Distorcendo Mateus 18 – D.A Carson

Anos atrás, escrevi uma crítica bastante moderada ao movimento da igreja emergente como então existia, antes de se transformar em suas atuais configurações diversas. Esse pequeno livro me rendeu alguns dos mais furiosos e amargurados e-mails que eu já recebi – sem falar, claro, das postagens nos blogs. Houve outras respostas, claro – algumas de aprovação e gratidão, outros reflexivos, querendo dialogar. Mas os que mostraram a maior intensidade foram aqueles cuja indignação era tamanha por eu não ter primeiro abordado em particular aqueles cujas opiniões eu critiquei no livro. Que hipócrita eu era – criticando meus irmãos com fundamentos bíblicos ostensivos quando eu não estava seguindo o mandamento bíblico de observar um determinado procedimento muito bem definido em Mateus 18.15-17.D.A Carson - Exegeta do Novo Testamento

Sem dúvida esse tipo de acusação está se tornando mais comum. Está normalmente ligado ao “Peguei você!”, mentalidade que muitos blogueiros e seus leitores parecem alimentar. Pessoa A escreve um livro criticando algum elemento ou outro do confessionalismo histórico Cristão. Alguns blogueiros respondem com mais calor do que luz. Pessoa B escreve um blog com algum conteúdo, em resposta à pessoa A. A blogosfera se acende com ataques à pessoa B, muitos deles perguntando à pessoa B de forma bastante acusadora: “Você conversou com a pessoa A, em particular, primeiro? Se não, você não é culpado por violar o que Jesus nos ensinou em Mateus 18?” Esse padrão de contra ataque, com algumas variações, está prosperando.

A esse respeito, pelo menos três coisas devem ser ditas:

(1) O pecado descrito no contexto de Mateus 18.15-17 ocorre em pequena escala daquilo que transparece uma igreja local (sem duvida é o que se presume nas palavras “comunique à igreja”). Não está falando de uma publicação de ampla divulgação designada a afastar um grande número de pessoas de muitas partes do mundo do confessionalismo histórico. Esse último tipo de pecado é bem público e já está trazendo danos; precisa ser confrontado e seus danos desfeitos de maneira igualmente pública. Isso é bem diferente, digamos, de quando um crente descobre que um irmão esteve quebrando seus votos matrimoniais por dormir com uma pessoa que não é sua esposa, e vai a ele em privado, depois junto de outra pessoa, na esperança de provocar genuíno arrependimento e contrição, e só então trazer o caso à igreja.

Colocando de outra forma, a impressão que deriva da leitura de Mateus 18 é que o pecado em questão não é, em primeiro lugar, publicamente notado (diferente da publicação de um tolo, mas influente, livro). É relativamente privado, observado por um ou dois crentes, mas sério o suficiente para chamar a atenção da igreja se o ofensor se recusar a parar. Por outro lado, quando os escritores do Novo Testamento têm ter que lidar com falso ensinamento, outra ideia chama atenção: o ancião piedoso “apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela”. (Tito 1.9)

Sem dúvida, pode-se imaginar algumas situações contemporâneas que inicialmente podem fazer alguém coçar a cabeça e pensar qual seria o rumo mais sensato – ou, para enquadrar o problema no contexto das passagens bíblicas citadas acima, se deve ser respondida à luz de Mateus 18 ou de Tito 1. Por exemplo, um pastor da igreja local pode ouvir que um professor em seu seminário denominacional ou faculdade teológica está ensinando algo que ele julga estar fora da confissão dessa denominação e possivelmente claras heresias. Deixe-nos tornar a situação mais desafiadora postulando que o pastor tem um punhado de jovens em sua igreja que freqüentam esse seminário e estão sendo influenciados por esse professor em questão.  O pastor está de acordo com Mateus 18 ao falar com o professor antes de contestá-lo em público?

Essa situação é complicada no que o suposto falso ensinamento é publico em um sentido e privado em outro. É público no sentido de que não é meramente opinião privada, por estar certamente sendo promulgada; é privado no sentido de que o material não é publicado na arena pública, mas está sendo disseminado em uma sala de aula fechada. Parece-me que o pastor seria sensato em ir ao professor primeiro, mas não em obediência a Mateus 18, pois realmente não há relação, mas para determinar exatamente quais são realmente as visões do professor. Ele pode chegar à conclusão, afinal, que o professor é um judaizante; outra alternativa é que o professor foi mal interpretado (e qualquer professor com integridade vai querer tomar as dores de não ser mal interpretado no futuro da mesma maneira); ou ainda, que o professor é dissimulado. Ele pode sentir que tem que ir ao superior direto do professor ou alguém de maior autoridade. Meu argumento, no entanto, é que esse percurso de ação não está realmente traçando as instruções de Mateus 18. O pastor está indo ao professor, em primeira instância, não para reprová-lo, mas descobrir se há realmente um problema quando o ensino cai nessa categoria ambígua de não tão privado e não tão público.

(2) Em Mateus 18, o pecado em questão é, pela autoridade da igreja, passível de exclusão – em pelo menos dois sentidos.

Primeiro, a ofensa pode ser tão séria que a única decisão responsável que a igreja pode tomar é excluir o ofensor da igreja e vê-lo como uma pessoa não convertida (18.17). Em outras palavras, a ofensa é motivo de exclusão por causa de sua gravidade. No Novo Testamento como um todo, há três categorias de pecados que alcançam esse nível de gravidade: grande erro doutrinário (1 Tim 1.20), grande falha moral (1 Co 5) e discórdia divisiva e persistente  (Tito 3.10). Esses constituem o lado negativo dos três “testes” positivos de 1 João: o teste da verdade, o teste da obediência e o teste do amor. Em todo caso, embora não saibamos qual seja, a ofensa em Mateus 18 é passível de exclusão por causa de sua gravidade.

Em segundo lugar, a situação é tal que o ofensor pode efetivamente ser excluído da assembléia. Em outras palavras, a ofensa é passível de exclusão porque, organizacionalmente, é possível excluir o ofensor. Veja bem, suponha que alguém, digamos, na Filadélfia, estivesse afirmando ser um cristão devoto enquanto escrevia um livro que era, em certos aspectos, profundamente anticristão. Imagine que uma igreja em, digamos, Toronto, Canadá, decidiu que o livro é herege. Tal igreja pode, suponho eu, declarar o livro como equivocado ou herético, mas eles certamente não poderiam excluir o escritor. Sem dúvida, eles poderiam declarar o ofensor persona non grata em sua própria assembléia, mas isso seria um gesto fútil e provavelmente sem proveito. Afinal, o ofensor pode ser perfeitamente aceitável em sua própria assembléia. Em outras palavras, esse tipo de ofensa pode levar à exclusão no primeiro sentido – por exemplo, o falso ensinamento pode ser julgado tão grave que o ofensor merece ser excluído – mas não é passivel de exclusão no segundo sentido, por ser a  realidade organizacional de tal forma que exclusão não é praticável. Um ponto a observar é que, seja qual for, a ofensa em Mateus 18 é passível de exclusão em ambos sentidos: o pecado tem que ser grave o suficiente para justificar a exclusão, e a situação organizacional deve ser de tal forma que a igreja local pode ter uma ação decisiva que realmente exprima alguma coisa. Onde o primeiro e o segundo sentidos não se aplicam, não se aplica Mateus 18.

