A Missiologia no Livro de Rute – Tiago H. Souza

Rute colhendo espigas no campo de Boaz, o resgatador.INTRODUÇÃO:

       – O livro de Rute tem seu destaque entre os livros do Antigo Testamento. Não é difícil explicar a atração exercida por esse breve livro.  A história contada no livro de Rute tem gerado varias opiniões entre os estudiosos. Alguns a vem como um simples romance, outros asseveram que de fato o evento aconteceu, mas todos concordam que Yahweh  intervém na história e surpreende a todos colocando uma moabita como descendente abraâmica. O autor dedicou  grande esforço para tornar seu livro em uma obra de arte,e é evidente que teve o propósito de que fosse aceito como histórico. É uma historia verdadeira, contada com beleza, seguindo o estilo das narrativas  patriarcais, em que aparecem alguns dos mesmos temas, como a fome, o exílio e a esterilidade, mediante o qual Yahweh se torna conhecido. Como que em uma novela, o livro de Rute apresenta um estilo altamente artístico em sua estrutura. Nessa historia, um enredo desenvolve-se em certo numero de episodio até atingir um desfecho e assim comunicar uma lição que os leitores devem interpretar.

            O livro de Rute nos relata o soberana intervenção de Deus sobre a história e sobre o tempo, demonstrando que suas promessas e bênçãos podem vir ao seu povo da maneira mais improvável. A fidelidade de Deus em Rute é vista quando este Deus faz de uma tragédia em Moabe uma benção para seu povo em Belém, incluindo uma pagã na linhagem direta do Rei Davi.

 

Titulo: 

– O nome “Rute” significa “amizade”, uma característica verdadeira daquela que deu o nome ao livro. É um dos seis livros históricos que levam o nome das principais figuras de ação e vida descritas neles (Josué, Rute,Samuel,Esdras,Neemias e Ester) É um dos dois livros bíblicos que levam o nome de uma mulher: Rute(a gentia que se casou com um rico judeu de linhagem real da promessa) e Ester (a judia que se casou com um rei gentio).

 

Autoria: 

– O livro não fornece nenhum indicio quanto á identidade do autor. A tradição judaica atribui a autoria do livro a Samuel, mas Samuel morreu antes de Davi se tornar Rei (1 Samuel 28:3). O mais provável é que o autor tenha sido um mestre-narrador, comissionado pela família real, para registrar a soberana intervenção de Deus na constituição da árvore genealógica real.

 

Data:

– Estudiosos da linha mais radical defendem uma data mais recente para o livro, argumentando que o uso de tradições deutoronomicas aponta para uma data posterior ao reinado de Josias (640-609 a.C). Outros poucos têm defendido a data do livro como próximo a era monárquica, o que é coerente com o conhecimento dos fatos relatados no livro e a ausência do nome de Salomão na genealogia.

 

 Contexto Histórico:

 O fato ocorrido no livro de Rute tem como pano de fundo o período dos juízes (1.1), um tempo de apostasia, desordem moral e social entre o povo. Em consonância com as maldições da aliança, uma terrível fome assolou a terra fazendo uma família efratita a peregrinarem em busca de pão chegando assim a uma terra chamada Moabe.

 

A Teologia de Rute: 

– A entrada de Rute na nação da aliança com todos os privilégios desta foi pronunciada pela posição dela como viúva estrangeira que, em uma época de necessidade desesperadora, foi salva de sua desesperança por um redentor que  pagou a hipoteca da propriedade da sogra dela, ao mesmo tempo, tomou a jovem como esposa. Não há dúvida de que Rute, apesar de sua etnia, serve como modelo de graça redentora de Deus. Desde o princípio, Deus tinha o propósito de produzir uma semente de Abraão que não só modelaria a natureza e o etos do Reino do Senhor, mas que também atrairia as nações da terra a o buscar e o encontrar, tornando-se, assim servos Dele.

