O Plantador de Igreja – O que diferencia a igreja de um museu? Darrin Patrick

http://www.youtube.com/watch?v=7YrghR4m9yk

Anúncios

Uma Igreja Missional Contextualiza o Evangelho – Mark Driscoll

Uma igreja missional busca seguir o exemplo de Jesus, que foi o maior missionário de todos os tempos, a ingressar em uma nova cultura. Ele deixou uma cultura para entrar em outra, participando dela completamente: falava o idioma, comemorava os feriados, comia e bebia, ia às festas e fazia amizades—tudo isso sem jamais pecar. A vida de Jesus é o perfeito modelo da vida missionária vivida por Deus na cultura que devemos imitar, sem cair na armadilha do sincretismo liberal ou do sectarismo fundamental. É importante notar, no entanto, que, aos olhos daqueles que pensavam de forma funda­mentalista e separatista, Jesus foi simplesmente longe demais. Eles viram seus atos como pecaminosos e acusaram-no falsamente de ser comilão e bebedor de vinho e de apoiar o pecado.

A verdade inegável é que a contextualização não é algo feito exclusivamente por missionários cristãos em outras nações, mas por todos os cristãos em todas as culturas, mesmo se eles não reconhecem isso. Sobre esse assunto, Paulo disse em 1 Coríntios 9.19–23:

Pois, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos para ganhar o maior número possí­vel: Fiz-me como judeu para os judeus, para ganhar os judeus; para os que estão debaixo da lei, como se estivesse eu debaixo da lei (embora debaixo da lei não esteja), para ganhar os que estão debaixo da lei; para os que estão sem lei, como se estivesse sem lei (não estando sem lei para com Deus, mas debaixo da lei de Cristo), para ganhar os que estão sem lei. Fiz-me como fraco para os fracos, para ganhar os fracos. Fiz-me tudo para todos, para por todos os meios chegar a salvar alguns. Ora, tudo faço por causa do evangelho, para dele tornar-me coparticipante.

Mark Driscoll e J.I Packer

No mundo da missiologia, chamamos isso de contextualização. Isto é, as igrejas devem estar cientes do contexto cultural em que estão inseridas, no qual as pessoas perdidas vivem, devendo se esforçar ao máximo para levar o amor e a verdade de Jesus em palavras e ações e ser “tudo para todos”, utilizando “todos os meios” para “salvar alguns”. Em vez de ser um comprometimento, esse trabalho é “por causa do evangelho”, o que significa que qualquer igreja que somente pratica o evangelismo sem antes estudar a cultura e se esforçar para entender o contexto em que está inserida não se importa realmente com o evangelho. Muitas igrejas são projetadas exclusivamente para aco­modar pessoas religiosas, já que sua cultura e seus métodos de ministério não são re­ceptivos ou hospitaleiros para as pessoas fora da cultura cristã. Contextualizar é facilitar ao máximo o acesso à igreja sem comprometer a verdade da crença cristã. Assim, o que se busca é uma verdade atemporal e métodos modernos. Em outras palavras, a contex­tualização não é tornar o evangelho pertinente, mas mostrar a pertinência do evangelho.

Em termos práticos, isso significa que uma igreja missional fala a língua e canta o estilo da cultura sem utilizar uma conversa religiosa, ou o que um pastor chama de “gíria gospel” como amado(a) ou querido(a), porque isso é bíblico. Quando Deus ins­pirou a escritura do Novo Testamento, as opções eram o grego acadêmico ou o de rua, e Deus optou por escrever sua Palavra na linguagem de rua. Paulo também defende um cristianismo compreensível em 1 Coríntios 14; muitas pessoas na igreja estavam falando uma língua que as pessoas perdidas simplesmente não podiam entender, por isso Paulo claramente ordenou que falassem palavras inteligíveis para que as pessoas perdidas pudessem compreendê-las e serem salvas.

Aqui é importante estabelecer a diferença entre relativistas e relevantistas. Os re­lativistas estão dispostos a comprometer a verdade cristã em nome de se relacionarem com as pessoas perdidas. Isso é um problema, pois eles buscam mudar Jesus, erronea­mente acreditando que ele não é pertinente para as pessoas e a vida delas. Em contra­partida, os relevantistas sabem que Jesus é relevante para todas as pessoas, todos os tempos, todos os lugares, todas as culturas e todas as circunstâncias. Eles estão com­prometidos com transpor quaisquer barreiras culturais que se levantem contra o poder e a verdade do evangelho. Eles utilizam quaisquer meios morais para que as pessoas possam claramente ouvir a mensagem de Jesus e ver a pertinência de Jesus.