Pode-se, claro, argumentar que é sabedoria prudente escrever aos autores antes que você os critique em sua própria publicação. Posso pensar em situações em que pode ser uma boa ideia ou não. Mas tais tipos de raciocínio não fazem parte do argumento de Mateus 18.

(3) Há um aroma de justiça encenada, de indignação desproporcional, por trás dos atuais jogos de “peguei você!”. Se a pessoa B acusa a pessoa A de ter escrito um livro a favor de um entendimento revisionista da Bíblia, com erro grave e possivelmente com heresia, não é sábio fazer “tsc tsc” para a mente tacanha da pessoa B e sorrir com condescendência e desdém por tal julgamento. Isso pode funcionar bem entre aqueles que acham que a maior virtude no mundo é a tolerância, mas com certeza não pode ser o caminho mais honroso para o cristão. Heresia genuína é uma coisa execrável, uma coisa horrível. Desonra Deus e leva as pessoas a se perderem. Deturpa o evangelho e seduz as pessoas a acreditarem em coisas falsas e agir de maneiras repreensíveis. Claro, a Pessoa B pode estar totalmente enganada. Talvez a acusação que a Pessoa B está fazendo seja inteiramente equivocada, ou mesmo perversa. Nesse caso, deve-se revelar o fato, não esconder atrás de uma questão processual. O ataque da Pessoa B na séria argumentação bíblica deve ser analisado, não dispensado em um procedimento ilusório e um apelo errôneo a Mateus 18.

 

 

fonte: iprodigo

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A Missiologia no Livro de Rute – Tiago H. Souza

Rute colhendo espigas no campo de Boaz, o resgatador.INTRODUÇÃO:

       – O livro de Rute tem seu destaque entre os livros do Antigo Testamento. Não é difícil explicar a atração exercida por esse breve livro.  A história contada no livro de Rute tem gerado varias opiniões entre os estudiosos. Alguns a vem como um simples romance, outros asseveram que de fato o evento aconteceu, mas todos concordam que Yahweh  intervém na história e surpreende a todos colocando uma moabita como descendente abraâmica. O autor dedicou  grande esforço para tornar seu livro em uma obra de arte,e é evidente que teve o propósito de que fosse aceito como histórico. É uma historia verdadeira, contada com beleza, seguindo o estilo das narrativas  patriarcais, em que aparecem alguns dos mesmos temas, como a fome, o exílio e a esterilidade, mediante o qual Yahweh se torna conhecido. Como que em uma novela, o livro de Rute apresenta um estilo altamente artístico em sua estrutura. Nessa historia, um enredo desenvolve-se em certo numero de episodio até atingir um desfecho e assim comunicar uma lição que os leitores devem interpretar.

            O livro de Rute nos relata o soberana intervenção de Deus sobre a história e sobre o tempo, demonstrando que suas promessas e bênçãos podem vir ao seu povo da maneira mais improvável. A fidelidade de Deus em Rute é vista quando este Deus faz de uma tragédia em Moabe uma benção para seu povo em Belém, incluindo uma pagã na linhagem direta do Rei Davi.

 

Titulo: 

– O nome “Rute” significa “amizade”, uma característica verdadeira daquela que deu o nome ao livro. É um dos seis livros históricos que levam o nome das principais figuras de ação e vida descritas neles (Josué, Rute,Samuel,Esdras,Neemias e Ester) É um dos dois livros bíblicos que levam o nome de uma mulher: Rute(a gentia que se casou com um rico judeu de linhagem real da promessa) e Ester (a judia que se casou com um rei gentio).

 

Autoria: 

– O livro não fornece nenhum indicio quanto á identidade do autor. A tradição judaica atribui a autoria do livro a Samuel, mas Samuel morreu antes de Davi se tornar Rei (1 Samuel 28:3). O mais provável é que o autor tenha sido um mestre-narrador, comissionado pela família real, para registrar a soberana intervenção de Deus na constituição da árvore genealógica real.

 

Data:

– Estudiosos da linha mais radical defendem uma data mais recente para o livro, argumentando que o uso de tradições deutoronomicas aponta para uma data posterior ao reinado de Josias (640-609 a.C). Outros poucos têm defendido a data do livro como próximo a era monárquica, o que é coerente com o conhecimento dos fatos relatados no livro e a ausência do nome de Salomão na genealogia.

 

 Contexto Histórico:

 O fato ocorrido no livro de Rute tem como pano de fundo o período dos juízes (1.1), um tempo de apostasia, desordem moral e social entre o povo. Em consonância com as maldições da aliança, uma terrível fome assolou a terra fazendo uma família efratita a peregrinarem em busca de pão chegando assim a uma terra chamada Moabe.

 

A Teologia de Rute: 

– A entrada de Rute na nação da aliança com todos os privilégios desta foi pronunciada pela posição dela como viúva estrangeira que, em uma época de necessidade desesperadora, foi salva de sua desesperança por um redentor que  pagou a hipoteca da propriedade da sogra dela, ao mesmo tempo, tomou a jovem como esposa. Não há dúvida de que Rute, apesar de sua etnia, serve como modelo de graça redentora de Deus. Desde o princípio, Deus tinha o propósito de produzir uma semente de Abraão que não só modelaria a natureza e o etos do Reino do Senhor, mas que também atrairia as nações da terra a o buscar e o encontrar, tornando-se, assim servos Dele.

A Missiológia de Rute:

Como em vários outros livros do Antigo Testamento, Rute quer evidenciar o chamado de Deus para outras nações. No caso de Rute, Moabe é representada por Rute que é inclusa em Israel por intermédio da sua lealdade a sua sogra Noemi e sua disposição em se casar com Boaz, cuja hombridade trouxe segurança para Noemi. A mensagem Missional tem como objetivo ligar Davi a aliança abraâmica via a moabita e pagã Rute, que por sua vez, tornar-se-ia bisavó de Davi e ancestral direta de Cristo. O livro é um tiro contra o atnocentrismo hebreu, destacando a soberania de Deus em causar fatos e até mesmo tragédias em prol de salvar seus escolhidos, que no caso de Rute, estava alem dos limites étnicos de Israel.

 

 Contribuições singulares de Rute: 

1-    A Missão das Mulheres:

Dois livros do antigo Testamento têm nome de mulher: Rute, no início da história de Israel em Canaã, e Ester, no término da história de Israel do antigo Testamento. Rute foi umas das mulheres mais preeminentes no período inicial dos juízes. Outras foram Débora, Jael ,  a filha de Jefté e a mãe de Sansão. No livro de Rute, a simpatia de Noemi em difíceis provações traz sua nora para o Deus de Israel. O amor de Rute transcende laços raciais, e as duas virtuosas mulheres cumprem a lei dos judeus. Assim fazendo, contribuem para o nascimento de Davi, o grande rei salmista. O autor achou o relato da vida de duas nobres mulheres merecia um lugar na história de Israel, juntamente com as historias de grandes homens Israelitas.

 

2-    Fé dos gentios no Antigo Testamento (1:6):

A declaração de fé realizada por Rute é um clássico do Antigo Testamento: “O teu povo é meu povo, o teu Deus é o meu Deus”. Embora não seja a primeira conversão de gentios registrada no antigo Testamento, a conversão de Rute é a mais detalhada e famosa. Apresenta também um contraste interessante com a conversão de sua segunda sogra, Raabe. Enquanto a de Raabe é apresentada como uma reação ao medo do julgamento que viria, a de Rute é uma reação ao amor (Josué 2:9-13; Rute 1:16). O Senhor usa tanto o amor como o medo para ativar a fé de gentios no Antigo Testamento.

