O Que Acontece com Aqueles que Nunca Ouviram o Evangelho? – David Platt

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As Missões Moravianas – Tiago Souza

Introdução

Na historia das missões vários personagens tiveram seu papel de destaque ao longo dos anos. Os vários movimentos, sejam eles anônimos onde grande destaque, serviram para a propagação do evangelho.Um desses movimentos de destaque na historia das missões mundiais, que ainda hoje é lembrado por muitos, é o movimento dos Irmãos Morávios.

Em uma época onde o deismo e o racionalismo se alastravam sobre a Europa Continental, Deus levanta simples camponeses refugiados para a pregação simples, vida exemplar prática e uma espiritualidade fervorosa, para levar o precioso evangelho aos não alcançados de todos os cantos do globo terrestre.A pequena comunidade de Herrnhut é um exemplo daquele antigo modelo encontrado nas paginas de Atos 13. Uma comunidade incendiada pela devoção a Cristo é levada a enviar muitos de seus membros “… para a obra que eu os tenho chamado”.

Os Morávios sob a liderança de Nicolau Von Zinzendorf mantiveram um forte zelo pelo evangelho e pela causa missionária, onde Romperam seus limites e tiveram grande êxito em seus trabalhos.Tendo como pai espiritual desde os tempo da velha Boemia o grande pré reformador Jonh Russ , os morávios nos provam que a combinação do zelo pelo evangelho e uma visitação de Deus na igreja, é tudo o que precisamos para cumprir nossa missão.

  

O Pietismo E O Seu Impacto Na Vida De Zinzendorf

 A Europa em meados do século XVI foi invadida por uma grande onda de correntes filosóficas e emaranhados pensamentos acerca do que é “divino” enfraquecendo varias igrejas e que ocasionou um esfriamento espiritual por partes de muita delas. Por outro lado, como que uma contraproposta um movimento chamado pietismo, que tem sua característica a libertação dogmática e fria da igreja começa a se levantar e ganhar espaço entre vários cristãos Luteranos da Europa.

O pietismo provavelmente foi o movimento mais notável de protesto conta o tom da fria intelectualidade que parecia dominar a vida religiosa. Este, por sua vez, se opôs ao dogmatismo que reinava entre os teólogos e pregadores e ao racionalismo dos filósofos. Ambos lhe pareciam constatar com a fé viva que é a essência do cristianismo. O pietismo se instalou dentro de varias comunidades luteranas trazendo um fervor espiritual para a igreja que até então estava sob domínio de influencias deístas e racionalistas.

O pietismo prestou uma enorme contribuição não somente aos alemães, mas para todo o mundo cristão. Ele substituiu as controvérsias religiosas e filosóficas pelo cuidado em relação ás almas. Transformou a pregação e a visita pastoral como objetivos centrais da comunidade eclesiástica. Contribuiu de uma forma tremenda na musica erudita, e talvez o mais importante de tudo isso, compreendeu a importância da espiritualidade dos leigos na comunidade reavivada.

Dando base a todos esses objetivos, estava o tema pietista dominante: regeneração. E ela não se referia somente as definições teológicas da palavra, mas a indispensável experiência dos cristãos ao receber de fato o novo nascimento. Eles acreditaram que com o renascimento espiritual se cumpria a grande Reforma protestante. Dessa forma, a doutrina cristã tornava-se realidade para os cristãos pietistas.

Um desses influenciados por essa movimento de renovo espiritual é um jovem de família nobre chamado Nicolau Von Zinzendorf, natural de Dresden na Saxonia.

Seu pai morreu pouco depois do seu nascimento e a mãe casou-se novamente, sendo o rapaz criado um tanto solitário e introspectivo por sua avó, a baronesa pietista Henrietta Catarina Von Gersdof. Desde bem jovem foi marcado pela característica que marcou sua vida religiosa, a forte devoção e paixão pessoal a Cristo.

Sua juventude teve importantes formações no Paedogogium de Francke, Halle. O rigor ali imperante não lhe agradava, mas aos poucos começou a apreciar a comunhão religiosa, até que em 1715 teve um encontro com a natureza salvadora do evangelho. Logo após sua conversão Zinzerdof foi enviado pela sua família para estudar funcionalismo publico ( Direito) em Wittenberg de 1716 a 1719. Embora encarregado no aprendizado das leis públicas e civis, Zinzendorf nunca abandonou seu zelo pietista.

O Início Da Comunidade Em Herrnhut

Enquanto isso, a velha igreja da Boemia passava por dias maus. Os descendentes diretos do grande pré-reformador John Russ, passavam por uma crise política e social. As conseqüências da Guerra dos Trinta Anos foram catastróficas para a igreja boemia, onde levou vários moravios de fala alemã a buscar um novo refugio para suas famílias. Vários deles migraram para a Saxônia.

Dono e herdeiro de varias terras, o então Conde Zinzendorf convida seus irmãos na fé morávianos para se refugiarem em suas terras na Saxônia. Seu convite caiu como uma providencia divina para famílias que estavam à espera de um verdadeiro milagre. Os morávianos não pensaram duas vezes e logo começou sua colônia em Berthelsdorf, a qual denominou Herrnhut (O Vigia do Senhor), local onde se reuniu grande numero de refugiados morávianos. O convite feito pelo generoso conde Zinzendorf se espalhava entre os morávios onde a cada dia o numero aumentava. Os morávianos almejavam uma cidade habitada apenas por cristãos, separada do mundo, uma verdadeira “comunhão dos santos”. Era um monasticismo livre e social, sem celibato. Mas como monasticismo, eles procuravam viver uma vida cristã sob condições peculiarmente favoráveis e distanciadas das piores tentações. Não demorou muito para Herrnhut tornar-se uma comunidade prospera e organizada.

 A partir de 1727, Zinzendorf tornou-se o guia espiritual de Herrnhut, e dez anos mais tarde recebeu ordenação formal na igreja moráviana reorganizada, ou Fraternidade Unida, como os crentes preferiam chamá-la. Os impulsos de Zinzendorf era fortemente a chama missionária. E em conseqüência disso, o movimento moráviano tornou-se a primeira força protestante em larga escala da historia.

O Reavivamento Do Dia 13 De Agosto

Os maravianos levavam uma vida espiritual um tanto normal e apática. Seu protestantismo enfraqueceu-se devido ao vários problemas ocorridos desde a Boemia. Vários círculos religiosos entraram em Herrnhut, onde levou a vida comunitária em risco.

Porém, cinco anos depois da chegada dos primeiros refugiados, toda a atmosfera de Herrnhut mudou. Um período de renovação espiritual começou a despertar o interesse da comunidade, onde seu ápice foi um culto no dia 13 de Agosto de 1727, onde Deus visitou a comunidade com poder, arrependimento e um forte zelo pelo evangelho e por missões. Os morávios foram transformados radicalmente. Suas discussões religiosas deram lugar para a unidade e dependência de Deus. Suas rixas doutrinariam foram deixadas de lado e uma forte ênfase em missões foi à principal característica da comunidade.  Apartir daquele dia, 13 de agosto de 1727, iniciou-se uma vigília de oração entre os morávios que continuou noite e dia, sete dias por semana, sem qualquer interrupção por mais de cem anos.

 A Igreja Começa A Se Mobilizar

 Embora despertados para as missões, o envolvimento direto nas missões estrangeiras não veio até alguns anos depois do grande despertamento espiritual. O conde Zinzendirf se achava presente á coroação do rei Cristiano VI da Dinamarca e, durante as festividade, foi apresentado como uma atração ao publico, alguns nativos escravos da Groenlândia. Zinzendorf ficou tão impressionado com os pedidos desses nativos para enviar missionários, que os convidou para visitar Herrnhut. Os nativos compartilharam suas dificuldades e fizeram um apelo para a comunidade a enviar missionários para trabalhar entre eles. Uma sensação ainda maior de urgência invadiu Herrnhut, onde todos se sensibilizaram para o evangelismo mundial.