A Missiológia de Rute:

Como em vários outros livros do Antigo Testamento, Rute quer evidenciar o chamado de Deus para outras nações. No caso de Rute, Moabe é representada por Rute que é inclusa em Israel por intermédio da sua lealdade a sua sogra Noemi e sua disposição em se casar com Boaz, cuja hombridade trouxe segurança para Noemi. A mensagem Missional tem como objetivo ligar Davi a aliança abraâmica via a moabita e pagã Rute, que por sua vez, tornar-se-ia bisavó de Davi e ancestral direta de Cristo. O livro é um tiro contra o atnocentrismo hebreu, destacando a soberania de Deus em causar fatos e até mesmo tragédias em prol de salvar seus escolhidos, que no caso de Rute, estava alem dos limites étnicos de Israel.

 

 Contribuições singulares de Rute: 

1-    A Missão das Mulheres:

Dois livros do antigo Testamento têm nome de mulher: Rute, no início da história de Israel em Canaã, e Ester, no término da história de Israel do antigo Testamento. Rute foi umas das mulheres mais preeminentes no período inicial dos juízes. Outras foram Débora, Jael ,  a filha de Jefté e a mãe de Sansão. No livro de Rute, a simpatia de Noemi em difíceis provações traz sua nora para o Deus de Israel. O amor de Rute transcende laços raciais, e as duas virtuosas mulheres cumprem a lei dos judeus. Assim fazendo, contribuem para o nascimento de Davi, o grande rei salmista. O autor achou o relato da vida de duas nobres mulheres merecia um lugar na história de Israel, juntamente com as historias de grandes homens Israelitas.

 

2-    Fé dos gentios no Antigo Testamento (1:6):

A declaração de fé realizada por Rute é um clássico do Antigo Testamento: “O teu povo é meu povo, o teu Deus é o meu Deus”. Embora não seja a primeira conversão de gentios registrada no antigo Testamento, a conversão de Rute é a mais detalhada e famosa. Apresenta também um contraste interessante com a conversão de sua segunda sogra, Raabe. Enquanto a de Raabe é apresentada como uma reação ao medo do julgamento que viria, a de Rute é uma reação ao amor (Josué 2:9-13; Rute 1:16). O Senhor usa tanto o amor como o medo para ativar a fé de gentios no Antigo Testamento.

 

3-    A Providencia em Meio a Tragédia de Uma Família:

Rute é o único livro da Bíblia que focaliza as provações e dificuldades de uma única família, em vez de uma tribo ou nação numa perspectiva maior. O livro trata de uma viúva de Israel, atingida pelo triplo infortúnio de haver perdido o esposo e os dois filhos, depois de a fome te-la forçado, a ela e à família, a sair de Belém. Como o livro de Ester, essa história demonstra como Deus age na infelicidade a fim de cuidar dos seus fiéis em tempos mais difíceis, e como Ele fez com aquelas provações contribuíssem para o nascimento de Davi e, mais tarde, para a vinda do Messias.

 

4-    A Relação dos Moabitas com Davi e o Messias (4:18-22):

Embora os moabitas fossem descendentes de Ló e sua filha (por incesto) e fossem, portanto, primo de Israel, foi-lhes negada entrada na congregação israelita “até a décima geração” em virtude de sua hostilidade para com os judeus quando eles saíram do Egito (Deuteronômio 23:3-6). Por que, então, Rute foi bem recebida por Israel dentro de duas ou três gerações? Evidentemente aquela lei aplicava-se aos homens moabitas e não às mulheres, de modo semelhante ao regulamento registrado em Deuteronômio 21:10-13 acerca da mulher moabita enfatiza que, embora a linhagem de Davi e do Messias fosse formada apenas de hebreus pelo lado paterno, ela inclui muitas mulheres gentias. Tamar e Raabe eram cananéias, Rute moabita e Naamá, mãe de Roboão, amonita. O Messias realmente veio de extensa gama de nacionalidades pela linhagem materna.

 

5-    Rute: Meditação de Israel para o Pentecoste:

Esse livro era lido anualmente pela nação, em público, quando se reuniam para a festa de verão do pentecoste. A colheita lembra-os da colheita anterior de cevada dada por Deus e da recompensa do culto de amor que ainda viria. Do mesmo modo que o Pentecoste comemorava a primeira safra, a leitura de Rute recordava  a colheita das primícias dos gentios.  Lembrando que o Pentecoste do Novo Testamento comemora as primícias da colheita divina na Igreja, sendo gentios muitos desses crentes.