Além disso, não estamos defendendo as igrejas “sensíveis” aos perdidos nas quais a doutrina é minimizada; antes, preferimos as igrejas “sensatas” aos perdidos. Isso significa que a igreja não deve parar de usar as palavras da Bíblia que estão cheias de significado teológico (por exemplo, pecadopropiciaçãoirajulgamentoinferno), mas deve se esforçar ao máximo para explicar essas palavras. Ela deve se defender contra as objeções das pessoas perdidas para que elas possam entender em que os cristãos creem e a razão pela qual creem, enquanto são convidadas a crer também. Ao contextualizar, a igreja missional não faz concessões, mas obedece ao exemplo de Paulo, que repreendeu Pedro por sua tentativa pecaminosa de ter uma igreja somente para os judeus, que não eram receptivos com relação aos gentios e sua cultura.

Como missionários fiéis, os cristãos têm adaptado os métodos e a cultura da igreja ao longo da sua história. Estive na Índia há alguns anos e me pediram que pregasse

em uma igreja de uma comunidade rural. Essa congregação se reunia em um edifício muito simples, feito de blocos de concreto. Todos se sentavam no chão: as mulheres de um lado e os homens do outro. A Bíblia deles era uma versão que eu desconhecia; havia sido contextualizada por meio da tradução em uma linguagem que eles podiam compreender. As crianças participavam do culto, já que não havia uma atividade se­parada para elas. Os momentos de louvor incluíam instrumentos e cânticos que eu nunca tinha ouvido. Estranhei o fato de o culto dominical não começar na hora mar­cada, nem ter uma duração pré-definida. Disseram-me que esperaríamos paciente e graciosamente todas as pessoas chegarem para dar início ao culto, que terminaria quando parecesse que fosse hora de terminar. Assim, começamos muito tarde e o culto durou muito tempo, mas, diferentemente das igrejas americanas, ninguém pareceu se importar, nem saiu antes do culto acabar; em vez disso, as pessoas aproveitaram para construir relacionamentos.

Para pregar, pediram que me sentasse na frente, sobre uma plataforma não muito alta, no estilo “guru”, com as pernas cruzadas, e que esperasse o tradutor contextualizar minhas palavras para as pessoas. Sendo tão flexível quanto um hiper-calvinista, eu não estava bem certo de como poderia pregar daquela forma, mas fiz um grande esforço por amor às pessoas e pelo desejo de respeitar suas formas culturais, que não eram proibidas nas Escrituras e, portanto, permissíveis. Contudo, se elas tivessem me pedido para sacrificar um animal, como os hinduístas fazem para agradar seus deuses, eu teria me recusado, pois ser um bom missionário significa fazer tudo que podemos, exceto pecar, para tornar a igreja culturalmente acessível. Acredito que, ao ler essa história, poucas pessoas – ou talvez nenhuma – teriam alguma coisa contra. No entanto, muitas pessoas tendem a fazer julgamentos morais severos sobre qualquer acomodação cultural na igreja em coisas relacionadas à estética, ao modo das pessoas se vestirem, ao estilo de música, ao horário e à ordem de culto.

Por quê? Porque elas continuam a viver sob o mito de que as missões são algo que acontece do outro lado do mundo, e não do outro lado da rua, e de que os missionários são pessoas especiais, e não cristãos normais. Esse é um pecado do qual temos que nos arrepender. Toda igreja é cercada de culturas, subculturas e tribos de pessoas que estão tão perdidas e são tão culturalmente diferentes do cristianismo evangélico ocidental quanto um morador de um vilarejo indiano que se senta no chão, come com as mãos e ara a terra com a ajuda de um boi. Já que devemos amar nosso próximo, devemos ter uma igreja que está culturalmente contextualizada, como um ato de amor.

É verdade que, conforme o evangelho passa de uma cultura para outra, há a com­plexa questão de determinar o que deve ser rejeitado, o que deve ser aceito e o que deve ser redimido. Isso é verdade para as culturas que enviam e as que recebem o evangelho; o evangelho não será mantido cativo a nenhuma cultura, incluindo a cultura da igreja, sem continuamente chamá-la ao arrependimento.

Esse é um dos motivos por que temos as Epístolas do Novo Testamento. A maior parte do conteúdo delas trata de questões e conflitos relacionados àquilo que devia ser rejeitado, aceito e redimido quando o evangelho avançou da cultura dos judeus para a

dos gentios. Portanto, o Novo Testamento é um exemplo missiológico da difícil obra teológica da contextualização. Hoje, as questões relacionadas à contextualização in­cluem o modo de se vestir, a tatuagem, o piercing, a cirurgia plástica, os estilos musi­cais, o uso da tecnologia na igreja, o entretenimento, que inclui televisão e filmes, fumar, beber, a linguagem, a homossexualidade e os desvios sexuais de todos os tipos que podem ser imaginados.