No prazo de um ano os dois primeiros missionários morávios haviam sido nomeados para as ilhas Virgens ( Leonard Dober e David Nitsehmann) e, nas duas décadas seguintes que se seguiram, os morávios enviaram mais missionários do que todos os protestantes haviam enviado em dois séculos anteriores. Exemplo disso foi em 1735 onde um contingente apreciável, dirigido pelo morávio Gottlieb Spangenberg começou a trabalhar para alcançar as Índias Americanas na Geórgia.

O Encontro Com John Wesley

É nesse mesmo período e ocasião que o famoso pregador anglicano Jonh Wesley encontra com certo grupo de morávios em um navio com destino a Georgia. No diário de Wesley temos detalhes desse magnífico encontro e suas conseqüências transformadoras para a vida de John Wesley:

 Às sete horas fui procurar os morávios. Eu havia observado há muito a profunda seriedade do seu comportamento. Davam provas incessantes da sua verdadeira humildade em fazer aquelas tarefas servis para os demais passageiros que nenhum de nós suportaria; eles procuravam nos servir dessa forma e rejeitavam qualquer remuneração, dizendo que era bom para os seus corações orgulhosos e que o seu querido Salvador havia feito muito mais que isso por eles.

Cada dia que passava lhes dava oportunidade de demonstrar uma meiguice que nenhuma injúria poderia desafiar. Se alguém os empurrasse, batesse ou jogassem no chão, eles se levantavam e saíam; mas nunca se ouviu qualquer queixa ou resposta nas suas bocas. Agora se apresentaria uma oportunidade de ver se eles eram isentos do espírito de medo da mesma forma que o eram do espírito de orgulho, ira e vingança.

No meio do salmo com que iniciaram a sua reunião, o mar se ergueu, despedaçou a vela mestra, inundou o navio e as águas vieram jorrando sobre o convés como se um grande abismo estivesse nos engolindo. Irromperam-se terríveis gritos e uivos entre nós. Os morávios, porém continuavam a cantar tranqüilamente.

Perguntei para um deles depois: “Você não estava com medo? Ele respondeu: “Graças a Deus, não.” Perguntei ainda: “Mas não estavam amedrontadas as mulheres e crianças?”Ele respondeu brandamente: “Não, nossas mulheres e crianças não têm medo da morte.”

 Quando John Wesley voltou para Inglaterra escreveu sobre o impacto desse encontro em sua vida:

 “Eu fui à América para converter os índios; mas quem há de me converter? Quem é que me libertará deste coração mau de incredulidade? Tenho uma religião “de tempo bom”. Sei falar bem; sim, e tenho confiança em mim mesmo quando não há perigo ao meu lado; mas venha a morte me enfrentar e meu espírito já se perturba. Nem posso dizer: “O morrer é lucro!”

Em Londres o próprio Wesley procurou o conselho de um missionário morávio, Peter Bohler, e logo após converteu-se realmente. Em menos de três semanas ele estava viajando rumo a Saxônia para conhecer o Conde Zinzendorf e a comunidade Herrnhut.

A Obra Missionária Começa A Ganhar Mais Força

 Para essa obra de extensão na Geórgia, Nitschmann foi ordenado bispo, o primeiro da moderna sucessão moráviana, em 1735 por Jablonsky. As intenções dos morávianos de irem a qualquer lugar servindo a Cristo, logo deram nobre impulso missionário ao movimento moráviano o qual ele jamais perdeu. Até hoje organização alguma protestante tem estado tão alerta á obra missionária, e nenhuma é tão consagrada a ela em proporção de numero.

Embora Zinzendorf seja principalmente conhecido como estadista missionário, ele ajudou voluntariamente nas missões estrangeiras. Em 1738 alguns anos depois dos primeiros missionários terem seguido rumo ao Caribe, Zinzendorf acompanhou três novos recrutas que haviam sido nomeados para se juntar a seus colegas ali. Quando chegaram, eles se angustiaram ao encontrar os companheiros na prisão. Zinzendorf usou seu prestigio e autoridade para obter a liberdade deles. Durante essa visita o conde Zinzendorf dirigiu cultos diários para os africanos e reformou a estrutura organizacional e as designações territoriais para os missionários.

Ao fim de seu trabalho ali, deixando tudo solidavelmente estabelecido, Zinzendorf voltou á Europa; viajando novamente dois anos depois, dessa vez para as colônias americanas. Ali, prestou serviço estabelecendo estratégias ao lado dos irmãos morávios que trabalhavam entre os índios nativos. A permanência de Zinzerdof na America foi muito ativa. Esforçou-se em reunir as espalhadas forças alemãs da Pennsylvania numa unidade espiritual a ser reconhecida como “Igreja de Deus no Espírito”. Iniciou missões entre os índios; organizou sete ou oito congregações morávianas e estabeleceu escolas. Sob a superintendência de Peter Bohler foram criadas itinerancias.

Em janeiro de 1743 Zinzendorf embarcou para a Europa e em dezembro de 1744 encarregou Spangenberg como bispo de toda a obra na America.

È perceptível que Zinzerdof nunca de fato foi um missionário de campo. Seu papel dentro do movimento foi de um grande estadista, alias talvez um dos maiores na história do cristianismo. Como estadista “missionário” Zinzendorf passou mais de trinta anos como supervisor de uma grande rede mundial de missionários. Seus métodos eram simples e práticos. Os morávios não tinham uma formação teológica e tão poucos tinham dinheiro. Eram simples camponeses despertados para a evangelização. Eles sabiam falar de Cristo, e do que Ele tinha feito em suas vidas. E isso já era suficiente. Embora Zinzerdorf fosse um conde de notável nobreza, não há relatos que ele sustentava todos os enviados de Heernhut. O movimento missionário moráviano tinha como princípio e pratica o auto-sustento. Muitos deles eram encorajados a trabalhar junto aos prováveis convertidos dando testemunho de sua fé por palavras ou por exemplos de vida. Sua contextualização foi grande identificação clara com o povo. Sempre estava na mesma condição social de seus futuros convertidos. Muitos deles se venderam como escravos para evangelizar os escravos, tamanha a fé, devoção e a paixão por almas.  Algo que era perceptível no movimento moraviano era sua ênfase missionária em lugares longínquos e difícil acesso e trabalho. Seus esforços missionários eram sem duvida com muita paciência e devoção.

  Do ano de 1749 a 1755 Zinzendorf teve como alvo de sua atividade a Inglaterra. Seus bens haviam sido gastos com o movimento evangelístico e agora ele se encontrava quase um simples moraviano. O caráter de Zinzendorf, como o de todos nós, tinha luzes e sombras, altos e baixos. Zinzendorf era inclinado ao emocionalismo a religião sentimental. Alguns de seus hinos cheios de emoção expressa “ Jesus conduzirá mansamente, até que conquistemos nosso descanso”, estiveram presentes no louvor de muitas igrejas. Poucos homens mostraram tal intensidade de devoção a Jesus. Ele revelou toda o seu zelo por cristo em umas de suas declarações á congregação de Herrnhut: “Tenho uma única paixão: Ele, ninguém além dele.”

 Assim aquele simples “acampamento de refugiados” tendo um mobilizador apaixonado por almas e por Cristo, tornou-se uma coméia de atividade missionária. Missões foram iniciadas no Suriname, Guiana, Egito, África, Groelândia, Lapônia, Ceilão, Algéria e em vários outros lugares que infelizmente a historia não pode contar.

 As missões moravianas provam para nós que a igreja  visitada pelo zelo da palavra, oração, jejum, convicção de pecados e comunhão, irá presenciar uma grande manifestação de Deus que a capacita para a salvação dos povos.

Conclusão

 Ao observar a cativante historia das missões morávianas podemos notar seu zelo e devoção pessoal a Cristo. Ora, essa é chama das missões. Mais uma vez temos um forte exemplo que o combustível de missões é a devoção e a paixão pessoal a Cristo. Com isso temos pelo menos duas coisas a aprender.