 

3-    A Providencia em Meio a Tragédia de Uma Família:

Rute é o único livro da Bíblia que focaliza as provações e dificuldades de uma única família, em vez de uma tribo ou nação numa perspectiva maior. O livro trata de uma viúva de Israel, atingida pelo triplo infortúnio de haver perdido o esposo e os dois filhos, depois de a fome te-la forçado, a ela e à família, a sair de Belém. Como o livro de Ester, essa história demonstra como Deus age na infelicidade a fim de cuidar dos seus fiéis em tempos mais difíceis, e como Ele fez com aquelas provações contribuíssem para o nascimento de Davi e, mais tarde, para a vinda do Messias.

 

4-    A Relação dos Moabitas com Davi e o Messias (4:18-22):

Embora os moabitas fossem descendentes de Ló e sua filha (por incesto) e fossem, portanto, primo de Israel, foi-lhes negada entrada na congregação israelita “até a décima geração” em virtude de sua hostilidade para com os judeus quando eles saíram do Egito (Deuteronômio 23:3-6). Por que, então, Rute foi bem recebida por Israel dentro de duas ou três gerações? Evidentemente aquela lei aplicava-se aos homens moabitas e não às mulheres, de modo semelhante ao regulamento registrado em Deuteronômio 21:10-13 acerca da mulher moabita enfatiza que, embora a linhagem de Davi e do Messias fosse formada apenas de hebreus pelo lado paterno, ela inclui muitas mulheres gentias. Tamar e Raabe eram cananéias, Rute moabita e Naamá, mãe de Roboão, amonita. O Messias realmente veio de extensa gama de nacionalidades pela linhagem materna.

 

5-    Rute: Meditação de Israel para o Pentecoste:

Esse livro era lido anualmente pela nação, em público, quando se reuniam para a festa de verão do pentecoste. A colheita lembra-os da colheita anterior de cevada dada por Deus e da recompensa do culto de amor que ainda viria. Do mesmo modo que o Pentecoste comemorava a primeira safra, a leitura de Rute recordava  a colheita das primícias dos gentios.  Lembrando que o Pentecoste do Novo Testamento comemora as primícias da colheita divina na Igreja, sendo gentios muitos desses crentes.

6-    Cristologia em Rute:

Há duas referencias básicas a Cristo no livro de Rute, ambas relativas a Boaz:

a-    Deduz-se que Boaz seja um tipo de Cristo como um parente redentor, qualificado e disposto a redimir o seu povo. É esse um aspecto da obra de Cristo ilustrado aqui. A expressão “resgatar” é usada seis vezes em Rute. Como redentor do crente, Cristo torna-se o seu Redentor para pagar todas as dívidas, seu Defensor para defendê-lo de todos os adversários, seu Mediador para conseguir reconciliação, e seu Noivo para união e comunhão perpétua.

 b-    O nome de Boaz esta registrado em todas as genealogias de Jesus, mas somente em Mateus 1:5 Rute também é mencionada. Nesta genealogia Mateus menciona de propósito o nome de Rute e de três outras mulheres estrangeiras. O ponto cristológico parece ter o objetivo de enfatizar a ampla genealogia internacional do Messias que viria trazer salvação para todas as nações. Ele não veio como um simples “Salvador” local.

 

 

A Relação Missiológica entre Rute e Gálatas 3:8

– Paulo escreve a Carta aos Gálatas para contrapor-se aos falsos mestres judaizantes que estavam abalando a doutrina central do Novo Testamento da justificação pela fé, Ignorando o decreto expresso no concilio de Jerusalém (At.15:23-29). Eles espalhavam o perigoso ensino de que os gentios deveriam primeiro, torna-se prosélitos judeus e submeter-se a todas as leis mosaicas antes de poderem se tornar Cristãos. Chocado com a receptividade dos gálatas a essa heresia demoníaca, Paulo escreveu essa carta a fim de defender a justificação pela fé e advertir essas igrejas a respeito das terríveis conseqüências de abandonar a doutrina essencial do qual já vinha sendo revelada. Em meio a sua argumentação para refutar a heresia da salvação por obras, Paulo trás a perfeita interpretação da Palavra de Deus dada a Abraão em Genesis 12:3, iluminando assim os gálatas e os advertindo que a salvação é somente pela fé, ocasionando a salvação de todos os povos.

– Quando Gálatas 3:8 se refere “… prenunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos da terra”, Paulo tem em mente que: Abraão sendo o primeiro a depositar fé nessa promessa, ele se torna tanto o patriarca daqueles que haveriam de crer, quanto o patriarca genético de Cristo. Ou seja, o que Paulo esta afirmando é que qualquer gentio de qualquer período do tempo pode ser salvo porque tal salvação é obtida mediante a fé em Cristo que foi da linhagem direta de Abraão, o pai da fé.

 – A Palavra abençoados (eveylogeo) é um verbo indicativo (ele indica uma certeza) na voz passiva (sofre ação). Gramaticalmente podemos afirmar então que todos os povos da terra de fato serão o alvo da benção de Deus depositada em Abraão. Por isso o verbo esta no tempo futuro, pois Paulo esta usando a passagem do Antigo Testamento para confirmar que a benção da justificação pela fé seria pregada as nações após Deus ter abençoado a Abraão.

– No caso de Rute podemos observar sua entrada na aliança não tão somente via o casamento com Boaz, mas crendo no Deus de Israel como sendo o seu Deus (Rute 1:16) e tendo total devoção a Ele chamando-O de Senhor. Rute creu em Deus da mesma forma que Abraão creu e a justiça também foi lhe imputada pela fé. A justificação pela fé em Rute esta em harmonia com os decretos divinos estabelecidos em Genesis 12:3 que tem como alvo a salvação não de um povo, mas de todos os povos. A devoção e a demonstração de fé exercida por Noemi fez com que Rute cresse no Deus da sua sogra, crendo aceitou ser também parte do povo Dele.

– Rute é um exemplo da forma que Deus salva os gentios em toda história. A maneira é a mesma: justificação pela fé.

 

 Considerações Finais:

   – Fica evidente no livro de Rute o propósito de Deus em relação aos povos da terra. Deus quer que eles o conheçam que o busque e que se torne seu povo. Rute deixa clara a manifestação de Deus em salvar seus escolhidos que estão fora dos limites étnicos de Israel. Rute, o moabita é um exemplo da disposição e fé que os gentios devem ter em relação ao Deus que é Senhor de todos os povos, o Deus que merece ser louvado por todos os povos (Salmos 67:3).

  – Assim, devemos levar o conhecimento de Deus as nações e povos da terra, do qual são alvos do amor de Deus e da promessa feita a Abraão onde “ …em ti serão abençoadas todas as famílias da terra ”(Genesis 12:3).

– Rute nos faz saber que os gentios são tão preciosos para Deus que Ele mesmo fez questão de colocá-los na linhagem e genealogia direta de Davi (4:18) do qual foi ancestral direto do Messias, o salvador de todos os homens.

 

Tiago H. Souza

 

 

Livros consultados:

MERRILL, Eugene H. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009

 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006.

 ALLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1999. 

EVERY-CLAYTON, Joyce Elizabeth W. Rute. Curitiba e Belo Horizonte: Missão Editora e Encontrão Editora, 1993.