6-    Cristologia em Rute:

Há duas referencias básicas a Cristo no livro de Rute, ambas relativas a Boaz:

a-    Deduz-se que Boaz seja um tipo de Cristo como um parente redentor, qualificado e disposto a redimir o seu povo. É esse um aspecto da obra de Cristo ilustrado aqui. A expressão “resgatar” é usada seis vezes em Rute. Como redentor do crente, Cristo torna-se o seu Redentor para pagar todas as dívidas, seu Defensor para defendê-lo de todos os adversários, seu Mediador para conseguir reconciliação, e seu Noivo para união e comunhão perpétua.

 b-    O nome de Boaz esta registrado em todas as genealogias de Jesus, mas somente em Mateus 1:5 Rute também é mencionada. Nesta genealogia Mateus menciona de propósito o nome de Rute e de três outras mulheres estrangeiras. O ponto cristológico parece ter o objetivo de enfatizar a ampla genealogia internacional do Messias que viria trazer salvação para todas as nações. Ele não veio como um simples “Salvador” local.

 

 

A Relação Missiológica entre Rute e Gálatas 3:8

– Paulo escreve a Carta aos Gálatas para contrapor-se aos falsos mestres judaizantes que estavam abalando a doutrina central do Novo Testamento da justificação pela fé, Ignorando o decreto expresso no concilio de Jerusalém (At.15:23-29). Eles espalhavam o perigoso ensino de que os gentios deveriam primeiro, torna-se prosélitos judeus e submeter-se a todas as leis mosaicas antes de poderem se tornar Cristãos. Chocado com a receptividade dos gálatas a essa heresia demoníaca, Paulo escreveu essa carta a fim de defender a justificação pela fé e advertir essas igrejas a respeito das terríveis conseqüências de abandonar a doutrina essencial do qual já vinha sendo revelada. Em meio a sua argumentação para refutar a heresia da salvação por obras, Paulo trás a perfeita interpretação da Palavra de Deus dada a Abraão em Genesis 12:3, iluminando assim os gálatas e os advertindo que a salvação é somente pela fé, ocasionando a salvação de todos os povos.

– Quando Gálatas 3:8 se refere “… prenunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos da terra”, Paulo tem em mente que: Abraão sendo o primeiro a depositar fé nessa promessa, ele se torna tanto o patriarca daqueles que haveriam de crer, quanto o patriarca genético de Cristo. Ou seja, o que Paulo esta afirmando é que qualquer gentio de qualquer período do tempo pode ser salvo porque tal salvação é obtida mediante a fé em Cristo que foi da linhagem direta de Abraão, o pai da fé.

 – A Palavra abençoados (eveylogeo) é um verbo indicativo (ele indica uma certeza) na voz passiva (sofre ação). Gramaticalmente podemos afirmar então que todos os povos da terra de fato serão o alvo da benção de Deus depositada em Abraão. Por isso o verbo esta no tempo futuro, pois Paulo esta usando a passagem do Antigo Testamento para confirmar que a benção da justificação pela fé seria pregada as nações após Deus ter abençoado a Abraão.

– No caso de Rute podemos observar sua entrada na aliança não tão somente via o casamento com Boaz, mas crendo no Deus de Israel como sendo o seu Deus (Rute 1:16) e tendo total devoção a Ele chamando-O de Senhor. Rute creu em Deus da mesma forma que Abraão creu e a justiça também foi lhe imputada pela fé. A justificação pela fé em Rute esta em harmonia com os decretos divinos estabelecidos em Genesis 12:3 que tem como alvo a salvação não de um povo, mas de todos os povos. A devoção e a demonstração de fé exercida por Noemi fez com que Rute cresse no Deus da sua sogra, crendo aceitou ser também parte do povo Dele.

– Rute é um exemplo da forma que Deus salva os gentios em toda história. A maneira é a mesma: justificação pela fé.