 Primeiro, os métodos de sucesso vem se repetindo levando em conta o velho modelo bíblico encontrado em Atos dos Apóstolos. A igreja enviadora, os missionários enviados e causa em comum: os não alcançados. Não foi uma ou duas pessoas chamada por Deus. Foi a congregação Inteira afim de uma única causa.

Segundo, dependemos de uma visitação de Deus em nossas congregações para uma obra de cunho transcultural e mundial. Deus é o Senhor das missões, ele é o dono e a causa sustentadora das missões. Sem ele a igreja nada pode fazer.

Referencias

CAIRNS; EARLE E. O Cristianismo através dos séculos. São Paulo: Vida Nova,1984

GONZALEZ; JUSTO L. A era dos dogmas e das dúvidas. São Paulo: Vida Nova, 1984

Walker;W. A historia da igreja cristã. São Paulo: ASTE, 1967

SHELLEY;BRUCE L. Historia do cristianismo ao alcance de todos. São Paulo: Shedd Publicações,2004

TUCKER;RUTH A. Missões até os confins da terra. São Paulo: Shedd Publicações,2010

A Reforma e Missões – A Presença da Igreja como agente de expansão da Palavra pregada – Ronaldo Lidório

A Reforma Protestante desencadeada com as 95 teses de Lutero divulgadas em 31 de outubro de 1517 foi sobretudo eclesiástica em um momento em que todos os olhares se voltavam para a reestruturação daquilo que a Igreja cria e vivia. Renasceram assim os dogmas evangélicos. A Sola Scriptura defendia uma Igreja centrada nas Escrituras, Palavra de Deus; a Sola Gratia reconhecia a salvação e vida cristã fundamentadas na Graça do Senhor e não nas obras humanas; a Sola Fide evocava a fé e o compromisso de fidelidade com o Senhor Jesus; a Solus Christus anunciava que o próprio Cristo estava construindo Sua Igreja na terra sendo seu único Senhor e a Soli Deo Gloria enfatizava que a finalidade maior da Igreja era glorificar a Deus.

A Missão da Igreja, sua Vox Clamantis, não fez parte dos temas defendidos e pregados na Reforma Protestante de forma direta. Isto por um motivo óbvio: os reformadores como Lutero, Calvino e Zuínglio possuíam em suas mãos o grande desafio de reconduzir a Igreja à Palavra de Deus e assim todos os escritos foram revestidos por uma forte convicção eclesiológica e sem uma preocupação imediata com a missiologia. Isto não dilui, entretanto, a profunda ligação entre a reforma e a obra missionária por alguns motivos:

a) A Reforma levou a Igreja a crer que o curso de sua vida e razão de existir deveriam ser conduzidos pela Palavra de Deus (submetendo o próprio sacerdócio a este crivo bíblico) e foi justamente esta ênfase escriturística que despertou Lutero para a tradução da Palavra na língua do povo e inspirou posteriormente centenas de traduções populares em diversos idiomas fomentando posteriormente movimentos como a Wycliffe Bible Translators, com a visão da tradução das Escrituras para todas as línguas entre todos os povos da terra. Hoje contamos com a Palavra do Senhor traduzida para 2.212 línguas vivas. João Calvino enfatizava que “… onde quer que vejamos a Palavra de Deus pregada e ouvida em toda a sua pureza… não há dúvida de que existe uma Igreja de Deus ”. O grande esforço missionário para a tradução bíblica resulta diretamente dos ensinos reformados.

b) A Reforma reavivou o culto onde todos os salvos, e não apenas o sacerdote, louvavam e buscavam a Deus. E Lutero em uma de suas primeiras atitudes colocou em linguagem comum os hinos entoados nos cultos. Esta convicção de que é possível ao homem comum louvar a Deus incorporou na Igreja pós reforma o pensamento multiétnico onde “o desejo de levar o culto a todos os homens”, como disse Zuínglio, não demorou a ressoar na Igreja culminando com o envio de missionários para o Ceilão pela Igreja Reformada holandesa no século XVII. Tal fato disparou um progressivo envio missionário e expansão da fé Cristã nos séculos que viriam. Um culto vivo ao Deus vivo foi um dos pressupostos reformados que induziu a obra missionária a levar este culto a todos os homens transpondo barreiras linguísticas, culturais e geográficas.

c) A Reforma trouxe a Glória de Deus como motivo de vida da Igreja e isto definiu o curso de todo o movimento missionário pós reforma onde o estandarte de Cristo, e não da Igreja, era levado com a Palavra proclamada entre outros povos. Os morávios já testificavam isto quando o conde Zinzendorf, ao ser questionado sobre seu real motivo para tão expressivo e sacrificial movimento missionário, responde: “estou indo buscar para o Cordeiro o galardão do Seu sacrifício”. John Knox na segunda metade do século XVI escreveu que a Genebra de Calvino era “a mais perfeita escola de Cristo que jamais houve na terra desde a época dos apóstolos”. O centro das atenções portanto era Cristo e nascia ali um modelo cristocêntrico de pregação do evangelho que marcaria o curso da história missionária nos séculos posteriores.

Mas, sobretudo, a Reforma Protestante submeteu a Igreja ao crivo da Palavra e isto revelou-nos a nossa identidade bíblica, segundo o coração de Deus. Seguindo o esboço desta eclesiologia reformada poderemos concluir que somos uma comunidade chamada e salva pelo Senhor com uma finalidade na terra. Zuínglio, logo após manifestar sua intenção de passar a pregar apenas sermões expositivos em janeiro de 1519, afirmou em sua primeira prédica que “a salvação põe sobre nós a responsabilidade de obediência ”.

Seguindo esta ênfase eclesiológica sob cunho escriturístico vemos que Ekklesia, Igreja, é um termo composto que pode ser dividido em “Ek” (para fora de) e “Klesia”, que vem de “Kaleo” (chamar). Etimologicamente pode, portanto, ser entendida como “chamada para fora de” o que a principio nos dá uma ideia mais real desta comunidade dos santos que entra em um templo mas precisa postar seus olhos além muros. Obviamente o termo também está ligado a “agrupamento de indivíduos” e de certa forma a “instituição” porém, em todo o N.T. adquire o conceito de “comunidade dos santos” e fora MT. 16:18 e 18:17 está ausente dos evangelhos aparecendo, porém, 23 vezes em Atos e mais de 100 vezes em todo o Novo Testamento. Gostaria que déssemos atenção neste momento a alguns conceitos neotestamentários e reformados para esta comunidade dos filhos de Deus que foram demoradamente estudados pelos reformadores e impulsionam a Igreja hoje para uma obra missionária baseada na Sola Scriptura e para a glória de Deus.

1. Igreja de Deus
 Comumente encontramos no N.T. a expressão “Igreja de Deus” (“Ekklesia tou Theou”) o que evidencia que esta Igreja veio de Deus e pertence a Deus. É uma comunidade que possui Deus como fonte; é eterna, espiritual e universal. Não provém de elucidação humana ou de uma obsessão nutrida por um grupo de loucos há 20 séculos, antes foi articulada por Deus, formada por Deus, é pertencente a Deus e permanece ligada a Deus. Independente das deturpações da fé, das ramificações que se liberalizaram, dos que se perderam pelo caminho, a Igreja permanece, pois é posse de Deus.

Desta forma a “Ekklesia tou Theou” necessita caminhar de acordo com o palpitar do coração de Deus, a quem pertence, traduzindo para sua vida os desejos profundos deste coração. É baseados nesta verdade que necessitamos renovar nosso compromisso com a eclesiologia bíblica – um grupo de santos chamado por Deus para a inusitada tarefa de transtornarem o mundo com o evangelho de Cristo.

2. Igreja local
 Também no N.T. encontramos o conceito de “igreja local”. Em 1o Co 1:12 vemos, por exemplo, a expressão “Igreja de Deus que está em Corinto”, onde “que está” (“te ouse”) indica a localidade da igreja. Mostra-nos que os santos de Corinto pertencem à Igreja, e não que a Igreja pertence à Corinto, o que deve ficar bem claro. Nos últimos 2.000 anos a Igreja adquiriu uma forte tendência de se “localizar” condicionando-se tão fortemente a uma cidade ou bairro a ponto de alguns chegarem a defender uma “demarcação” geográfica da responsabilidade da Igreja impedindo trabalhos fora da sua “jurisdição”.