Predestinação, Uma ação de Deus que nos leva a Glorificar o Seu Nome – Tiago H. Souza

Predestinação, Uma ação de Deus que nos leva a Glorificar o Seu Nome.

  Uma breve análise de Romanos 9 – 11.

 

Definições:

 Predestinação: Predestinar é determinar previamente o destino. A palavra proorizõ significa “marcar com antecedência”. Biblicamente esta limitada ao povo eleito e assegura sua posição presente e futura.

Eleição: A eleição enfatiza a livre escolha de indivíduos para a salvação. Quando Paulo usa o verbo no original, ele o faz o na voz média, indicando que a escolha de Deus feita livremente é para seus próprios propósitos.

Introdução

Ao observar o livro de Romanos rapidamente nos apaixonamos por ele. Suas colocações sobre o pecado, o homem e a intervenção divina são colocadas de uma forma tão maravilhosa que temos a impressão de que estamos sentados em uma sala de aula enquanto Paulo nos da aquela saborosa aula de sistemática.

Paulo nos apresenta temas como:

– O Evangelho como justiça (1.1-17)

– Ira sobre todo o que peca (1.18-3.20)

– A justiça salvífica de Deus para todo o que crê (3.21-4.25)

– A vida dos justificados mediante a fé (5.1-8.39)

– Deus decide quem integra seu povo (9.1-11.36)

– As implicações do evangelho para a igreja de Roma (12.1-15.13).

É no livro de Romanos que esta, provavelmente, o mais forte texto sobre predestinação e soberania de Deus de toda a bíblia. O texto se encontra entre os versos 9.1 ao 11.36 e tem feito muitos teólogos a gastarem horas e horas no estudo dessa passagem que, admito, não é fácil sua interpretação.

Predestinação tem causado rixas, rachas e discussões há séculos. Talvez nenhum outro tema dentro da linha protestante é tão discutido quanto a predestinação. Dentro de seminários e conferencias que participei esse é o assunto mais assíduo e comentado dentre os estudantes e professores. Mas, embora o assunto seja controverso, podemos descartá-lo e considerá-lo não bíblico? Será que podemos arrancar a expressão da nossa bíblia ou trocá-la por outra menos conflitante? Com toda certeza não. Pois foi através da predestinação que Deus conduziu o seu povo para adoração.

 

 

A exposição de Paulo sobre a soberania de Deus em Rejeitar Israel (9:1-5)

 

O que estava acontecendo com Israel?

 

– Paulo derrama sua alma nesses primeiros versículos, ele sabe do peso em tratar esse assunto com os romanos acerca de seu próprio povo (judeus).

– Ele absorveu o espírito de auto-sacrificio de seu Senhor, mas sabia que nada poderia lhe separar do amor de Cristo. Por isso ele usa uma expressão hipotética de que ele preferia ser considerado “anátema” , algo impossível para aqueles que de fato estão em Cristo.

– Ele lista 9 itens exclusivos de Israel para lembrar o tanto que Deus se manifestou entre eles:

1- são israelita

2– sua é a adoção

3– a glória

4– as alianças

5– a legislação

6– o culto

7– as promessas

8 – seus são os pais (Abraão, Isaque e Jacó)

9– procede deles a natureza humana de Cristo.

– O que Paulo fala nesses versículos é: “entristece-me profundamente saber, que Deus ricamente os abençoou com inúmeras vantagens, e ainda vocês, oh Israel, tem fracassado em corresponder a Ele.”

– Como essa reação negativa pode ser explicada? O que será do povo de Deus? Deus rejeitou totalmente a Israel?

  

 

  O Israel dentro do Israel 9:6-13

– Paulo agora começa a tratar mais afundo sobre a soberana escolha de Deus dentro da nação. É de suma importância para Paulo destacar a soberania de Deus e a infidelidade do povo como causa de sua rejeição.

– Ele começa sua argumentação no vers.6 dizendo que “nem todos de Israel são, de fato, Israelitas.” Aqui Paulo vai ao âmago do assunto. Ele não faz rodeios para amenizar a mensagem. Ele abriu o assunto destacando a identidade e linhagem espiritual de Abraão.

– Os Filhos da carne de Abraão (sua linhagem sanguínea) obviamente têm Abraão como ancestral, mas não como pai, pois Abraão só pode ser pai daqueles que são seus filhos na promessa e o texto diz que nem todoso são.

– Começando com o primeiro filho da promessa, Isaque, Paulo traça o primeiro herdeiro da promessa da salvação e, obviamente ao fazer isso, denota a rejeição de Ismael.

– Da mesma forma, Paulo acentua a escolha de Deus a Jacó e a rejeição a Esaú expondo que a eleição é dada para aqueles que foram predestinados para a promessa excluindo assim toda possibilidade dessa escolha divina estar focada nas obras, pois o texto enfatiza que os meninos não eram nascidos e nem tinham ainda praticado o mal.

– A idéia aqui é expor a soberana escolha de Deus na eleição antes mesmo da vida humana cometer algum delito. Isso nos leva a uma conclusão lógica que não podemos ser eleitos pela obediência ou reprovados por nossa impiedade já que, por exemplo, postura ímpia em Jacó não faltou, mas somos eleitos para a obediência.

Segue uma ilustração da idéia de Paulo:Ilustração da ideia de Paulo

A liberdade de Deus em Sua escolha (9:14-23)

 

– Conta-se que ao ser indagado pela doutrina da eleição, Martinho Lutero simplesmente respondeu: Deixe Deus ser Deus! É exatamente isso que os versículos 14 ao 23 está falando. A livre escolha de Deus não O rebaixa, ou O faz injusto. A livre escolha de Deus na eleição de indivíduos revela a sua natureza: Ele é Deus. Ele faz o que quer, quando quer e com quem deseja. Ele é a única pessoa livre para isso.  A.W. Tozer falando sobre a Soberania de Deus diz: “ a soberania de Deus exige que Ele seja totalmente livre para fazer aquilo que lhe apraz em qualquer lugar ou qualquer tempo e desempenhar o Seu propósito eterno em cada detalhe, sem a mínima interferência. Se fosse menos que livre seria menos que soberano.”

–  Deus revela seu poder na eleição dizendo:  “Terei misericórdia de quem Eu quiser ter misericórdia”. Essa afirmação destaca a autoridade de sua vontade. Essa autoridade humilha os homens, fere seu orgulho e o faz reconhecer que a salvação provem unicamente da parte de Deus mediante a sua soberana vontade.

– Deus não é injusto, pois ele não fere os direitos do homem. Uma vez que todos os homens estavam condenados  e mereciam ao inferno (Romanos 3:23) , inclusive os eleitos, não há injustiça de Deus em eleger alguns para a salvação. A eleição esta no âmbito da glorificação de Deus. O individuo eleito é somente um sujeito beneficiado de uma ação que vem de Deus para o próprio Deus. Somos eleitos para adorar aquele que nos elegeu.

– Ele não só elege quem o quer, mas também endurece o coração daqueles do qual não foram eleitos, para que de toda maneira não venham a conhecê-lo. Essa ação de Deus mostra ainda mais a incapacidade do homem (não eleito) de chegar a salvação por méritos próprios quando este se encontra fora da vontade  para a eleição e agora ainda mais com o coração endurecido pelo próprio Deus.

– Paulo também ressalta o pequinês do homem quando este questiona a Deus por suas escolhas. E para mostrar o quão débil o homem é em discutir a eleição com Deus, Paulo apela na comparação do homem (criatura) com o próprio Deus (criador).