Por ser missional, a igreja primitiva respondia às questões daqueles tempos com fidelidade e contextualidade, por isso, nos dias de hoje, devemos fazer o mesmo.

 

Trecho extraído do livro “Igreja Vintage” da editora Tempo de Colheita

Fonte: Tempo de Colheita

A Reforma e o Homem – Francis Shaeffer

Conhecemos, pois, algo deslumbrante a respeito do homem. Entre outras coisas, conhecemos a sua origem e quem ele é – criado à imagem de Deus. É o homem maravilhoso não apenas quando é “nascido de novo” como um cristão, é também maravilhoso como o fez Deus a Sua própria imagem. Tem o homem valor e dignidade em função daquilo que foi originalmente, antes da Queda.
Estava, há pouco, fazendo uma série de preleções em Santa Bárbara, quando me foi apresentado um rapaz viciado em entorpecentes. Era um jovem de semblante delicado e expressivo, cabelos longos e encaracolados, os pés calçados com sandálias, e trajava calça rancheira. Assistiu a uma das preleções e confessou: “Isto é completa novidade para mim; nunca ouvi coisa alguma igual a isto”. Voltou na tarde seguinte e eu o saudei. Olhou-me firmemente nos olhos e disse: “O senhor me cumprimentou de maneira tocante. Por que me tratou assim?” Respondi-lhe: “é porque eu sei quem você é – sem que você foi criado à imagem de Deus”. Em seguida tivemos uma demorada e notável conversa. Não podemos tratar as pessoas como seres humanos, não podemos vê-las no alto nível da verdadeira humanidade, a menos que conheçamos realmente a sua origem – quem são. Deus diz ao homem quem ele é. Deus nos declara que Ele criou o homem à própria imagem. Portanto, o ser humano é algo maravilhoso.
Deus, entretanto, nos diz algo mais a respeito do homem – fala-nos acerca da Queda. Isto introduz o outro elemento que precisamos conhecer a fim de entendermos o ser humano. Por que é, a um tempo, criatura tão maravilhosa e tão degradada? Quem é o homem? Quem sou eu? Por que pode o homem realizar estas coisas que o fazem único, no entanto, porque é ele tão horrível? Por que?
Diz a Bíblia que você é maravilhoso porque é feito à imagem de Deus e degradado porque, em determinado ponto espaço-temporal na história, o ser humano caiu. O homem da Reforma sabia que a criatura marcha rumo ao Inferno em razão da revolta contra Deus. Todavia o homem da Reforma e aqueles que após a Reforma forjaram a cultura do Norte Europeu sabiam que, enquanto o homem é moralmente culpado diante do Deus que existe, ele não é o nada. O homem moderno tende a julgar-se ser nada. Aqueles, entretanto, sabiam que eram exatamente o oposto do nada porque conheciam o sentido de serem feitos à imagem de Deus. Embora decaídos e, a parte da solução não-humanista de Cristo e Sua morte substicionária, iriam para o Inferno, isto não significava, contudo que eram nada. Quando a Palavra de Deus,a Bíblia veio a ser ouvida, a Reforma teve resultados tremendos, tanto nas pessoas individualmente, que se tornavam genuínos cristãos, como na cultura em geral.
O que a Reforma nos diz, pois, é que Deus falou nas Escrituras tanto  acerca do “andar de cima” como do “andar de baixo”. Falou em verdadeira revelação acerca de Si mesmo – as coisas celestiais – e falou em verdadeira revelação a respeito da própria natureza – o cosmos e o homem. Portanto, tinham os Reformadores uma real unidade de conhecimento. Eles simplesmente não tinham o problema renascentista de graça e natureza! Obtinham real unidade, não que fossem mais sagazes, mas porque alcançavam uma unidade cuja base se achava no que Deus revelara em ambas as áreas. Em contraste com o Humanismo de Tomás de Aquino liberara e o Humanismo que o Catolicismo Romano fomentara, não reconhecia a Reforma qualquer porção autônoma.
Não queria isto dizer que não restava liberdade para a arte  ou a ciência. O oposto é que era verdade; havia agora a possibilidade da verdadeira liberdade dentro da forma revelada. Contudo, ainda que haja liberdade para a arte e a ciência, não são elas autônomas – o artista e o cientista também se acham debaixo da revelação das Escrituras. Como se verá, sempre que a arte ou a ciência procuraram fazer-se autônomas, certo princípio sempre se manifestou – a natureza “devora” a graça e, consequentemente, a  arte e a ciência bem logo começaram a parecer destituídas de significação.
A Reforma teve não poucos resultados de tremendo alcance e tornou possível a cultura que tantos dentre nós admiramos afetuosamente – ainda que a nossa geração a esteja agora lançando fora. Confronta-nos a Reforma um Adão que era, usando a terminologia característica da forma de pensamento do século vinte, um homem não-programado – não arranjado como um cartão perfurado de um sistema de computação. Uma característica que marca o homem do século vinte é que ele não pode visualizar isto, uma vez que é de todo infiltrado por um conceito de determinismo. A perspectiva bíblica, entretanto, é clara – homem não pode ser explicado como totalmente determinado e condicionado – posição que forjou o conceito da dignidade do homem. Há pessoas que buscam hoje apegar-se à dignidade do homem, entretanto não têm base conveniente em que se fundamentar pois que perderam a verdade de que o homem foi feito à imagem de Deus. Ele era um homem não programado, um homem revestido de significado numa história de alto sentido, capaz de alterar a história.

