A Missiologia no Livro de Rute – Tiago H. Souza

Rute colhendo espigas no campo de Boaz, o resgatador.INTRODUÇÃO:

       – O livro de Rute tem seu destaque entre os livros do Antigo Testamento. Não é difícil explicar a atração exercida por esse breve livro.  A história contada no livro de Rute tem gerado varias opiniões entre os estudiosos. Alguns a vem como um simples romance, outros asseveram que de fato o evento aconteceu, mas todos concordam que Yahweh  intervém na história e surpreende a todos colocando uma moabita como descendente abraâmica. O autor dedicou  grande esforço para tornar seu livro em uma obra de arte,e é evidente que teve o propósito de que fosse aceito como histórico. É uma historia verdadeira, contada com beleza, seguindo o estilo das narrativas  patriarcais, em que aparecem alguns dos mesmos temas, como a fome, o exílio e a esterilidade, mediante o qual Yahweh se torna conhecido. Como que em uma novela, o livro de Rute apresenta um estilo altamente artístico em sua estrutura. Nessa historia, um enredo desenvolve-se em certo numero de episodio até atingir um desfecho e assim comunicar uma lição que os leitores devem interpretar.

            O livro de Rute nos relata o soberana intervenção de Deus sobre a história e sobre o tempo, demonstrando que suas promessas e bênçãos podem vir ao seu povo da maneira mais improvável. A fidelidade de Deus em Rute é vista quando este Deus faz de uma tragédia em Moabe uma benção para seu povo em Belém, incluindo uma pagã na linhagem direta do Rei Davi.

 

Titulo: 

– O nome “Rute” significa “amizade”, uma característica verdadeira daquela que deu o nome ao livro. É um dos seis livros históricos que levam o nome das principais figuras de ação e vida descritas neles (Josué, Rute,Samuel,Esdras,Neemias e Ester) É um dos dois livros bíblicos que levam o nome de uma mulher: Rute(a gentia que se casou com um rico judeu de linhagem real da promessa) e Ester (a judia que se casou com um rei gentio).

 

Autoria: 

– O livro não fornece nenhum indicio quanto á identidade do autor. A tradição judaica atribui a autoria do livro a Samuel, mas Samuel morreu antes de Davi se tornar Rei (1 Samuel 28:3). O mais provável é que o autor tenha sido um mestre-narrador, comissionado pela família real, para registrar a soberana intervenção de Deus na constituição da árvore genealógica real.

 

Data:

– Estudiosos da linha mais radical defendem uma data mais recente para o livro, argumentando que o uso de tradições deutoronomicas aponta para uma data posterior ao reinado de Josias (640-609 a.C). Outros poucos têm defendido a data do livro como próximo a era monárquica, o que é coerente com o conhecimento dos fatos relatados no livro e a ausência do nome de Salomão na genealogia.

 

 Contexto Histórico:

 O fato ocorrido no livro de Rute tem como pano de fundo o período dos juízes (1.1), um tempo de apostasia, desordem moral e social entre o povo. Em consonância com as maldições da aliança, uma terrível fome assolou a terra fazendo uma família efratita a peregrinarem em busca de pão chegando assim a uma terra chamada Moabe.

 

A Teologia de Rute: 

– A entrada de Rute na nação da aliança com todos os privilégios desta foi pronunciada pela posição dela como viúva estrangeira que, em uma época de necessidade desesperadora, foi salva de sua desesperança por um redentor que  pagou a hipoteca da propriedade da sogra dela, ao mesmo tempo, tomou a jovem como esposa. Não há dúvida de que Rute, apesar de sua etnia, serve como modelo de graça redentora de Deus. Desde o princípio, Deus tinha o propósito de produzir uma semente de Abraão que não só modelaria a natureza e o etos do Reino do Senhor, mas que também atrairia as nações da terra a o buscar e o encontrar, tornando-se, assim servos Dele.

A Missiológia de Rute:

Como em vários outros livros do Antigo Testamento, Rute quer evidenciar o chamado de Deus para outras nações. No caso de Rute, Moabe é representada por Rute que é inclusa em Israel por intermédio da sua lealdade a sua sogra Noemi e sua disposição em se casar com Boaz, cuja hombridade trouxe segurança para Noemi. A mensagem Missional tem como objetivo ligar Davi a aliança abraâmica via a moabita e pagã Rute, que por sua vez, tornar-se-ia bisavó de Davi e ancestral direta de Cristo. O livro é um tiro contra o atnocentrismo hebreu, destacando a soberania de Deus em causar fatos e até mesmo tragédias em prol de salvar seus escolhidos, que no caso de Rute, estava alem dos limites étnicos de Israel.