Num conceito neotestamentário “Igreja” é uma comunidade sem fronteiras e, portanto, creio que há necessidade de sacramentalizarmos mais os santos e menos os templos. Missões não é um programa eclesiástico, é a respiração da Igreja. Lembro que na tribo Konkomba no oeste africano há uma expressão que diz: “respiração é vida – não é preciso pensar para respirar; não é preciso pensar para viver”.

3. Igreja humana
 Também dentro do conceito de “Igreja” nos deparamos no N.T. com um perfil bastante humano. Em 1 Ts 1.1 por exemplo vemos “igreja de Tessalônica” (“ekklesia Thesalonikeon”) dando-nos a ideia daqueles que são Igreja também sendo Tessalônicos, cidadãos de Tessalônica.

Mostra-nos o fato de que por serem “Igreja” não significa que deixam de ser cidadãos, patriotas, carpinteiros, lavradores, comerciantes, desportistas, pais, mães ou filhos. “Igreja” no N.T. não é apresentada como uma comunidade alienante, mas como uma comunidade que abrange o homem em seu contexto humano fazendo-nos entender que esta Igreja não foi separada do mundo e sim purificada dentro dele. Mostra-nos também que na obra missionária não há super homens mas sim gente como a gente tendo o privilégio de espalhar o Evangelho de Cristo além fronteiras.

No livro de Atos, a humanidade passo a passo era chocada com a fé daqueles que “transtornavam o mundo”, onde o viver é Cristo, o objetivo era ganhar almas, a alegria era a adoração, o que os unia era a verdadeira comunhão, o amor era traduzido em ações, os fortes guiavam os fracos, as dificuldades eram enfrentadas com oração, a paz enchia os corações e todos, mesmo sem muita estrutura humana, possuíam como finalidade de vida apenas testemunhar do seu Mestre. Era uma Igreja visionária formada por gente limitada como nós.

Entretanto, quando olhamos para esta Ekklesia do Senhor Jesus no contexto embrionário do Novo Testamento a pergunta que salta aos olhos é: qual deve ser a principal motivação dos santos para o envolvimento com a obra missionária mundial fazendo Cristo conhecido entre todos os povos da terra? Nesta expectativa olhamos para Paulo o qual, como missiólogo, expôs aos Romanos a nossa real motivação bíblica e reformada.

Para isto é preciso reler Romanos 16:25-27 quando o apóstolo, encerrando esta carta de grande profundidade missiológica, diz:

“Ora, àquele que é poderoso para
vos confirmar segundo o meu evangelho “
(fala de Deus)

“conforme a revelação do mistério ”
(o mistério é o Messias prometido a todos os povos)

“e foi dado a conhecer por meio das Escrituras Proféticas”
(este é o meio de Revelação)

“segundo o mandamento do Deus eterno”
(este é o meio de Eleição)

“para a obediência por fé ”
(este é o meio de Salvação)

“entre todas as nações ”
(Isto é Missões – a extensão do plano salvífico de Deus)

Mas qual o motivo para este plano divino que visa a redenção de todos os povos? Ele responde no verso 27: “Ao Deus único e sábio seja dada glória …”

É a glória de Deus. Este é o maior e mais importante motivo para nos envolvermos com o propósito de fazer Jesus conhecido até a última fronteira do país mais distante, ou da criança caída na esquina da nossa rua.

Martinho Lutero, em um sermão expositivo em 1513 baseado no Salmo 91 afirmou que “a glória de Deus precede a glória da Igreja”. É momento de renovar nosso compromisso com as Escrituras, reconhecer que existimos como Igreja pela graça de Deus, orar ardentemente por fidelidade de vidas e entender que o próprio Jesus está construindo a Sua Igreja na terra. E quando colocarmos as mãos no arado, sem olhar para trás, nos lembremos: a razão da nossa existência é a glória do Deus. Pois Deus é maior do que nós

Uma Igreja Missional Contextualiza o Evangelho – Mark Driscoll

Uma igreja missional busca seguir o exemplo de Jesus, que foi o maior missionário de todos os tempos, a ingressar em uma nova cultura. Ele deixou uma cultura para entrar em outra, participando dela completamente: falava o idioma, comemorava os feriados, comia e bebia, ia às festas e fazia amizades—tudo isso sem jamais pecar. A vida de Jesus é o perfeito modelo da vida missionária vivida por Deus na cultura que devemos imitar, sem cair na armadilha do sincretismo liberal ou do sectarismo fundamental. É importante notar, no entanto, que, aos olhos daqueles que pensavam de forma funda­mentalista e separatista, Jesus foi simplesmente longe demais. Eles viram seus atos como pecaminosos e acusaram-no falsamente de ser comilão e bebedor de vinho e de apoiar o pecado.

A verdade inegável é que a contextualização não é algo feito exclusivamente por missionários cristãos em outras nações, mas por todos os cristãos em todas as culturas, mesmo se eles não reconhecem isso. Sobre esse assunto, Paulo disse em 1 Coríntios 9.19–23:

Pois, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos para ganhar o maior número possí­vel: Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse eu debaixo da lei (embora debaixo da lei não esteja), para ganhar os que estão debaixo da lei; para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. Ora, tudo faço por causa do evangelho, para dele tornar-me coparticipante.

Mark Driscoll e J.I Packer

No mundo da missiologia, chamamos isso de contextualização. Isto é, as igrejas devem estar cientes do contexto cultural em que estão inseridas, no qual as pessoas perdidas vivem, devendo se esforçar ao máximo para levar o amor e a verdade de Jesus em palavras e ações e ser “tudo para todos”, utilizando “todos os meios” para “salvar alguns”. Em vez de ser um comprometimento, esse trabalho é “por causa do evangelho”, o que significa que qualquer igreja que somente pratica o evangelismo sem antes estudar a cultura e se esforçar para entender o contexto em que está inserida não se importa realmente com o evangelho. Muitas igrejas são projetadas exclusivamente para aco­modar pessoas religiosas, já que sua cultura e seus métodos de ministério não são re­ceptivos ou hospitaleiros para as pessoas fora da cultura cristã. Contextualizar é facilitar ao máximo o acesso à igreja sem comprometer a verdade da crença cristã. Assim, o que se busca é uma verdade atemporal e métodos modernos. Em outras palavras, a contex­tualização não é tornar o evangelho pertinente, mas mostrar a pertinência do evangelho.

Em termos práticos, isso significa que uma igreja missional fala a língua e canta o estilo da cultura sem utilizar uma conversa religiosa, ou o que um pastor chama de “gíria gospel” como amado(a) ou querido(a), porque isso é bíblico. Quando Deus ins­pirou a escritura do Novo Testamento, as opções eram o grego acadêmico ou o de rua, e Deus optou por escrever sua Palavra na linguagem de rua. Paulo também defende um cristianismo compreensível em 1 Coríntios 14; muitas pessoas na igreja estavam falando uma língua que as pessoas perdidas simplesmente não podiam entender, por isso Paulo claramente ordenou que falassem palavras inteligíveis para que as pessoas perdidas pudessem compreendê-las e serem salvas.

Aqui é importante estabelecer a diferença entre relativistas e relevantistas. Os re­lativistas estão dispostos a comprometer a verdade cristã em nome de se relacionarem com as pessoas perdidas. Isso é um problema, pois eles buscam mudar Jesus, erronea­mente acreditando que ele não é pertinente para as pessoas e a vida delas. Em contra­partida, os relevantistas sabem que Jesus é relevante para todas as pessoas, todos os tempos, todos os lugares, todas as culturas e todas as circunstâncias. Eles estão com­prometidos com transpor quaisquer barreiras culturais que se levantem contra o poder e a verdade do evangelho. Eles utilizam quaisquer meios morais para que as pessoas possam claramente ouvir a mensagem de Jesus e ver a pertinência de Jesus.