Temos, pois, no pensamento da Reforma um homem que é alguém. Vemo-lo, porém, envolvido numa condição de revolta e a rebeldia é real – jamais uma “peça de teatro”. Uma vez que é um ser não programado e de fato se revolta, ele incide em genuína culpabilidade moral. À vista disto, os Reformadores compreenderam algo mais. Tiveram uma compreensão bíblica da obra de Cristo. Compreenderam que Jesus morreu na cruz em função substitutiva e em ação propiciatória a fim de salvar o homem da verdadeira culpa que sobre ele pesa. Necessitamos reconhecer que, no instante em que nos pomos a alterar a noção bíblica da verdadeira culpa moral, seja falsificação psicológica, seja a falsificação teológica ou seja de qualquer outra forma, nosso conceito da obra de Jesus não mais será bíblico. Cristo morreu pelo homem que tinha uma culpa moral verdadeira por ele próprio ter feito essa real e verdadeira escolha.

Distorcendo Mateus 18 – D.A Carson

Anos atrás, escrevi uma crítica bastante moderada ao movimento da igreja emergente como então existia, antes de se transformar em suas atuais configurações diversas. Esse pequeno livro me rendeu alguns dos mais furiosos e amargurados e-mails que eu já recebi – sem falar, claro, das postagens nos blogs. Houve outras respostas, claro – algumas de aprovação e gratidão, outros reflexivos, querendo dialogar. Mas os que mostraram a maior intensidade foram aqueles cuja indignação era tamanha por eu não ter primeiro abordado em particular aqueles cujas opiniões eu critiquei no livro. Que hipócrita eu era – criticando meus irmãos com fundamentos bíblicos ostensivos quando eu não estava seguindo o mandamento bíblico de observar um determinado procedimento muito bem definido em Mateus 18.15-17.D.A Carson - Exegeta do Novo Testamento

Sem dúvida esse tipo de acusação está se tornando mais comum. Está normalmente ligado ao “Peguei você!”, mentalidade que muitos blogueiros e seus leitores parecem alimentar. Pessoa A escreve um livro criticando algum elemento ou outro do confessionalismo histórico Cristão. Alguns blogueiros respondem com mais calor do que luz. Pessoa B escreve um blog com algum conteúdo, em resposta à pessoa A. A blogosfera se acende com ataques à pessoa B, muitos deles perguntando à pessoa B de forma bastante acusadora: “Você conversou com a pessoa A, em particular, primeiro? Se não, você não é culpado por violar o que Jesus nos ensinou em Mateus 18?” Esse padrão de contra ataque, com algumas variações, está prosperando.

A esse respeito, pelo menos três coisas devem ser ditas:

(1) O pecado descrito no contexto de Mateus 18.15-17 ocorre em pequena escala daquilo que transparece uma igreja local (sem duvida é o que se presume nas palavras “comunique à igreja”). Não está falando de uma publicação de ampla divulgação designada a afastar um grande número de pessoas de muitas partes do mundo do confessionalismo histórico. Esse último tipo de pecado é bem público e já está trazendo danos; precisa ser confrontado e seus danos desfeitos de maneira igualmente pública. Isso é bem diferente, digamos, de quando um crente descobre que um irmão esteve quebrando seus votos matrimoniais por dormir com uma pessoa que não é sua esposa, e vai a ele em privado, depois junto de outra pessoa, na esperança de provocar genuíno arrependimento e contrição, e só então trazer o caso à igreja.