 

 Contribuições singulares de Rute: 

1-    A Missão das Mulheres:

Dois livros do antigo Testamento têm nome de mulher: Rute, no início da história de Israel em Canaã, e Ester, no término da história de Israel do antigo Testamento. Rute foi umas das mulheres mais preeminentes no período inicial dos juízes. Outras foram Débora, Jael ,  a filha de Jefté e a mãe de Sansão. No livro de Rute, a simpatia de Noemi em difíceis provações traz sua nora para o Deus de Israel. O amor de Rute transcende laços raciais, e as duas virtuosas mulheres cumprem a lei dos judeus. Assim fazendo, contribuem para o nascimento de Davi, o grande rei salmista. O autor achou o relato da vida de duas nobres mulheres merecia um lugar na história de Israel, juntamente com as historias de grandes homens Israelitas.

 

2-    Fé dos gentios no Antigo Testamento (1:6):

A declaração de fé realizada por Rute é um clássico do Antigo Testamento: “O teu povo é meu povo, o teu Deus é o meu Deus”. Embora não seja a primeira conversão de gentios registrada no antigo Testamento, a conversão de Rute é a mais detalhada e famosa. Apresenta também um contraste interessante com a conversão de sua segunda sogra, Raabe. Enquanto a de Raabe é apresentada como uma reação ao medo do julgamento que viria, a de Rute é uma reação ao amor (Josué 2:9-13; Rute 1:16). O Senhor usa tanto o amor como o medo para ativar a fé de gentios no Antigo Testamento.

 

3-    A Providencia em Meio a Tragédia de Uma Família:

Rute é o único livro da Bíblia que focaliza as provações e dificuldades de uma única família, em vez de uma tribo ou nação numa perspectiva maior. O livro trata de uma viúva de Israel, atingida pelo triplo infortúnio de haver perdido o esposo e os dois filhos, depois de a fome te-la forçado, a ela e à família, a sair de Belém. Como o livro de Ester, essa história demonstra como Deus age na infelicidade a fim de cuidar dos seus fiéis em tempos mais difíceis, e como Ele fez com aquelas provações contribuíssem para o nascimento de Davi e, mais tarde, para a vinda do Messias.

 

4-    A Relação dos Moabitas com Davi e o Messias (4:18-22):

Embora os moabitas fossem descendentes de Ló e sua filha (por incesto) e fossem, portanto, primo de Israel, foi-lhes negada entrada na congregação israelita “até a décima geração” em virtude de sua hostilidade para com os judeus quando eles saíram do Egito (Deuteronômio 23:3-6). Por que, então, Rute foi bem recebida por Israel dentro de duas ou três gerações? Evidentemente aquela lei aplicava-se aos homens moabitas e não às mulheres, de modo semelhante ao regulamento registrado em Deuteronômio 21:10-13 acerca da mulher moabita enfatiza que, embora a linhagem de Davi e do Messias fosse formada apenas de hebreus pelo lado paterno, ela inclui muitas mulheres gentias. Tamar e Raabe eram cananéias, Rute moabita e Naamá, mãe de Roboão, amonita. O Messias realmente veio de extensa gama de nacionalidades pela linhagem materna.

 

5-    Rute: Meditação de Israel para o Pentecoste:

Esse livro era lido anualmente pela nação, em público, quando se reuniam para a festa de verão do pentecoste. A colheita lembra-os da colheita anterior de cevada dada por Deus e da recompensa do culto de amor que ainda viria. Do mesmo modo que o Pentecoste comemorava a primeira safra, a leitura de Rute recordava  a colheita das primícias dos gentios.  Lembrando que o Pentecoste do Novo Testamento comemora as primícias da colheita divina na Igreja, sendo gentios muitos desses crentes.

6-    Cristologia em Rute:

Há duas referencias básicas a Cristo no livro de Rute, ambas relativas a Boaz:

a-    Deduz-se que Boaz seja um tipo de Cristo como um parente redentor, qualificado e disposto a redimir o seu povo. É esse um aspecto da obra de Cristo ilustrado aqui. A expressão “resgatar” é usada seis vezes em Rute. Como redentor do crente, Cristo torna-se o seu Redentor para pagar todas as dívidas, seu Defensor para defendê-lo de todos os adversários, seu Mediador para conseguir reconciliação, e seu Noivo para união e comunhão perpétua.

 b-    O nome de Boaz esta registrado em todas as genealogias de Jesus, mas somente em Mateus 1:5 Rute também é mencionada. Nesta genealogia Mateus menciona de propósito o nome de Rute e de três outras mulheres estrangeiras. O ponto cristológico parece ter o objetivo de enfatizar a ampla genealogia internacional do Messias que viria trazer salvação para todas as nações. Ele não veio como um simples “Salvador” local.