Além disso, não estamos defendendo as igrejas “sensíveis” aos perdidos nas quais a doutrina é minimizada; antes, preferimos as igrejas “sensatas” aos perdidos. Isso significa que a igreja não deve parar de usar as palavras da Bíblia que estão cheias de significado teológico (por exemplo, pecadopropiciaçãoirajulgamentoinferno), mas deve se esforçar ao máximo para explicar essas palavras. Ela deve se defender contra as objeções das pessoas perdidas para que elas possam entender em que os cristãos creem e a razão pela qual creem, enquanto são convidadas a crer também. Ao contextualizar, a igreja missional não faz concessões, mas obedece ao exemplo de Paulo, que repreendeu Pedro por sua tentativa pecaminosa de ter uma igreja somente para os judeus, que não eram receptivos com relação aos gentios e sua cultura.

Como missionários fiéis, os cristãos têm adaptado os métodos e a cultura da igreja ao longo da sua história. Estive na Índia há alguns anos e me pediram que pregasse

em uma igreja de uma comunidade rural. Essa congregação se reunia em um edifício muito simples, feito de blocos de concreto. Todos se sentavam no chão: as mulheres de um lado e os homens do outro. A Bíblia deles era uma versão que eu desconhecia; havia sido contextualizada por meio da tradução em uma linguagem que eles podiam compreender. As crianças participavam do culto, já que não havia uma atividade se­parada para elas. Os momentos de louvor incluíam instrumentos e cânticos que eu nunca tinha ouvido. Estranhei o fato de o culto dominical não começar na hora mar­cada, nem ter uma duração pré-definida. Disseram-me que esperaríamos paciente e graciosamente todas as pessoas chegarem para dar início ao culto, que terminaria quando parecesse que fosse hora de terminar. Assim, começamos muito tarde e o culto durou muito tempo, mas, diferentemente das igrejas americanas, ninguém pareceu se importar, nem saiu antes do culto acabar; em vez disso, as pessoas aproveitaram para construir relacionamentos.

Para pregar, pediram que me sentasse na frente, sobre uma plataforma não muito alta, no estilo “guru”, com as pernas cruzadas, e que esperasse o tradutor contextualizar minhas palavras para as pessoas. Sendo tão flexível quanto um hiper-calvinista, eu não estava bem certo de como poderia pregar daquela forma, mas fiz um grande esforço por amor às pessoas e pelo desejo de respeitar suas formas culturais, que não eram proibidas nas Escrituras e, portanto, permissíveis. Contudo, se elas tivessem me pedido para sacrificar um animal, como os hinduístas fazem para agradar seus deuses, eu teria me recusado, pois ser um bom missionário significa fazer tudo que podemos, exceto pecar, para tornar a igreja culturalmente acessível. Acredito que, ao ler essa história, poucas pessoas – ou talvez nenhuma – teriam alguma coisa contra. No entanto, muitas pessoas tendem a fazer julgamentos morais severos sobre qualquer acomodação cultural na igreja em coisas relacionadas à estética, ao modo das pessoas se vestirem, ao estilo de música, ao horário e à ordem de culto.

Por quê? Porque elas continuam a viver sob o mito de que as missões são algo que acontece do outro lado do mundo, e não do outro lado da rua, e de que os missionários são pessoas especiais, e não cristãos normais. Esse é um pecado do qual temos que nos arrepender. Toda igreja é cercada de culturas, subculturas e tribos de pessoas que estão tão perdidas e são tão culturalmente diferentes do cristianismo evangélico ocidental quanto um morador de um vilarejo indiano que se senta no chão, come com as mãos e ara a terra com a ajuda de um boi. Já que devemos amar nosso próximo, devemos ter uma igreja que está culturalmente contextualizada, como um ato de amor.

É verdade que, conforme o evangelho passa de uma cultura para outra, há a com­plexa questão de determinar o que deve ser rejeitado, o que deve ser aceito e o que deve ser redimido. Isso é verdade para as culturas que enviam e as que recebem o evangelho; o evangelho não será mantido cativo a nenhuma cultura, incluindo a cultura da igreja, sem continuamente chamá-la ao arrependimento.

Esse é um dos motivos por que temos as Epístolas do Novo Testamento. A maior parte do conteúdo delas trata de questões e conflitos relacionados àquilo que devia ser rejeitado, aceito e redimido quando o evangelho avançou da cultura dos judeus para a

dos gentios. Portanto, o Novo Testamento é um exemplo missiológico da difícil obra teológica da contextualização. Hoje, as questões relacionadas à contextualização in­cluem o modo de se vestir, a tatuagem, o piercing, a cirurgia plástica, os estilos musi­cais, o uso da tecnologia na igreja, o entretenimento, que inclui televisão e filmes, fumar, beber, a linguagem, a homossexualidade e os desvios sexuais de todos os tipos que podem ser imaginados.

Por ser missional, a igreja primitiva respondia às questões daqueles tempos com fidelidade e contextualidade, por isso, nos dias de hoje, devemos fazer o mesmo.

 

Trecho extraído do livro “Igreja Vintage” da editora Tempo de Colheita

Fonte: Tempo de Colheita

Spurgeon plantador de Igrejas

Muitas pessoas não estão cientes da paixão extraordinária de C. H. Spurgeon por plantação de igrejas. Neste breve artigo, Peter Morden lança luz sobre como esse ministério impactou Londres.

O cenário Batista em Londres seria muito diferente hoje não fosse o ministério de plantação de igrejas de Charles Haddon Spurgeon. Algumas estatísticas nos ajudam a começar a compreender a extensão de sua influência. De forma impressionante, 53 das 62 novas igrejas Batistas de Londres fundadas entre 1865 e 1876 foram criadas graças ao seu trabalho; e no tempo da sua morte, em 1892, ele estava envolvido na plantação de quase 100 igrejas na cidade e nas áreas circunzinhas. A maioria dessas igrejas permanecem até hoje, muitos delas fortes e vigorosas, incluindo aquelas em Balham, Enfield, Greenwich, Norwood (Chatsworth), Teddington e Wimbledon (Estrada da Rainha).

Como Spurgeon conseguiu esse feito extraordinário? Seus métodos eram flexíveis e variavam dependendo do contexto, mas muitas vezes ele trabalhava da seguinte maneira. Para começar, Spurgeon identificaria uma área que parecia ser uma oportunidade missionária promisssora. Então ele enviaria um ou dois alunos do Colégio de Pastores para realizar cultos de pregação ao ar livre, muitas vezes com o apoio de outras pessoas da sua igreja. Se esses trabalhos “ao ar livre” fossem bem sucedidos, ele alugaria algumas salas para que novas reuniões pudessem ser realizadas. Se o trabalho continuasse a florescer (como normalmente aconteceu), terrenos adequados seriam comprados e instalações construídas. Spurgeon tinha o seu próprio advogado para ajudar as novas igrejas na elaboração das escrituras e com quaisquer outras questões jurídicas que surgissem. A parte financeira era suprida por seus muitos colaboradores – e também pelo próprio Spurgeon.

A Igreja Batista de Enfield, ao norte de Londres, é apenas um exemplo de uma igreja que deve o seu início, humanamente falando, a Spurgeon. Em 1867, após uma reunião que realizou com algumas pessoas interessadas daquele lugar, os cultos foram iniciados em uma sala em cima de um pub, o Rising Sun [Sol Nascente]. Uma “capela de ferro” temporária foi logo construída, e Spurgeon pregou o primeiro sermão no novo edifício. Havia então 30 membros e a igreja continuou a crescer. Em 1872, uma capela mais permanente foi erguida. Hoje, o elo com Spurgeon é tão forte como antes: Amanda James[1], o ministro titular, formou-se no Spurgeon’s College; o ministro em treinamento, Craig Downes, está atualmente estudando lá. Sob a liderança deles, a Igreja Batista de Enfield continua a prosperar e tem uma forte atuação em missões estrangeiras.