Colocando de outra forma, a impressão que deriva da leitura de Mateus 18 é que o pecado em questão não é, em primeiro lugar, publicamente notado (diferente da publicação de um tolo, mas influente, livro). É relativamente privado, observado por um ou dois crentes, mas sério o suficiente para chamar a atenção da igreja se o ofensor se recusar a parar. Por outro lado, quando os escritores do Novo Testamento têm ter que lidar com falso ensinamento, outra ideia chama atenção: o ancião piedoso “apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela”. (Tito 1.9)

Sem dúvida, pode-se imaginar algumas situações contemporâneas que inicialmente podem fazer alguém coçar a cabeça e pensar qual seria o rumo mais sensato – ou, para enquadrar o problema no contexto das passagens bíblicas citadas acima, se deve ser respondida à luz de Mateus 18 ou de Tito 1. Por exemplo, um pastor da igreja local pode ouvir que um professor em seu seminário denominacional ou faculdade teológica está ensinando algo que ele julga estar fora da confissão dessa denominação e possivelmente claras heresias. Deixe-nos tornar a situação mais desafiadora postulando que o pastor tem um punhado de jovens em sua igreja que freqüentam esse seminário e estão sendo influenciados por esse professor em questão.  O pastor está de acordo com Mateus 18 ao falar com o professor antes de contestá-lo em público?

Essa situação é complicada no que o suposto falso ensinamento é publico em um sentido e privado em outro. É público no sentido de que não é meramente opinião privada, por estar certamente sendo promulgada; é privado no sentido de que o material não é publicado na arena pública, mas está sendo disseminado em uma sala de aula fechada. Parece-me que o pastor seria sensato em ir ao professor primeiro, mas não em obediência a Mateus 18, pois realmente não há relação, mas para determinar exatamente quais são realmente as visões do professor. Ele pode chegar à conclusão, afinal, que o professor é um judaizante; outra alternativa é que o professor foi mal interpretado (e qualquer professor com integridade vai querer tomar as dores de não ser mal interpretado no futuro da mesma maneira); ou ainda, que o professor é dissimulado. Ele pode sentir que tem que ir ao superior direto do professor ou alguém de maior autoridade. Meu argumento, no entanto, é que esse percurso de ação não está realmente traçando as instruções de Mateus 18. O pastor está indo ao professor, em primeira instância, não para reprová-lo, mas descobrir se há realmente um problema quando o ensino cai nessa categoria ambígua de não tão privado e não tão público.

(2) Em Mateus 18, o pecado em questão é, pela autoridade da igreja, passível de exclusão – em pelo menos dois sentidos.

Primeiro, a ofensa pode ser tão séria que a única decisão responsável que a igreja pode tomar é excluir o ofensor da igreja e vê-lo como uma pessoa não convertida (18.17). Em outras palavras, a ofensa é motivo de exclusão por causa de sua gravidade. No Novo Testamento como um todo, há três categorias de pecados que alcançam esse nível de gravidade: grande erro doutrinário (1 Tim 1.20), grande falha moral (1 Co 5) e discórdia divisiva e persistente  (Tito 3.10). Esses constituem o lado negativo dos três “testes” positivos de 1 João: o teste da verdade, o teste da obediência e o teste do amor. Em todo caso, embora não saibamos qual seja, a ofensa em Mateus 18 é passível de exclusão por causa de sua gravidade.

Em segundo lugar, a situação é tal que o ofensor pode efetivamente ser excluído da assembléia. Em outras palavras, a ofensa é passível de exclusão porque, organizacionalmente, é possível excluir o ofensor. Veja bem, suponha que alguém, digamos, na Filadélfia, estivesse afirmando ser um cristão devoto enquanto escrevia um livro que era, em certos aspectos, profundamente anticristão. Imagine que uma igreja em, digamos, Toronto, Canadá, decidiu que o livro é herege. Tal igreja pode, suponho eu, declarar o livro como equivocado ou herético, mas eles certamente não poderiam excluir o escritor. Sem dúvida, eles poderiam declarar o ofensor persona non grata em sua própria assembléia, mas isso seria um gesto fútil e provavelmente sem proveito. Afinal, o ofensor pode ser perfeitamente aceitável em sua própria assembléia. Em outras palavras, esse tipo de ofensa pode levar à exclusão no primeiro sentido – por exemplo, o falso ensinamento pode ser julgado tão grave que o ofensor merece ser excluído – mas não é passivel de exclusão no segundo sentido, por ser a  realidade organizacional de tal forma que exclusão não é praticável. Um ponto a observar é que, seja qual for, a ofensa em Mateus 18 é passível de exclusão em ambos sentidos: o pecado tem que ser grave o suficiente para justificar a exclusão, e a situação organizacional deve ser de tal forma que a igreja local pode ter uma ação decisiva que realmente exprima alguma coisa. Onde o primeiro e o segundo sentidos não se aplicam, não se aplica Mateus 18.