 

 

A Relação Missiológica entre Rute e Gálatas 3:8

– Paulo escreve a Carta aos Gálatas para contrapor-se aos falsos mestres judaizantes que estavam abalando a doutrina central do Novo Testamento da justificação pela fé, Ignorando o decreto expresso no concilio de Jerusalém (At.15:23-29). Eles espalhavam o perigoso ensino de que os gentios deveriam primeiro, torna-se prosélitos judeus e submeter-se a todas as leis mosaicas antes de poderem se tornar Cristãos. Chocado com a receptividade dos gálatas a essa heresia demoníaca, Paulo escreveu essa carta a fim de defender a justificação pela fé e advertir essas igrejas a respeito das terríveis conseqüências de abandonar a doutrina essencial do qual já vinha sendo revelada. Em meio a sua argumentação para refutar a heresia da salvação por obras, Paulo trás a perfeita interpretação da Palavra de Deus dada a Abraão em Genesis 12:3, iluminando assim os gálatas e os advertindo que a salvação é somente pela fé, ocasionando a salvação de todos os povos.

– Quando Gálatas 3:8 se refere “… prenunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos da terra”, Paulo tem em mente que: Abraão sendo o primeiro a depositar fé nessa promessa, ele se torna tanto o patriarca daqueles que haveriam de crer, quanto o patriarca genético de Cristo. Ou seja, o que Paulo esta afirmando é que qualquer gentio de qualquer período do tempo pode ser salvo porque tal salvação é obtida mediante a fé em Cristo que foi da linhagem direta de Abraão, o pai da fé.

 – A Palavra abençoados (eveylogeo) é um verbo indicativo (ele indica uma certeza) na voz passiva (sofre ação). Gramaticalmente podemos afirmar então que todos os povos da terra de fato serão o alvo da benção de Deus depositada em Abraão. Por isso o verbo esta no tempo futuro, pois Paulo esta usando a passagem do Antigo Testamento para confirmar que a benção da justificação pela fé seria pregada as nações após Deus ter abençoado a Abraão.

– No caso de Rute podemos observar sua entrada na aliança não tão somente via o casamento com Boaz, mas crendo no Deus de Israel como sendo o seu Deus (Rute 1:16) e tendo total devoção a Ele chamando-O de Senhor. Rute creu em Deus da mesma forma que Abraão creu e a justiça também foi lhe imputada pela fé. A justificação pela fé em Rute esta em harmonia com os decretos divinos estabelecidos em Genesis 12:3 que tem como alvo a salvação não de um povo, mas de todos os povos. A devoção e a demonstração de fé exercida por Noemi fez com que Rute cresse no Deus da sua sogra, crendo aceitou ser também parte do povo Dele.

– Rute é um exemplo da forma que Deus salva os gentios em toda história. A maneira é a mesma: justificação pela fé.

 

 Considerações Finais:

   – Fica evidente no livro de Rute o propósito de Deus em relação aos povos da terra. Deus quer que eles o conheçam que o busque e que se torne seu povo. Rute deixa clara a manifestação de Deus em salvar seus escolhidos que estão fora dos limites étnicos de Israel. Rute, o moabita é um exemplo da disposição e fé que os gentios devem ter em relação ao Deus que é Senhor de todos os povos, o Deus que merece ser louvado por todos os povos (Salmos 67:3).

  – Assim, devemos levar o conhecimento de Deus as nações e povos da terra, do qual são alvos do amor de Deus e da promessa feita a Abraão onde “ …em ti serão abençoadas todas as famílias da terra ”(Genesis 12:3).

– Rute nos faz saber que os gentios são tão preciosos para Deus que Ele mesmo fez questão de colocá-los na linhagem e genealogia direta de Davi (4:18) do qual foi ancestral direto do Messias, o salvador de todos os homens.

 

Tiago H. Souza

 

 

Livros consultados:

MERRILL, Eugene H. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009

 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006.

 ALLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1999. 

EVERY-CLAYTON, Joyce Elizabeth W. Rute. Curitiba e Belo Horizonte: Missão Editora e Encontrão Editora, 1993.

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