Falando de sua paixão por plantação de igrejas, Spurgeon disse certa vez:

“É com alegria … que encorajamos nossos membros a nos deixar para fundar outras igrejas; ou melhor, procuramos convencê-los a fazê-lo. Pedimos a eles que se espalhem por toda a terra, para se tornar a semente piedosa que Deus abençoará. Eu creio que enquanto fizermos isso, prosperaremos.”

Seu grande coração e sua paixão evangelística brilharam grandemente. Por qualquer padrão, o legado de novas igrejas que ele deixou foi um legado notável.

Fonte: The Recorder

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

A Missiologia no Livro de Rute – Tiago H. Souza

Rute colhendo espigas no campo de Boaz, o resgatador.INTRODUÇÃO:

       – O livro de Rute tem seu destaque entre os livros do Antigo Testamento. Não é difícil explicar a atração exercida por esse breve livro.  A história contada no livro de Rute tem gerado varias opiniões entre os estudiosos. Alguns a vem como um simples romance, outros asseveram que de fato o evento aconteceu, mas todos concordam que Yahweh  intervém na história e surpreende a todos colocando uma moabita como descendente abraâmica. O autor dedicou  grande esforço para tornar seu livro em uma obra de arte,e é evidente que teve o propósito de que fosse aceito como histórico. É uma historia verdadeira, contada com beleza, seguindo o estilo das narrativas  patriarcais, em que aparecem alguns dos mesmos temas, como a fome, o exílio e a esterilidade, mediante o qual Yahweh se torna conhecido. Como que em uma novela, o livro de Rute apresenta um estilo altamente artístico em sua estrutura. Nessa historia, um enredo desenvolve-se em certo numero de episodio até atingir um desfecho e assim comunicar uma lição que os leitores devem interpretar.

            O livro de Rute nos relata o soberana intervenção de Deus sobre a história e sobre o tempo, demonstrando que suas promessas e bênçãos podem vir ao seu povo da maneira mais improvável. A fidelidade de Deus em Rute é vista quando este Deus faz de uma tragédia em Moabe uma benção para seu povo em Belém, incluindo uma pagã na linhagem direta do Rei Davi.

 

Titulo: 

– O nome “Rute” significa “amizade”, uma característica verdadeira daquela que deu o nome ao livro. É um dos seis livros históricos que levam o nome das principais figuras de ação e vida descritas neles (Josué, Rute,Samuel,Esdras,Neemias e Ester) É um dos dois livros bíblicos que levam o nome de uma mulher: Rute(a gentia que se casou com um rico judeu de linhagem real da promessa) e Ester (a judia que se casou com um rei gentio).

 

Autoria: 

– O livro não fornece nenhum indicio quanto á identidade do autor. A tradição judaica atribui a autoria do livro a Samuel, mas Samuel morreu antes de Davi se tornar Rei (1 Samuel 28:3). O mais provável é que o autor tenha sido um mestre-narrador, comissionado pela família real, para registrar a soberana intervenção de Deus na constituição da árvore genealógica real.

 

Data:

– Estudiosos da linha mais radical defendem uma data mais recente para o livro, argumentando que o uso de tradições deutoronomicas aponta para uma data posterior ao reinado de Josias (640-609 a.C). Outros poucos têm defendido a data do livro como próximo a era monárquica, o que é coerente com o conhecimento dos fatos relatados no livro e a ausência do nome de Salomão na genealogia.

 

 Contexto Histórico:

 O fato ocorrido no livro de Rute tem como pano de fundo o período dos juízes (1.1), um tempo de apostasia, desordem moral e social entre o povo. Em consonância com as maldições da aliança, uma terrível fome assolou a terra fazendo uma família efratita a peregrinarem em busca de pão chegando assim a uma terra chamada Moabe.

 

A Teologia de Rute: 

– A entrada de Rute na nação da aliança com todos os privilégios desta foi pronunciada pela posição dela como viúva estrangeira que, em uma época de necessidade desesperadora, foi salva de sua desesperança por um redentor que  pagou a hipoteca da propriedade da sogra dela, ao mesmo tempo, tomou a jovem como esposa. Não há dúvida de que Rute, apesar de sua etnia, serve como modelo de graça redentora de Deus. Desde o princípio, Deus tinha o propósito de produzir uma semente de Abraão que não só modelaria a natureza e o etos do Reino do Senhor, mas que também atrairia as nações da terra a o buscar e o encontrar, tornando-se, assim servos Dele.

A Missiológia de Rute:

Como em vários outros livros do Antigo Testamento, Rute quer evidenciar o chamado de Deus para outras nações. No caso de Rute, Moabe é representada por Rute que é inclusa em Israel por intermédio da sua lealdade a sua sogra Noemi e sua disposição em se casar com Boaz, cuja hombridade trouxe segurança para Noemi. A mensagem Missional tem como objetivo ligar Davi a aliança abraâmica via a moabita e pagã Rute, que por sua vez, tornar-se-ia bisavó de Davi e ancestral direta de Cristo. O livro é um tiro contra o atnocentrismo hebreu, destacando a soberania de Deus em causar fatos e até mesmo tragédias em prol de salvar seus escolhidos, que no caso de Rute, estava alem dos limites étnicos de Israel.

 

 Contribuições singulares de Rute: 

1-    A Missão das Mulheres:

Dois livros do antigo Testamento têm nome de mulher: Rute, no início da história de Israel em Canaã, e Ester, no término da história de Israel do antigo Testamento. Rute foi umas das mulheres mais preeminentes no período inicial dos juízes. Outras foram Débora, Jael ,  a filha de Jefté e a mãe de Sansão. No livro de Rute, a simpatia de Noemi em difíceis provações traz sua nora para o Deus de Israel. O amor de Rute transcende laços raciais, e as duas virtuosas mulheres cumprem a lei dos judeus. Assim fazendo, contribuem para o nascimento de Davi, o grande rei salmista. O autor achou o relato da vida de duas nobres mulheres merecia um lugar na história de Israel, juntamente com as historias de grandes homens Israelitas.

 

2-    Fé dos gentios no Antigo Testamento (1:6):

A declaração de fé realizada por Rute é um clássico do Antigo Testamento: “O teu povo é meu povo, o teu Deus é o meu Deus”. Embora não seja a primeira conversão de gentios registrada no antigo Testamento, a conversão de Rute é a mais detalhada e famosa. Apresenta também um contraste interessante com a conversão de sua segunda sogra, Raabe. Enquanto a de Raabe é apresentada como uma reação ao medo do julgamento que viria, a de Rute é uma reação ao amor (Josué 2:9-13; Rute 1:16). O Senhor usa tanto o amor como o medo para ativar a fé de gentios no Antigo Testamento.

 

3-    A Providencia em Meio a Tragédia de Uma Família:

Rute é o único livro da Bíblia que focaliza as provações e dificuldades de uma única família, em vez de uma tribo ou nação numa perspectiva maior. O livro trata de uma viúva de Israel, atingida pelo triplo infortúnio de haver perdido o esposo e os dois filhos, depois de a fome te-la forçado, a ela e à família, a sair de Belém. Como o livro de Ester, essa história demonstra como Deus age na infelicidade a fim de cuidar dos seus fiéis em tempos mais difíceis, e como Ele fez com aquelas provações contribuíssem para o nascimento de Davi e, mais tarde, para a vinda do Messias.

 

4-    A Relação dos Moabitas com Davi e o Messias (4:18-22):

Embora os moabitas fossem descendentes de Ló e sua filha (por incesto) e fossem, portanto, primo de Israel, foi-lhes negada entrada na congregação israelita “até a décima geração” em virtude de sua hostilidade para com os judeus quando eles saíram do Egito (Deuteronômio 23:3-6). Por que, então, Rute foi bem recebida por Israel dentro de duas ou três gerações? Evidentemente aquela lei aplicava-se aos homens moabitas e não às mulheres, de modo semelhante ao regulamento registrado em Deuteronômio 21:10-13 acerca da mulher moabita enfatiza que, embora a linhagem de Davi e do Messias fosse formada apenas de hebreus pelo lado paterno, ela inclui muitas mulheres gentias. Tamar e Raabe eram cananéias, Rute moabita e Naamá, mãe de Roboão, amonita. O Messias realmente veio de extensa gama de nacionalidades pela linhagem materna.