Pode-se, claro, argumentar que é sabedoria prudente escrever aos autores antes que você os critique em sua própria publicação. Posso pensar em situações em que pode ser uma boa ideia ou não. Mas tais tipos de raciocínio não fazem parte do argumento de Mateus 18.

(3) Há um aroma de justiça encenada, de indignação desproporcional, por trás dos atuais jogos de “peguei você!”. Se a pessoa B acusa a pessoa A de ter escrito um livro a favor de um entendimento revisionista da Bíblia, com erro grave e possivelmente com heresia, não é sábio fazer “tsc tsc” para a mente tacanha da pessoa B e sorrir com condescendência e desdém por tal julgamento. Isso pode funcionar bem entre aqueles que acham que a maior virtude no mundo é a tolerância, mas com certeza não pode ser o caminho mais honroso para o cristão. Heresia genuína é uma coisa execrável, uma coisa horrível. Desonra Deus e leva as pessoas a se perderem. Deturpa o evangelho e seduz as pessoas a acreditarem em coisas falsas e agir de maneiras repreensíveis. Claro, a Pessoa B pode estar totalmente enganada. Talvez a acusação que a Pessoa B está fazendo seja inteiramente equivocada, ou mesmo perversa. Nesse caso, deve-se revelar o fato, não esconder atrás de uma questão processual. O ataque da Pessoa B na séria argumentação bíblica deve ser analisado, não dispensado em um procedimento ilusório e um apelo errôneo a Mateus 18.

 

 

fonte: iprodigo

JANTANDO COM OS PECADORES – Rennan Dias

Certa vez, eu recebi um convite para jantar com uma determinada família. Ao chegar, me deparei com uma mesa farta de comida e bebida. Sentamos-nos e começamos a comer e conversar. De repente, uma pessoa se aproximou e me perguntou: “Como um cristão pode comer com alguém que bebe cerveja”? A minha resposta foi algo assim: “Um cristão pode comer com alguém que bebe porque Jesus assim o fez. Um copo de cerveja não poderia me impedir de estar aqui”!

Quantas vezes não somos impedidos de pregar o Evangelho porque há coisas diferentes na mesa – bebidas, práticas, palavras. Um dia, nós todos fomos parte dessa mesa. Agora, nos sentimos superiores ou diferentes. Hoje, nós não queremos mais sentar à mesa com pessoas que são iguais ao que éramos no passado.

Jesus não é assim! Mateus nos conta (Mt 9.9-13) que Jesus foi a sua casa para um jantar especial. Depois de receber um convite para seguir Jesus, Mateus resolveu fazer um jantar para todos os seus amigos – pecadores e publicanos. Enquanto estavam jantando, um grupo de fariseus apareceu com uma pergunta: “Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores”?

Ao ouvir isso, Jesus responde aos fariseus, apresentando o coração do Evangelho. Primeiro, Ele diz que o Evangelho é como receber uma visita de um médico em casa. Só recebe o Médico de Deus quem se enxerga doente do pecado. Segundo, Jesus diz que o Evangelho é a manifestação da misericórdia de Deus. Ele manda os fariseus voltarem a ler suas Bíblias para aprender que Deus tem prazer numa religião que é fruto de Sua misericórdia e que desemboca em misericórdia para com o próximo. E por fim, Jesus diz que o Evangelho é receber o Seu convite para entrar em Sua casa. Ele veio – Ele nasceu – para chamar os pecadores, e não os justos!

Jesus ainda hoje deseja jantar com pecadores! Ao receber o Evangelho de Cristo em casa, nós somos chamados para levar o Evangelho de Deus às casas dos demais pecadores! Por que não seguir Aquele que nos salvou para sermos feitos em Sua imagem (Rm 8.29)? Por que não iniciar bons relacionamentos? Foi Jesus e não Mateus que primeiro falou! Por que não se aproximar daqueles velhos amigos com o propósito de repartir o Evangelho com eles? Por que não deixar o “espírito da religião farisaica” de lado para ganhar pessoas com a maior de todas as notícias? Jantemos com os pecadores para a glória de Deus!

Spurgeon plantador de Igrejas

Muitas pessoas não estão cientes da paixão extraordinária de C. H. Spurgeon por plantação de igrejas. Neste breve artigo, Peter Morden lança luz sobre como esse ministério impactou Londres.

O cenário Batista em Londres seria muito diferente hoje não fosse o ministério de plantação de igrejas de Charles Haddon Spurgeon. Algumas estatísticas nos ajudam a começar a compreender a extensão de sua influência. De forma impressionante, 53 das 62 novas igrejas Batistas de Londres fundadas entre 1865 e 1876 foram criadas graças ao seu trabalho; e no tempo da sua morte, em 1892, ele estava envolvido na plantação de quase 100 igrejas na cidade e nas áreas circunzinhas. A maioria dessas igrejas permanecem até hoje, muitos delas fortes e vigorosas, incluindo aquelas em Balham, Enfield, Greenwich, Norwood (Chatsworth), Teddington e Wimbledon (Estrada da Rainha).