– Os vers. 22 e 23 nos expõe a ira de Deus na condenação dos não eleitos em contraste com sua misericórdia na eleição. Ao fazer isso, Paulo chega a conclusão que a graça pode ser manifestada, visível e anunciada quando Deus a derrama em homens que outrora estava condenado a perdição. Ao agraciar o homem com a eleição Deus é glorificado, pois parte Dele o desejo de salvar os homens. Glórias a Deus por isso!

 

 

Deus chama um novo povo! (9:24-29)

 

– Ainda que gramaticalmente os vers. 24 esteja ligado ao 22 e 23, Paulo retorna ao tema da seção: O chamado soberano de Deus!

– Paulo usa as profecias de Oseías e Isaías para defender seus argumentos dos versículos anteriores e preparar os leitores para sua próxima explanação.

– A salvação dos gentios no vers.24 esta ligado com a demonstração de Deus em dar a conhecer a homens a riqueza de sua glória, a salvação.

– Ao demonstrar essa salvação a gentios, Deus mostra que Ele tem um “povo fora do povo”, ou seja, Ele tem seus eleitos fora da nação de Israel.

– Ao revelar sua salvação fora dos limites étnicos de Israel, Deus demonstra com as palavras proféticas de Isaias que somente o remanescente da nação de Israel é que será salvo.

 

 

Justificação pela fé, uma centralidade para a Glória de Deus (9:30-10:21)

 

– Paulo agora apresenta argumentos sobre o estado corrompido de Israel que é a causa (dentro do chamado soberano de Deus) para a inclusão de gentios na linhagem espiritual de Abraão.

– A causa da inclusão de gentios é somente uma: A justificação pela fé!

– A justificação pela fé também é a causa da rejeição de Israel, pois os judeus se tornaram culpados ao tentar acertar seus relacionamentos e situação com Deus com base nas obras, fundamentando a sua esperança de salvação unicamente na lei, do qual eles não conseguiam cumprir.

– Logo, os filhos da promessa são feitos mediante a justificação pela fé, abrindo assim a possibilidade dos gentios se tornarem filhos de Abraão.

 

O Paradoxo da Salvação (9:6-29 – 10:9-13)

– A incredulidade da maioria dos contemporâneos judeus de Paulo se deve tanto a aleição soberana de Deus (9:6-29) quanto a sua recusa em crerem Cristo. Aeleição divina incondicional e a responsabilidade humana se encontram lado a lado, e não se deve de maneira nenhuma, admitir que uma elimine a outra. J.I Parker em seu livro “A evangelização e a Soberania de Deus” aponta esse paradoxo como um “antinômio”, duas verdades que aparentemente são contraditórias, mas que em um plano eterno se encaixam perfeitamente. Uma ilustração usada para isso é as duas linhas do trilho do trem que andam separados uma da outra mas no horizonte distante  aparentam se encontrar e uma linha só.

 

Israel é indesculpável diante de Deus (10:16-21)

 – Paulo nessa seção usa as palavras de Moisés e Isaias para lembrá-los de um fato: Israel já ouvira sobre as promessas de Deus em incluir os gentios como seu povo. E conclui a seção lembrando que Israel (nação) tem tido revelações de Deus, mas este por sua vez se tornou um povo rebelde e contradizente.

 

O Remanescente de Israel (11:1-10)

 – Paulo ressalta que embora muitos da nação de Israel ficaram com um coração endurecido e rebelde contra Deus, há ainda um remanescente dentro da nação (os filhos da promessa) do qual o próprio Paulo faz parte como um eleito.

– Ao manter firme o remascente fiel (que foram também justificados pela fé) Deus cala a boca da nação os impossibilitando de dizer que Deus os abandonou.

– Paulo faz menção as palavras de Isaias comparando o remanescente com os 7 mil homens que não se corromperam a idolatria(1 Reis 19:18). Essa argumentação afirma ainda mais a soberana escolha de Deus em preservar um remanescente em toda a historia de Israel, colocando em descrédito a idéia de que a nação inteira pudesse ser salva por serem tão somente descendentes de Abraão.

 

O Ramos Enxertados 11:11-24

– Nessa seção Paulo aborda a salvação e permanência dos gentios na eleição. Para Paulo os gentios fazem parte de um plano perfeito de Deus onde Israel se torna culpado por rejeitar a Deus concedendo assim salvação para todos os povos.

– Paulo chama os gentios de ramos enxertados, ou seja, eles foram chamados em segundo estante, mediante a rejeição de Israel para ser colocados também como filhos da promessa feita a Abraão.

– Paulo expõe a glória da salvação dos gentios com base na reconciliação deixada pela rejeição de Israel. De fato, se Israel foi instrumento de Deus para reconciliação do mundo, maior ainda será a salvação dos gentios “trazendo vida dentro os mortos”(11:15).

– Paulo admoesta os gentios trazendo luz a rejeição dos ramos naturais (Israel). Paulo quer com isso exortar os gentios e desafiá-los a ficar firmes em seu chamado, lembrando sempre que Deus não poupou os ramos naturais e nem irá poupá-los caso se rebelem contra Deus. Caso isso acontecesse provaria para o próprio rebelado que ele próprio não foi chamado à eleição.

 

O que será da nação de Israel? (11:25:32)

– Os versículos 25 e 26 do cap.11 é uma das passagens mais difíceis de interpretação de toda a seção. Até aqui, Paulo menciona: a escolha soberana de Deus, a rejeição de Israel, a culpa da nação em se rebelar contra Deus e os ramos enxertados na linhagem da promessa.

Agora Paulo volta sua atenção para os propósitos de Deus em relação a salvação de Israel, salvação essa prometida no vers. 26.

– Vários teólogos tem tido sua visão acerca do texto, vejamos duas dessas interpretações:

1João Calvino no seu “Comentário do Livro de Romanos” entende que o “todo Israel” é a soma dos salvos da antiga aliança (remanescentes) com os ramos enxertados (gentios eleitos) destacando assim todo o povo de Deus.

2John Stott no seu comentário “A Mensagem do Livro de Romanos” defende Israel como a nação étnica somente, entendendo que Deus um dia voltará a salvar a nação por meio de alguns representantes eleitos.

 

Minha consideração acerca da passagem:

– Paulo afirma que se Deus pode escolher de forma soberana, e, surpreendente, um grande numero de gentios para integrar seu povo, ele também pode reverter posteriormente essa situação e voltar a escolher um grande numero de judeus. Portanto o “todo Israel” pode estar ligado com certo numero de representantes de todo o povo. Concordo nesse ponto com John Stott quando diz: “… por todo o livro de Romanos, no entanto, “Israel” significa o Israel étnico ou nacional, em contraposição as nações gentílicas. E é este obviamente o significado no versículo 25. Portanto a palavra dificilmente poderia assumir um significado diferente logo no versículo seguinte.

– É exegeticamente impossível dar a Israel neste versículo qualquer outra conotação senão aquela que vem sendo conferida ao termo no decorrer de todo o capítulo. Seria muito confuso para igreja de Roma interpretar a carta de Paulo, quando este muda o significado das palavras de um versículo par outro. Então concluímos que para Paulo o “todo Israel” esta se referindo a nação de Israel por meio de seus representantes que serão eleitos. Provavelmente um grande número de judeus que se converteram assumindo o papel dos remanescentes do vers. 5.