 

5-    Rute: Meditação de Israel para o Pentecoste:

Esse livro era lido anualmente pela nação, em público, quando se reuniam para a festa de verão do pentecoste. A colheita lembra-os da colheita anterior de cevada dada por Deus e da recompensa do culto de amor que ainda viria. Do mesmo modo que o Pentecoste comemorava a primeira safra, a leitura de Rute recordava  a colheita das primícias dos gentios.  Lembrando que o Pentecoste do Novo Testamento comemora as primícias da colheita divina na Igreja, sendo gentios muitos desses crentes.

6-    Cristologia em Rute:

Há duas referencias básicas a Cristo no livro de Rute, ambas relativas a Boaz:

a-    Deduz-se que Boaz seja um tipo de Cristo como um parente redentor, qualificado e disposto a redimir o seu povo. É esse um aspecto da obra de Cristo ilustrado aqui. A expressão “resgatar” é usada seis vezes em Rute. Como redentor do crente, Cristo torna-se o seu Redentor para pagar todas as dívidas, seu Defensor para defendê-lo de todos os adversários, seu Mediador para conseguir reconciliação, e seu Noivo para união e comunhão perpétua.

 b-    O nome de Boaz esta registrado em todas as genealogias de Jesus, mas somente em Mateus 1:5 Rute também é mencionada. Nesta genealogia Mateus menciona de propósito o nome de Rute e de três outras mulheres estrangeiras. O ponto cristológico parece ter o objetivo de enfatizar a ampla genealogia internacional do Messias que viria trazer salvação para todas as nações. Ele não veio como um simples “Salvador” local.

 

 

A Relação Missiológica entre Rute e Gálatas 3:8

– Paulo escreve a Carta aos Gálatas para contrapor-se aos falsos mestres judaizantes que estavam abalando a doutrina central do Novo Testamento da justificação pela fé, Ignorando o decreto expresso no concilio de Jerusalém (At.15:23-29). Eles espalhavam o perigoso ensino de que os gentios deveriam primeiro, torna-se prosélitos judeus e submeter-se a todas as leis mosaicas antes de poderem se tornar Cristãos. Chocado com a receptividade dos gálatas a essa heresia demoníaca, Paulo escreveu essa carta a fim de defender a justificação pela fé e advertir essas igrejas a respeito das terríveis conseqüências de abandonar a doutrina essencial do qual já vinha sendo revelada. Em meio a sua argumentação para refutar a heresia da salvação por obras, Paulo trás a perfeita interpretação da Palavra de Deus dada a Abraão em Genesis 12:3, iluminando assim os gálatas e os advertindo que a salvação é somente pela fé, ocasionando a salvação de todos os povos.

– Quando Gálatas 3:8 se refere “… prenunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos da terra”, Paulo tem em mente que: Abraão sendo o primeiro a depositar fé nessa promessa, ele se torna tanto o patriarca daqueles que haveriam de crer, quanto o patriarca genético de Cristo. Ou seja, o que Paulo esta afirmando é que qualquer gentio de qualquer período do tempo pode ser salvo porque tal salvação é obtida mediante a fé em Cristo que foi da linhagem direta de Abraão, o pai da fé.

 – A Palavra abençoados (eveylogeo) é um verbo indicativo (ele indica uma certeza) na voz passiva (sofre ação). Gramaticalmente podemos afirmar então que todos os povos da terra de fato serão o alvo da benção de Deus depositada em Abraão. Por isso o verbo esta no tempo futuro, pois Paulo esta usando a passagem do Antigo Testamento para confirmar que a benção da justificação pela fé seria pregada as nações após Deus ter abençoado a Abraão.

– No caso de Rute podemos observar sua entrada na aliança não tão somente via o casamento com Boaz, mas crendo no Deus de Israel como sendo o seu Deus (Rute 1:16) e tendo total devoção a Ele chamando-O de Senhor. Rute creu em Deus da mesma forma que Abraão creu e a justiça também foi lhe imputada pela fé. A justificação pela fé em Rute esta em harmonia com os decretos divinos estabelecidos em Genesis 12:3 que tem como alvo a salvação não de um povo, mas de todos os povos. A devoção e a demonstração de fé exercida por Noemi fez com que Rute cresse no Deus da sua sogra, crendo aceitou ser também parte do povo Dele.

– Rute é um exemplo da forma que Deus salva os gentios em toda história. A maneira é a mesma: justificação pela fé.

 

 Considerações Finais:

   – Fica evidente no livro de Rute o propósito de Deus em relação aos povos da terra. Deus quer que eles o conheçam que o busque e que se torne seu povo. Rute deixa clara a manifestação de Deus em salvar seus escolhidos que estão fora dos limites étnicos de Israel. Rute, o moabita é um exemplo da disposição e fé que os gentios devem ter em relação ao Deus que é Senhor de todos os povos, o Deus que merece ser louvado por todos os povos (Salmos 67:3).

  – Assim, devemos levar o conhecimento de Deus as nações e povos da terra, do qual são alvos do amor de Deus e da promessa feita a Abraão onde “ …em ti serão abençoadas todas as famílias da terra ”(Genesis 12:3).

– Rute nos faz saber que os gentios são tão preciosos para Deus que Ele mesmo fez questão de colocá-los na linhagem e genealogia direta de Davi (4:18) do qual foi ancestral direto do Messias, o salvador de todos os homens.

 

Tiago H. Souza

 

 

Livros consultados:

MERRILL, Eugene H. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009

 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006.

 ALLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1999. 

EVERY-CLAYTON, Joyce Elizabeth W. Rute. Curitiba e Belo Horizonte: Missão Editora e Encontrão Editora, 1993.

O Cenário Indigena Brasileiro e a Atuação Missionária Evangélica – Ronaldo Lidório