Como Spurgeon conseguiu esse feito extraordinário? Seus métodos eram flexíveis e variavam dependendo do contexto, mas muitas vezes ele trabalhava da seguinte maneira. Para começar, Spurgeon identificaria uma área que parecia ser uma oportunidade missionária promisssora. Então ele enviaria um ou dois alunos do Colégio de Pastores para realizar cultos de pregação ao ar livre, muitas vezes com o apoio de outras pessoas da sua igreja. Se esses trabalhos “ao ar livre” fossem bem sucedidos, ele alugaria algumas salas para que novas reuniões pudessem ser realizadas. Se o trabalho continuasse a florescer (como normalmente aconteceu), terrenos adequados seriam comprados e instalações construídas. Spurgeon tinha o seu próprio advogado para ajudar as novas igrejas na elaboração das escrituras e com quaisquer outras questões jurídicas que surgissem. A parte financeira era suprida por seus muitos colaboradores – e também pelo próprio Spurgeon.

A Igreja Batista de Enfield, ao norte de Londres, é apenas um exemplo de uma igreja que deve o seu início, humanamente falando, a Spurgeon. Em 1867, após uma reunião que realizou com algumas pessoas interessadas daquele lugar, os cultos foram iniciados em uma sala em cima de um pub, o Rising Sun [Sol Nascente]. Uma “capela de ferro” temporária foi logo construída, e Spurgeon pregou o primeiro sermão no novo edifício. Havia então 30 membros e a igreja continuou a crescer. Em 1872, uma capela mais permanente foi erguida. Hoje, o elo com Spurgeon é tão forte como antes: Amanda James[1], o ministro titular, formou-se no Spurgeon’s College; o ministro em treinamento, Craig Downes, está atualmente estudando lá. Sob a liderança deles, a Igreja Batista de Enfield continua a prosperar e tem uma forte atuação em missões estrangeiras.

Falando de sua paixão por plantação de igrejas, Spurgeon disse certa vez:

“É com alegria … que encorajamos nossos membros a nos deixar para fundar outras igrejas; ou melhor, procuramos convencê-los a fazê-lo. Pedimos a eles que se espalhem por toda a terra, para se tornar a semente piedosa que Deus abençoará. Eu creio que enquanto fizermos isso, prosperaremos.”

Seu grande coração e sua paixão evangelística brilharam grandemente. Por qualquer padrão, o legado de novas igrejas que ele deixou foi um legado notável.

Fonte: The Recorder

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Jesus Morreu por Todos? – R. C. Sproul

Um dos pontos mais controvertidos da teologia reformada tem a ver com o terceiro item de nossa lista de itens do Capítulo Cinco. É a expiação limitada. Este tem sido um tal problema de doutrina que há multidões de cristãos que dizem que abraçar a maioria das doutrinas do calvinismo, mas saem do barco bem aqui.


Referem-se a si mesmos como os calvinistas dos “quatro pontos”. O ponto que não podem sustentar é a expiação limitada. Freqüentemente tenho pensado que, para ser um calvinista de quatro pontos, é preciso que a pessoa não entenda pelo menos um dos cinco pontos. É difícil imaginar que a pessoa possa entender os outros quatro pontos do calvinismo e negar a expiação limitada. Existe sempre a possibilidade, contudo, da feliz inconsistência pela qual as pessoas sustentam diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.

A doutrina da expiação limitada é tão complexa que, para tratá-la adequadamente, seria preciso um volume completo. Nem mesmo dediquei um capítulo inteiro a ela neste volume, porque um capítulo inteiro não lhe faria justiça. Eu pensei em não mencioná-la de todo, porque existe o perigo de que dizer pouco sobre ela seja pior do que não dizer nada. Mas penso que o leitor merece pelo menos um breve resumo da doutrina e assim procederei – com cuidado porque o assunto requer um tratamento mais profundo do que posso conceder aqui.

A questão da expiação limitada tem a ver com a pergunta: “Por quem Cristo morreu? Ele morreu por todos ou somente pelos eleitos?” 

Todos concordamos que o valor da expiação de Cristo foi suficientemente grande para cobrir os pecados de todos os seres humanos. Também concordamos que sua expiação é verdadeiramente oferecida a todos os seres humanos. Qualquer pessoa que coloca sua confiança na morte expiatória de Jesus Cristo certamente receberá os completos benefícios dessa propiciação. Estamos também confiantes de que, qualquer que responde à oferta universal do Evangelho será salvo.