 

Os Propósitos Soberanos de Deus (11:33-36)

Paulo conclui sua análise do passado, presente e futuro de Israel com um hino de louvor a Deus, cujos caminhos estão além do seu entendimento. Ao encerrar com a glorificação a Deus por seu rico conhecimento e graça, Paulo deixa transparecer que nem ele mesmo entendia todos os propósitos de Deus.

– Paulo exalta a pessoa de Deus como Aquele que controla todas as coisas segundo a sua boa vontade.

– A sabedoria e o conhecimento de Deus referem-se particumente a revelação de seus propósitos em Cristo, autor e consumador da fé de todos que são salvos.

– O propósito revelado na pessoa de Cristo da a Paulo a certeza da perfeita demonstração de amor de Deus em relação aos seus eleitos. Foi a glorificação de Deus por meio da morte de Cristo que concede salvação aos homens, sendo o próprio Paulo um deles.

– Assim Paulo conclui que Deus é a fonte (pois Dele), o sustentador (por Ele) e o objetivo (para Ele) de tudo.

–  Com esse hino de glorificação a Deus, Paulo nos ensina a descansar e confiar em Deus e em seus eternos propósitos. A predestinação e a pré-ordenação de Deus fazem com que nada fuja de seu total controle.

– Assim, caí por terra também a idéia proposta pelo Teísmo Aberto, a crença em um deus auto-limitado e não onisciente que abriu mão de sua soberania para se relacionar com os homens. Os propagadores do Teísmo Aberto (Clark Pinnock, Richard Rice, John Sanders, Willian Hasker, David Basinger e atualmente no Brasil Ricardo Gondin) tenta demonstrar pela primeira vez historia do cristianismo um argumento “racional” fundamentando no sentido que o Deus da bíblia está conosco no tempo e não conhece o futuro em detalhe absoluto. Diante do texto de Romanos 9-11 é visível que o Teísmo Aberto é mais um emaranhado de pensamento humano para adequar os eventos do mundo dentro de uma perspectiva mais confortável e menos conflitante entre o homem e um “deus bonzinho”.

– Para Paulo a seção do cap.9-11 é indubitavelmente os capítulos da soberania de Deus, onde Ele controla tudo e a todos do qual ninguém, nem judeus ou gentios, se quer podem fugir de sua soberana escolha. Para Paulo, Deus é quem manda, Deus é sua própria lei. E é ele quem dita às regras jogo.

– Diante de tal revelação e diante de um Deus Sábio, Poderoso e Soberano na salvação a nossa resposta só pode ser uma “A Ele a Glória para sempre Amem”. (11:36)

 

 

Considerações finais:

– É notável que o Deus da bíblia é diferente do deu da cristandade moderna! O conceito de deidade que predomina hoje em dia, mesmo entre os que professam crer nas escrituras, é uma deplorável caricatura, uma burlesca imitação da verdade. O deus que é pregado nos púlpitos  do século XXI é um ser enfraquecido e incapaz, que não infunde respeito a qualquer pessoa que realmente pensa.

Diferente dessa percepção errônea da deidade, o Calvinismo ( que para mim é o próprio evangelho) trata o ser de Deus como Ele deve ser. A soberania de Deus destacada no Calvinismo é absoluta, infinita e irresistível. Quando o Calvinismo diz que Deus é de fato soberano ele assevera o Seu direito de governar o universo, criado para a sua própria Glória. O Calvinismo afirma que o direito de Deus é semelhante ao direito do oleiro sobre o barro, ou seja, moldá-lo em qualquer forma que deseje, produzindo, da mesma forma, uma vaso para honra e outro para desonra.

A soberania de Deus na perspectiva calvinista caracteriza todo o ser de Deus, não esquecendo nenhum de seus atributos. Ele é soberano em todos os seus atributos e em toda a historia.

 

Tiago H. Souza 03/03/2012

 

Livros Consultados:

Stott, John. A Mensagem do livro de Romanos. São Paulo: ABU, 2009.

Hendriksen,Willian. Comentário do Novo Testamento: Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

Bruce, F.F. Introdução e Comentário do livro de Romanos. São Paulo: Vida Nova.

Magalhões, Francisco Mario Lima. O Sentido de “Todo Israel” em Romanos 11:26 Segundo Calvino. Fides Reformata XI N°2, 2006

Thielman, Frank. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.

Tozer, A. W. Mais Perto de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 1980.

William Hendriksen – Lucas 16-17

“A lei e os profetas foram proclamados até João. Desde esse tempo o evangelho do reino de Deus está sendo pregado, e todos se esforçam vigorosamente por entrar nele.” Lucas 16:16

Willian Hendriksen (1900 - 1082)

Os fariseus pareciam esposar a opinião de que poderiam entrar no reino de Deus esquivando-se da lei de Deus. Os exemplos mais notórios disso se encontram em Mateus 15.1-9; 23.16-26. Mas o que é necessário é que os homens vigorosamente avancem para o reino e isso é exatamente o que desde os dias de João Batista os homens corajosos estiveram fazendo. A entrada no reino demanda renúncia genuína, esforço fervoroso, energia incansável, esforço máximo.

Qual é o significado da afirmação de que isso vem ocorrendo desde os dias de João Batista? Antes desse tempo Deus se revelara na lei e nos profetas, isto é, no que agora chamamos o Antigo Testamento. Essa revelação era ppeparatória. Com João Batista chegou a nova dispensação, a do cumprimento, como é evidente à luz do fato de que João apontou para Cristo que estava realmente presente (Jo 1.29, 36). Portanto, com João chegou uma nova etapa na história do reino de Deus (cf. Mc 1.14; At 1.22; 10.37) e se passou a proclamar o evangelho do reino de Deus nos corações e nas vidas por meio de mensagens e sinais confirmativos. Quem quiser pertencer a essa esfera de luz e amor terá de entrar nesse reino do modo indicado, isto é, entrando vigorosamente nele. Não existe outro modo. E não era também exatamente isso o que Jesus dissera antes, usando palavras diferentes, a saber: “esforcem-se por entrar pela porta estreita” (13.24)? Naturalmente que força para fazer isso vem de Deus, mas isso não elimina o fator da responsabilidade humana (Fp 2.12, 13).

Confrontando o método farisaico de evadir-se da lei, Jesus agora declara: 17. É mais fácil que o céu e a terra desapareçam do que que o menor sinal de uma letra da lei perca seu vigor.

Apesar das tentativas farisaicas de esquivar-se e evadir-se da lei moral (cf. v. 18), ela retém seu vigor. Seria mais fácil que o céu e a terra deixassem de existir do que um pequeno sinal de uma letra da lei perder sua autoridade.

O Antigo Testamento foi escrito originalmente em caracteres hebraicos. A “curvatura” ou keraia é uma projeção muito pequena que distingue um caracter hebraico do outro. Assim a segunda letra do alfabeto hebraico, chamada bet, que corresponde a “b” em nosso idioma, tem uma pequena extensão na quina inferior do lado direito, para distingui-la da letra kaf, que por sua vez corresponde à nossa letra “k”. No presente contexto, o significado então é este, que nem mesmo no aspecto mínimo a lei moral poderá ser invalidade. Aliás, o evangelho ao mostrar quão maravilhosamente Deus tem abençoado os homens por meio da obra de Cristo, faz com que o crente se torne muito mais desejoso de obedecer à lei de Deus, movido por gratidão. Por isso, em vez de debilitar as exigências da lei, o evangelho as corrobora.