     Nos últimos 500 anos o pensamento coletivo brasileiro não mudou a ponto de gerar uma diferença visível em termos de abordagem e interação com o indígena e sua sociedade. No cenário leigo o índio ainda é visto por alguns como selvagem, por vezes como herói, ignorante ou, ainda, como representante de uma cultura superior e pura. Poucos pararam para escutá-lo nos últimos cinco séculos, e havia muito a ser dito.
        No meio acadêmico fala-se sobre a desmistificação da identidade indígena. Creio que precisamos primeiramente desmistificar a nós mesmos, repensar nossas expectativas em relação a essa sociedade com a qual convivemos por séculos sem compreendê-la, e passar a interpretá-la de forma igualitária na dignidade e respeitosa nas diferenças.
Calcula-se que havia 1,5 milhão2 de indígenas no Brasil do século 16, os quais, irreparavelmente, somam hoje não mais de 350 mil. Infelizmente essa realidade etnofágica vai muito além das estatísticas e das palavras, pois é composta por faces, vidas, histórias e culturas milenares, as quais têm sofrido ao longo dos séculos a devassa dos conquistadores, a forte imposição socioeconômica e perdas sociais tremendas. Permita-me redefinir os termos desta afirmação. Os conquistadores não são os outros. Somos nós.
A sociedade indígena ainda vive hoje sob o perigo de extinção. Não necessariamente extinção populacional, mas igualmente severa, quando se perde língua, história, cultura e direito de ser diferente e pensar diferente convivendo em um território igual.
         Segundo Lévy-Strauss, a perda lingüística é um dos sinais de declínio de identidade étnica e decadência de uma nação. Ao observarmos tal sinal, percebemos quão desolador é o cenário. Michael Kraus afirma que 27% das línguas sul-americanas não são mais aprendidas pelas crianças. 3 Isso significa que um número cada vez maior de crianças indígenas perde seu poder de comunicação a cada dia.
       Aryon Rodrigues estima que, na época da conquista, eram faladas 1.273 línguas,4 ou seja, perdemos 85% de nossa diversidade lingüística em 500 anos. Luciana Storto chama a atenção para o Estado de Rondônia, onde 65% das línguas estão seriamente em perigo por não serem mais aprendidas pelas crianças e por terem um ínfimo número de falantes.
Precisamos perceber que a perda lingüística está associada a perdas culturais complexas, como a transmissão do conhecimento, formas artísticas, tradições orais, perspectivas ontológicas e cosmológicas. No processo de transição, quando a língua materna cai em desuso, normalmente há o que podemos chamar de “geração perdida”: um vácuo cultural atinge uma geração inteira. Ou seja, no processo de perda lingüística e migração para o português, os grupos indígenas passam por um processo de adaptação quando já não têm mais fluência na língua materna nem aprenderam o suficiente o português para uma comunicação mais profunda. Tal processo em média não dura menos que três décadas. Esse é um momento de perigo, em que a identidade indígena é autoquestionada e muitos valores e, sobretudo, seu poder de comunicação e transmissão de conhecimento são perdidos. Perdem-se também os sonhos.
           Na tentativa de repensar a realidade de nossos irmãos indígenas é preciso filtrar a informação sobre a atuação missionária evangélica em relação a eles. A contribuição evangélica, na tentativa de relacionamento com a sociedade indígena nacional, teve início com a influência holandesa no século 16 e permanece hoje representada por um grande número de organizações que tenta reduzir os prejuízos sofridos. Isso se traduz em um sem-número de biografias daqueles que deram a vida, na impossibilidade de darem mais, para minimizar alguns dos efeitos do extermínio social indígena de séculos.
           Dentro de um vasto universo de ações sociopolíticas percebemos que a força evangélica missionária se destacou especialmente em três áreas: preservação lingüística (com a grafia e conseqüente preservação de diversas línguas — e muito ainda está sendo feito); educação (tanto na língua materna, com forte destaque, quanto na educação formal em programas governamentais); e saúde (tanto de base, nas comunidades, quanto também organizacional, em clínicas e hospitais). Permita-me pontuar: o evangelho jamais será motivo de alienação social ou imposição de credo. É, ao contrário, motivação para uma contínua tentativa de se recuperar as perdas humanas nos segmentos mais sofridos.
Ainda há muito a ser feito. É necessário caminhar.

Notas

[1] FONSECA, Ernesto. Breve história da colonização. Lisboa: 1897.

2 Antropólogos da ALAB falam em 5 milhões.

3 KRAUSS, Michael. The world’s languages in crisis.

4 RODRIGUES, Aryon. Línguas indígenas — 500 anos de descobertas e perdas. Última atualização em Ter, 31 de Março de 2009 16:59

Uma breve análise de Mateus 28:19 – por Tiago H. Souza

Analise de Mateus 28:19

Talvez nenhuma outra passagem bíblica isolada da bíblia seja mais amplamente usada para desafiar os cristãos a serem fieis á sua tarefa primaria do que Mateus 28:16-20. Apesar disto, os pregadores quase nunca gastam tempo para fazer exegese da passagem e compará-la com passagens paralelas. Como resultado, a essência e o método da real missão tem se perdido a uma diversidade de pensamentos acerca desse mandamento.

Para o texto de Mateus 28:16:20 os teólogos tem 4 possíveis interpretações:

1-      Forte ênfase no particípio “IDE”.

– Essa interpretação da uma conotação exagerada em cruzar fronteiras, minimizando o “fazer discípulos”.

 

2-       Forte ênfase no imperativo “FAZER DISCÍPULOS”.

– Essa interpretação sugere a idéia do “fazer discípulos” como proposta principal do texto. Alguns chegam a afirmar que o “ide” não é tão importante, podendo ser descartado do mandamento.

 

3-      Subordinação do “IDE” ao FAZER DISCÍPULOS”.

– Essa terceira interpretação sugere que ao “fazer discípulos” o “ide” praticamente esta sendo cumprido, pois o imperativo esta sendo obedecido de qualquer maneira.

 

4–  “Indo” e “Fazendo Discípulos” – A quarta interpretação sugere que o particípio “ide” pode ter um tom imperativo junto ao “fazer discípulos”, dando uma conotação também de ordem ,urgência e propósito para algo.

Gramaticalmente a palavra “ide” ( poreythentes) é um particípio no original e não um imperativo. Provavelmente deva ser traduzida “indo” ou “enquanto ides”. Mas este fato não deve deixar que a força da palavra seja embotada. A mesma construção é achada em atos 16:9 :” Passa e (ou, passando) ajuda-nos. Obviamente, se Paulo não “passar” para lá, não poderá “ajudar”! E se nós não “vamos” não podemos cumprir nossa missão. Por outro lado, a ênfase não somente recai sobre o “ir”, mas, sobre a razão para ir.

O “fazer discípulos” (Matheteysate) é o único imperativo e a atividade central indicada na grande comissão. O verbo “Matheteysate” é empregado para dar luz á razão do “ir” (poreythentes). Não há como desassociar um verbo do outro, pois os dois se completam apesar de o imperativo ser “fazer discípulos” o “ir” não pode ser esquecido ou negligenciado, pois, a vontade de Deus é que o evangelho chegue em “todas as nações”.

Ora, há possibilidade de todas as nações ouvirem o evangelho se todas as igrejas somente discipular seus amigos e familiares? Não. Não há possibilidade de a grande comissão ser cumprida dessa forma porque muitas culturas e povos ainda estariam isolados pelo preconceito racial e cultural do homem. Então, a ênfase também recai sobre o ir, porque é ele que conduz o imperativo “fazer discípulos” no propósito de alcançar todas as nações.

Por essa razão defendo a quarta posição “INDO” E “FAZENDO DISCIPULOS” que defende o particípio “ir” com um tom imperativo, pois prepara o verbo principal “fazer discípulos” em sua melhor definição.

Nas palavras de Cleon Rogers:

                                  “   O particípio não deve ser enfraquecido como uma opção secundária que não é tão importante. O aspecto de aoristo torna o mandamento definido e urgente. Não é “caso você esteja indo” ou “onde quer que você esteja”, mas sim “vá e faça algo”. Isto não deve ser tomado exclusivamente no sentido de ir a um país estrangeiro. A ênfase é na natureza universal da tarefa – uma atividade global que envolve tanto o país natal quanto os países estrangeiros.”

            A tarefa missionária segundo a quarta posição é “fazer discípulos de todas as nações”. É a posição mais coerente com a lógica e com a teologia bíblica de missões encontradas também no Antigo testamento como em Genesis 12:3.

É interessante notar também algo muito significativo em relação a Mateus, o autor do evangelho. Mateus freqüentemente coloca um particípio aoristo antes do aoristo do verbo principal. Logo após ele postula que o particípio adquiriu também uma força imperativa, como vários verbos no Antigo Testamento. Isso acorre para dar certa urgência ao verbo principal, que no caso da passagem é o “fazer discípulos”. Ou seja, a interpretação“INDO E FAZENDO DISCÍPULOS” sugere que a igreja cruze fronteiras para cumprir a grande ordem de fazer discípulos em prol que todas as nações venham conhecer a Deus.

Temo que por conta de um “pequeno grande erro” a igreja se desvie daquilo para do qual ela foi chamada. Se isso acontencer as conseqüências serão serias para aqueles que já conhecem o evangelho e para aqueles que não o conhecem.

Não foi fácil para o Kalley, para o Simonton e nem para Gunnar Vingren e Daniel Berg cumprir a grande comissão sobre o olhar da quarta posição “indo e fazendo discípulos”. A diferença entre eles e nós é uma distancia de percepção quanto a urgência do texto. Por conta da obediência correta do mandamento do texto na vida desses missionários, é que hoje escrevo esse artigo.

 

Esse texto é basiado no artigo de Carl J. Bosma para a Fides Reformata XIV n°1 (2009)

 

 

postado por Tiago H. Souza