Tiago H. Souza

O Papel e a Importância da Formação Teológica para a Igreja – Ildemar Nunes Medeiros

Por Ildemar Nunes Medeiros

 

As palavras do Senhor Jesus em Mateus 28:18-20, “Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. 19 Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; 20 ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século”, apontam claramente que a continuidade do seu ministério se dá através da multiplicação de seus discípulos, e esta ocorre por meio do ensino, educação, instrução, ensino, formação, de pessoas, numa relação de aprendizagem.

 

É nessa ordenança que identificamos o nascedouro da formação teológica cristã. Para o Senhor Jesus a educação, o ensino, é um instrumento vital e poderoso para a transformação de indivíduos que não o conheciam em seus seguidores fiéis por toda a vida. Então o que é a formação teológica? É a formação do caráter, do pensamento e de novos hábitos da pessoa em relação a Deus, ao próximo, como a si mesmo. E essa formação se dá numa relação de aprendizagem entre os discípulos de Cristo, seja o mais experimentado em relação ao neoconverso, seja entre os próprios mais experimentados, buscando através de um ensino mútuo todos serem aperfeiçoados na conservação, na guarda, dos ensinos do Mestre.

 

É a comunidade dos discípulos de Jesus, a Igreja, o lugar essencial e ideal para essa relação de aprendizagem. É nesse ambiente informal, no qual acontece uma interação cotidiana, não prevista nem controlada, que os ensinos de Jesus são pregados, expostos e colocados em prática. Aqui a ênfase recai sobre o que se faz, e a aprendizagem se dá mais pela vivência, pela conduta.

 

Entendemos, porém, que se faz necessário que os ensinos de Jesus e a sua vida também sejam transmitidos de uma maneira mais formal, programados, assim como o apóstolo Paulo fez na cidade de Éfeso utilizando as dependências da escola de Tirano durante o espaço de dois anos (At. 19:9 e 10). Entendemos assim que os institutos, escolas, seminários, e outras instituições de ensino, há muito exercem um papel relevante na formação e capacitação teológica de cristãos, principalmente no preparo daqueles que são vocacionados para a liderança.

 

É por meio dessa educação teológica formal que os fundamentos bíblicos, teológicos e históricos capacitam pessoas para o exercício de liderança na Igreja, de maneira que elas possam entender e articular todo o ensino de Jesus de maneira relevante tanto para a própria Igreja como para a sociedade onde a Igreja está inserida. O papel da educação teológica formal é o preparo e a qualificação intencional de cristãos para servirem melhor a Deus. O estudo sistemático das Escrituras, do ensino de Jesus, deve ter em vista o fato dos cristãos serem mais bem habilitados para servirem a Deus e ao próximo.

 

A importância da formação teológica para a Igreja se dá quando os objetivos são voltados para auxiliá-la no cumprimento da sua missão diante de Deus e no mundo. Aqui a relação de aprendizagem se dá entre a Igreja e as instituições de ensino teológico: os que são preparados teologicamente são membros da Igreja, e devem na Igreja e nos fins e objetivos da sua missão estar plenamente envolvidos; por outro lado, a Igreja deve se abrir para enviar, apoiar e receber os que são capacitados teologicamente incluindo-os nas suas diversas atividades, para que eles possam exercer plenamente seus dons e ministérios recebidos da parte de Deus. Enfim, compreendemos que não há uma formação teológica relevante sem uma contribuição significativa para a Igreja e da Igreja está inserida nesse processo de aprendizagem.

 

 

Postado por Tiago H. Souza

O Papel e a Importância da Educação Teológica Para a Igreja – André Luís

Por André Luiz

 

No que tange a importância e a aplicação da educação teológica, em especial, no contexto religioso das igrejas evangélicas que a cada dia se proliferam, é lamentável a deliberada desconsideração para com ambos os elementos (importância e aplicação), visto que, da mesma forma que não podemos desassociar o Cristo da sua “Cruz”, ou, a “Cruz” do seu Cristo, não devemos também separar a igreja da educação teológica.

A grande verdade é que o evangelicalismo neopentecostalizado hodierno tem crescido e se multiplicado com um espírito analfabeto no que toca a matéria da espiritualidade cristã já que não existe autentica espiritualidade sem a vida e o amadurecimento espiritual que são oriundos de uma educação teológica. Pois, na maioria das igrejas de ordem evangélica, o pragmatismo e o misticismo são as regras hermenêuticas para se interpretar Deus. O estudo sério da bíblia (o estudo da revelação proposicional, segura e correta de Deus), que se articula a partir de uma hermenêutica científica, tanto por parte dos lideres como por parte dos seus liderados por tabela, tem sido negligenciado, e por conseqüência o corpo religioso evangélico tem vivido uma religiosidade ignorante não se revelando assim uma comunidade religiosa relevante pelo simples fato de não poder oferecer para os espiritual e moralmente deseducados (àqueles que vivem alienados de Deus) a verdade que eles necessitam acerca de Deus.

O Apostolo Paulo, o maior “mestre” da igreja cristã, apresenta-nos o documento sagrado (a bíblia) como a fonte de toda educação teológica para a igreja, pois ele diz a Timóteo: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2Tm 3.16-17). Posto isso, levando em consideração essa verdade paulina acerca da suficiência das Escrituras para a educação teológica, educação essa que habilita o homem nos aspectos mental, espiritual e funcional, precisamos com urgência gritar a carência gritante das igrejas no que toca a educação teológica, conclamando-as para uma responsabilidade de estudo bíblico-teológico que é indubitavelmente necessário para que a igreja seja um centro de fomentação de verdades espirituais, morais e sociais, respondendo e atendendo assim as demandas de um mundo que vive uma derrocada humana sem igual.

Apesar do desinteresse pela educação teológica quase que generalizado em nossas camadas evangélicas cujo interesse das mesmas consiste na busca da experiência religiosa utópica que entorpece a mente e a deixa agrilhoada ao fanatismo da religião anti-educacional no que diz respeito ao estudo da teologia, expectamos uma reforma interna eclesial de educação teológica. Almejamos um comprometimento revolucionário de Pastores-Mestres que através de um compromisso sério de estudo teológico espalhe para o povo o ensino bíblico que educa e habilita o homem para toda boa obra.

A educação teológica, a formação bíblica, a alfabetização religiosa a luz da Bíblia, precisa ser a prioridade das nossas igrejas, pois, comunicar todo o conselho de Deus para o mundo só é possível quando se sabe qual é o conselho de Deus. Saber de Deus ou sobre Deus, receber educação teológica, refletir teologicamente, é uma obrigação de todo aquele que faz parte da igreja e que precisa responder para o mundo a razão da sua fé.

 

 

Postado por Tiago H. Souza