Fonte: Monergismo.com

 

 

 

Uma breve análise de Mateus 28:19 – por Tiago H. Souza

Analise de Mateus 28:19

Talvez nenhuma outra passagem bíblica isolada da bíblia seja mais amplamente usada para desafiar os cristãos a serem fieis á sua tarefa primaria do que Mateus 28:16-20. Apesar disto, os pregadores quase nunca gastam tempo para fazer exegese da passagem e compará-la com passagens paralelas. Como resultado, a essência e o método da real missão tem se perdido a uma diversidade de pensamentos acerca desse mandamento.

Para o texto de Mateus 28:16:20 os teólogos tem 4 possíveis interpretações:

1-      Forte ênfase no particípio “IDE”.

– Essa interpretação da uma conotação exagerada em cruzar fronteiras, minimizando o “fazer discípulos”.

 

2-       Forte ênfase no imperativo “FAZER DISCÍPULOS”.

– Essa interpretação sugere a idéia do “fazer discípulos” como proposta principal do texto. Alguns chegam a afirmar que o “ide” não é tão importante, podendo ser descartado do mandamento.

 

3-      Subordinação do “IDE” ao FAZER DISCÍPULOS”.

– Essa terceira interpretação sugere que ao “fazer discípulos” o “ide” praticamente esta sendo cumprido, pois o imperativo esta sendo obedecido de qualquer maneira.

 

4–  “Indo” e “Fazendo Discípulos” – A quarta interpretação sugere que o particípio “ide” pode ter um tom imperativo junto ao “fazer discípulos”, dando uma conotação também de ordem ,urgência e propósito para algo.

Gramaticalmente a palavra “ide” ( poreythentes) é um particípio no original e não um imperativo. Provavelmente deva ser traduzida “indo” ou “enquanto ides”. Mas este fato não deve deixar que a força da palavra seja embotada. A mesma construção é achada em atos 16:9 :” Passa e (ou, passando) ajuda-nos. Obviamente, se Paulo não “passar” para lá, não poderá “ajudar”! E se nós não “vamos” não podemos cumprir nossa missão. Por outro lado, a ênfase não somente recai sobre o “ir”, mas, sobre a razão para ir.

O “fazer discípulos” (Matheteysate) é o único imperativo e a atividade central indicada na grande comissão. O verbo “Matheteysate” é empregado para dar luz á razão do “ir” (poreythentes). Não há como desassociar um verbo do outro, pois os dois se completam apesar de o imperativo ser “fazer discípulos” o “ir” não pode ser esquecido ou negligenciado, pois, a vontade de Deus é que o evangelho chegue em “todas as nações”.

Ora, há possibilidade de todas as nações ouvirem o evangelho se todas as igrejas somente discipular seus amigos e familiares? Não. Não há possibilidade de a grande comissão ser cumprida dessa forma porque muitas culturas e povos ainda estariam isolados pelo preconceito racial e cultural do homem. Então, a ênfase também recai sobre o ir, porque é ele que conduz o imperativo “fazer discípulos” no propósito de alcançar todas as nações.

Por essa razão defendo a quarta posição “INDO” E “FAZENDO DISCIPULOS” que defende o particípio “ir” com um tom imperativo, pois prepara o verbo principal “fazer discípulos” em sua melhor definição.

Nas palavras de Cleon Rogers:

                                  “   O particípio não deve ser enfraquecido como uma opção secundária que não é tão importante. O aspecto de aoristo torna o mandamento definido e urgente. Não é “caso você esteja indo” ou “onde quer que você esteja”, mas sim “vá e faça algo”. Isto não deve ser tomado exclusivamente no sentido de ir a um país estrangeiro. A ênfase é na natureza universal da tarefa – uma atividade global que envolve tanto o país natal quanto os países estrangeiros.”

            A tarefa missionária segundo a quarta posição é “fazer discípulos de todas as nações”. É a posição mais coerente com a lógica e com a teologia bíblica de missões encontradas também no Antigo testamento como em Genesis 12:3.

É interessante notar também algo muito significativo em relação a Mateus, o autor do evangelho. Mateus freqüentemente coloca um particípio aoristo antes do aoristo do verbo principal. Logo após ele postula que o particípio adquiriu também uma força imperativa, como vários verbos no Antigo Testamento. Isso acorre para dar certa urgência ao verbo principal, que no caso da passagem é o “fazer discípulos”. Ou seja, a interpretação“INDO E FAZENDO DISCÍPULOS” sugere que a igreja cruze fronteiras para cumprir a grande ordem de fazer discípulos em prol que todas as nações venham conhecer a Deus.

Temo que por conta de um “pequeno grande erro” a igreja se desvie daquilo para do qual ela foi chamada. Se isso acontencer as conseqüências serão serias para aqueles que já conhecem o evangelho e para aqueles que não o conhecem.

Não foi fácil para o Kalley, para o Simonton e nem para Gunnar Vingren e Daniel Berg cumprir a grande comissão sobre o olhar da quarta posição “indo e fazendo discípulos”. A diferença entre eles e nós é uma distancia de percepção quanto a urgência do texto. Por conta da obediência correta do mandamento do texto na vida desses missionários, é que hoje escrevo esse artigo.

 

Esse texto é basiado no artigo de Carl J. Bosma para a Fides Reformata XIV n°1 (2009)

 

 

postado por Tiago H. Souza

Pregações no livro de Efésios no 3°Congresso Mundial de Evangelização Lausanne

Efésios 1 – Ajith Fernando

parte 1  http://www.youtube.com/watch?v=kmjROZBO4do

parte 2 http://www.youtube.com/watch?v=6dUckL-U16U&feature=related

Efésios 2 – Ruth Padilha

parte 1 http://www.youtube.com/watch?v=j4NuOcwgA1g&feature=related

parte 2 http://www.youtube.com/watch?v=F6I4ImrMNYY&feature=related

Efésios 3 – John Piper

parte 1 http://www.youtube.com/watch?v=o14tCvP0sD4&feature=related

parte 2 http://www.youtube.com/watch?v=brEkbLl_K0w&feature=related

Efésios 4 – Vaugham Roberts

parte 1 http://www.youtube.com/watch?v=eRLhDZJ96qs&feature=related

parte 2 http://www.youtube.com/watch?v=h2POPMkt4JY&feature=related

Postado por: Tiago Souza

O Significado de “KOSMOS” em João 3:16 – A.W. Pink

Por A.W Pink


Pode parecer para alguns de nossos leitores que a exposição que demos de João 3:16 no capítulo sobre “Dificuldades e Objeções” é forçada e não natural, na medida em que nossa definição do termo “mundo” parece estar fora de harmonia com o significado e escopo desta palavra em outras passagens, onde, fornecer o mundo de crentes (os eleitos de Deus) como uma definição de “mundo” parece não fazer sentido. Muitos têm nos dito: “Certamente, ‘mundo’ significa mundo, isto é, você, eu, e cada pessoa”. Em resposta dizemos: Nós sabemos por experiência quão difícil é pôr de lado as “tradições de homens” e chegar a uma passagem que temos ouvido explanada de um certo modo muitas vezes, e nós mesmos estudá-la cuidadosamente sem preconceito. Todavia, isto é essencial se desejarmos aprender a mente de Deus.