A questão é: “Para quem a expiação foi designada?” 

Deus mandou Jesus ao mundo meramente para tornar a salvação possível às pessoas? Ou Deus tinha alguma coisa mais definida em mente? (Roger Nicole, o eminente teólogo batista, prefere chamar a expiação limitada de “Expiação Definida”).

Alguns argumentam que tudo o que expiação limitada significa é que os benefícios da expiação são limitados aos crentes que satisfazem as condições necessárias de fé. Isto é, embora a expiação de Cristo fosse suficiente para cobrir os pecados de todos os homens e para satisfazer a justiça de Deus contra todo pecado, ela efetiva a salvação somente para os crentes. A fórmula diz: Suficiente para todos, eficiente somente para os eleitos.

Esse ponto simplesmente serve para nos distinguir dos universalistas, que crêem que a expiação assegurou salvação para todos. A doutrina da expiação limitada vai além disso. Refere-se à questão mais profunda da intenção do Pai e do Filho na cruz. Declara que a missão e morte de Jesus foi restrita a um número limitado — a seu povo, suas ovelhas.

Jesus foi chamado de “Jesus” porque Ele salvaria seu povo de seus pecados (Mt 1.21). O Bom Pastor dá sua vida pelas ovelhas (Jo 10.15). Essas passagens são encontradas freqüentemente no Novo Testamento.

A missão de Cristo era de salvar os eleitos. “E a vontade de quem me enviou é esta: Que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.39).

Não tivesse havido um número fixo de contemplados por Deus quando Ele designou que Cristo morresse, então os efeitos da morte de Cristo teriam sido incertos. E possível que a missão de Cristo tivesse sido uma tristeza e completo fracasso.

A propiciação de Jesus e sua intercessão são obras conjuntas de seu sumo sacerdócio. Ele explicitamente exclui os não eleitos de sua grande oração sumo sacerdotal: “…não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus…” (Jo 17.9). Cristo morreu por aqueles por quem Ele não orou?

A questão essencial aqui diz respeito à natureza da oferta de Jesus. A oferta de Jesus inclui tanto expiação quanto a propiciação. Expiação envolve a remoção que Cristo faz de nossos pecados “para fora” (ex) de nós. Propiciação envolve uma satisfação pelo pecado “perante ou na presença de” (pro) Deus.

O arminianismo tem uma oferta que é limitada em valor. Não cobre o pecado dos incrédulos. Se Jesus morreu por todos os pecados de todos os homens, se Ele expiou todos os nossos pecados e propiciou todos os nossos pecados, então todos seriam salvos. Uma oferta potencial não é uma oferta verdadeira. Jesus realmente fez oferta pelos pecados de suas ovelhas.

O maior problema com a expiação definida ou limitada é encontrado nas passagens que as Escrituras usam referentes à morte de Cristo “por todos” ou pelo “mundo todo”. O mundo por quem Cristo morreu não pode significar a família humana inteira. Deve referir-se à universalidade dos eleitos (povo de todas as tribos e nações), ou à inclusão dos gentios em acréscimo ao mundo dos judeus. Foi um judeu que escreveu que Jesus não morreu meramente por nossos pecados, mas pelos pecados do mundo todo. Será que a palavra nossos refere-se aos crentes ou aos judeus crentes?

Precisamos nos lembrar de que um dos pontos cardeais do Novo Testamento refere-se à inclusão dos gentios no plano da salvação de Deus. A salvação era dos judeus, mas não restrita aos judeus. Onde quer que seja dito que Cristo morreu por todos, algum limite precisa ser acrescentado, ou a conclusão teria de ser o universalismo ou a mera expiação potencial.

A expiação de Cristo foi real. Ela efetivava tudo o que Deus e Cristo pretendiam dela. O desígnio de Deus não foi e não pode ser frustrado pela incredulidade humana. O Deus soberano soberanamente enviou seu Filho para propiciar pelo seu povo.

Nossa eleição é em Cristo. Somos salvos por Ele, nele e para Ele. O motivo para nossa salvação não é meramente o amor que Deus tem por nós. É especialmente baseada no amor que o Pai tem pelo Filho. Deus insiste que seu Filho verá o trabalho de sua alma e ficará satisfeito. Nunca houve a menor possibilidade de que Cristo pudesse ter morrido em vão. Se o homem está verdadeiramente morto no pecado e preso ao pecado, uma mera expiação potencial ou condicional não somente pode ter acabado em fracasso, como muito certamente teria acabado em fracasso.

Os arminianos não têm razão verdadeira para crer que Jesus não morreu em vão. São deixados com um Cristo que tentou salvar a todos, mas na realidade não salvou ninguém.