      Muitas pessoas supõem que elas já conhecem o simples significado de João 3:16 e, portanto, concluem que nenhum estudo diligente é requerido delas para descobrir o ensino preciso deste verso. É desnecessário dizer, que tal atitude impede a entrada de qualquer luz adicional que de outra forma eles poderiam obter sobre a passagem. Além disso, se alguém pegar uma Concordância e ler cuidadosamente as várias passagens nas quais o termo “mundo” (como uma tradução de “kosmos”) ocorre, ela rapidamente perceberá que para se averiguar o preciso significado da palavra “mundo” em qualquer passagem, não será nem um pouco fácil como é popularmente suposto. A palavra “kosmos”, e seu equivalente em português “mundo”, não é usada com um significado uniforme no Novo Testamento. Extremamente longe disso. Ela é usada em um número de formas absolutamente diferentes. Abaixo nos referiremos a algumas poucas passagens onde este termo ocorre, sugerindo uma tentativa de definição em cada caso:

“Kosmos” é usado para definir o Universo como um todo: Atos 17:24 – “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra”.

“Kosmos” é usado para definir a terra: João 13:1; Efésios 1:4, etc., etc.- “Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os seus que estavam no mundo, amou-os até ao fim”. “Passar deste mundo” significa, deixar esta terra. “Como também nos elegeu nele antes da fundação do mundo”, Esta expressão significa, antes da terra ser fundada – compare Jó 38:4, etc.

“Kosmos” é usado para definir o sistema mundial: João 12:31, etc. “Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo” – compare Mateus 4:8 e 1 João 5:19.

“Kosmos” é usado para definir toda a raça humana: Romanos 3:19, etc. – “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”.

“Kosmos” é usado para definir a humanidade menos os crentes: João 15:18, Romanos 3:6. “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim”. Os crentes não “odeiam” a Cristo, de forma que “o mundo” aqui deve significar o mundo de descrentes em contraste com os crentes que amam a Cristo. “De maneira nenhuma! Doutro modo, como julgará Deus o mundo?”. Aqui é outra passagem onde “o mundo” não pode significar “você, eu, e cada pessoa”, porque os crentes não serão “julgados” por Deus, ver João 5:24. De forma que aqui, também, deve ser o mundo de descrentes que está em vista.

“Kosmos” é usado para definir os Gentios em contraste com os Judeus: Romanos 11:12, etc. “E, se a sua (Israel) queda é a riqueza do mundo, e a sua (Israel) diminuição, a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude (de Israel) !”. Note como a primeira cláusula em negrito é definida pela última cláusula colocada em negrito. Aqui, novamente, “o mundo” não pode significar toda a humanidade porque ele exclui Israel!

“Kosmos” é usado para definir somente os crentes: João 1:29; 3:16,17; 6:33; 12:47; 1 Coríntios 4:9; 2 Coríntios 5:19. Nós deixaremos nossos leitores se voltarem para estas passagens, pedido-lhes notar, cuidadosamente, exatamente o que é dito e relacionado com “o mundo” em cada lugar.

Assim, pode ser visto que “kosmos” tem pelo menos sete significados diferentes claramente definidos no Novo Testamento. Pode ser perguntado: Deus tem usado então uma palavra assim para confundir e embaraçar aqueles que lêem as Escrituras? Nós respondemos: Não! nem tem Ele escrito Sua Palavra para pessoas preguiçosas que são tão negligentes, ou tão ocupadas com as coisas deste mundo, ou, como Marta, tão ocupadas em “servir”, que não têm tempo e nem coração para “examinar” e “estudar” as Escrituras Sagradas! Poderia ser ainda perguntado: Mas como é que um examinador das Escrituras sabe qual dos significados acima o termo “mundo” tem em alguma determinada passagem? A resposta é: Isto pode ser averiguado por um estudo cuidadoso do contexto, diligentemente notando qual é a relação de “o mundo” em cada passagem, e em total oração consultando outras passagens paralelas àquela que está sendo estudada. O principal assunto de João 3:16 é Cristo como o Dom de Deus. A primeira cláusula nos diz que Deus foi movido a “dar” Seu Filho unigênito, e isto por Seu grande “amor”; a segunda cláusula nos informa para quem Deus “deu” Seu Filho, e é para “todo aquele (ou, melhor, ‘cada um’) que crê”; enquanto a última cláusula faz conhecido porque Deus “deu” Seu Filho (Seu propósito), e isto é para que todo aquele que crê “não pereça mas tenha a vida eterna”. Que “o mundo” em João 3:16 refere-se ao mundo de crentes (os eleitos de Deus), em distinção com “o mundo dos ímpios” (2 Pedro 2:5), é estabelecido, inequivocadamente estabelecido, por uma comparação com outras passagens que falam do “amor” de Deus. ”Mas Deus prova o seu amor para CONOSCO” – os santos, Romanos 5:8. ”Porque o Senhor corrige o que ama” – todo filho, Hebreus 12:6. “Nós o amamos porque ele NOS amou primeiro” – os crentes, 1 João 4:19. Do ímpio Deus tem “piedade” (ver Mateus 18:33). Para os ingratos e maus Ele é “bom” (ver Lucas 6:35). Os vasos de ira Deus suporta “com muita paciência” (ver Romanos 9:22). Mas “os Seus”, Deus “ama”!


Postado por Tiago H. Souza

O que significa “enchei-vos do Espírito” – John Stott

E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito… (Ef 5.18s)

A forma exata do verbo plērousthe é sugestiva.

Em primeiro lugar, está no modo imperativo. “Enchei-vos” não é uma proposta alternativa, mas, sim, um mandamento autoritário. Não podemos mais evitar esta responsabilidade, tal como se dá com muitas outras que a cercam em Efésios. Ser cheio do Espírito é obrigatório, não é opcional.

Em segundo lugar, está na forma do plural. Noutras palavras, é endereçado à totalidade da comunidade cristã. Ninguém dentre nós deve ficar bêbado; todos nós devemos encher-nos do Espírito. A plenitude do Espírito não é um privilégio elitista, mas, sim, uma possibilidade para todo o povo de Deus.

Em terceiro lugar, está na voz passiva. O sentido é “deixai o Espírito Santo encher-vos”. Não há nenhuma técnica para aprender e nenhuma fórmula para recitar. O que é essencial é evitar com arrependimento tudo quanto entristeça o Espírito Santo, e ter uma tal receptividade a ele pela fé que nada o impeça de encher-nos. É significante que a passagem paralela em Colossenses diz, ao invés de enchei-vos do Espírito, “habite ricamente em vós a palavra de Cristo” (Cl 3.16). Nunca devemos separar o Espírito da Palavra. Obedecer à Palavra e entregar-se ao Espírito são virtualmente dois procedimentos idênticos.

Em quarto lugar, está no tempo presente. No grego há dois tipos de imperativo, um aoristo que descreve uma ação única, e um presente quando a ação é contínua. Assim, quando Jesus disse durante as bodas em Caná: “Enchei d`água as talhas” (Jo 2.7), o imperativo é aoristo, visto que as talhas deviam ser enchidas uma só vez. Quando, porém, Paulo nos diz: Enchei-vos do Espírito, emprega um imperativo no presente, o que subentende que devemos continuar ficando cheios. A plenitude do Espírito, pois, não é uma experiência de uma vez para sempre que nunca podemos perder, mas, sim, um privilégio que deve ser continuamente renovado pelo continuado crer e pela continuada apropriação obediente. Fomos selados com o Espírito de uma vez por todas; temos necessidade de encher-nos do Espírito e continuar ficando cheios todos os dias e todos os momentos do dia.

 

Postado por Tiago H. Souza