 

 Considerações Finais:

   – Fica evidente no livro de Rute o propósito de Deus em relação aos povos da terra. Deus quer que eles o conheçam que o busque e que se torne seu povo. Rute deixa clara a manifestação de Deus em salvar seus escolhidos que estão fora dos limites étnicos de Israel. Rute, o moabita é um exemplo da disposição e fé que os gentios devem ter em relação ao Deus que é Senhor de todos os povos, o Deus que merece ser louvado por todos os povos (Salmos 67:3).

  – Assim, devemos levar o conhecimento de Deus as nações e povos da terra, do qual são alvos do amor de Deus e da promessa feita a Abraão onde “ …em ti serão abençoadas todas as famílias da terra ”(Genesis 12:3).

– Rute nos faz saber que os gentios são tão preciosos para Deus que Ele mesmo fez questão de colocá-los na linhagem e genealogia direta de Davi (4:18) do qual foi ancestral direto do Messias, o salvador de todos os homens.

 

Tiago H. Souza

 

 

Livros consultados:

MERRILL, Eugene H. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009

 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006.

 ALLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1999. 

EVERY-CLAYTON, Joyce Elizabeth W. Rute. Curitiba e Belo Horizonte: Missão Editora e Encontrão Editora, 1993.

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Predestinação, Uma ação de Deus que nos leva a Glorificar o Seu Nome – Tiago H. Souza

Predestinação, Uma ação de Deus que nos leva a Glorificar o Seu Nome.

  Uma breve análise de Romanos 9 – 11.

 

Definições:

 Predestinação: Predestinar é determinar previamente o destino. A palavra proorizõ significa “marcar com antecedência”. Biblicamente esta limitada ao povo eleito e assegura sua posição presente e futura.

Eleição: A eleição enfatiza a livre escolha de indivíduos para a salvação. Quando Paulo usa o verbo no original, ele o faz o na voz média, indicando que a escolha de Deus feita livremente é para seus próprios propósitos.

Introdução

Ao observar o livro de Romanos rapidamente nos apaixonamos por ele. Suas colocações sobre o pecado, o homem e a intervenção divina são colocadas de uma forma tão maravilhosa que temos a impressão de que estamos sentados em uma sala de aula enquanto Paulo nos da aquela saborosa aula de sistemática.

Paulo nos apresenta temas como:

– O Evangelho como justiça (1.1-17)

– Ira sobre todo o que peca (1.18-3.20)

– A justiça salvífica de Deus para todo o que crê (3.21-4.25)

– A vida dos justificados mediante a fé (5.1-8.39)

– Deus decide quem integra seu povo (9.1-11.36)

– As implicações do evangelho para a igreja de Roma (12.1-15.13).

É no livro de Romanos que esta, provavelmente, o mais forte texto sobre predestinação e soberania de Deus de toda a bíblia. O texto se encontra entre os versos 9.1 ao 11.36 e tem feito muitos teólogos a gastarem horas e horas no estudo dessa passagem que, admito, não é fácil sua interpretação.

Predestinação tem causado rixas, rachas e discussões há séculos. Talvez nenhum outro tema dentro da linha protestante é tão discutido quanto a predestinação. Dentro de seminários e conferencias que participei esse é o assunto mais assíduo e comentado dentre os estudantes e professores. Mas, embora o assunto seja controverso, podemos descartá-lo e considerá-lo não bíblico? Será que podemos arrancar a expressão da nossa bíblia ou trocá-la por outra menos conflitante? Com toda certeza não. Pois foi através da predestinação que Deus conduziu o seu povo para adoração.

 

 

A exposição de Paulo sobre a soberania de Deus em Rejeitar Israel (9:1-5)

 

O que estava acontecendo com Israel?

 

– Paulo derrama sua alma nesses primeiros versículos, ele sabe do peso em tratar esse assunto com os romanos acerca de seu próprio povo (judeus).

– Ele absorveu o espírito de auto-sacrificio de seu Senhor, mas sabia que nada poderia lhe separar do amor de Cristo. Por isso ele usa uma expressão hipotética de que ele preferia ser considerado “anátema” , algo impossível para aqueles que de fato estão em Cristo.

– Ele lista 9 itens exclusivos de Israel para lembrar o tanto que Deus se manifestou entre eles:

1- são israelita

2– sua é a adoção

3– a glória

4– as alianças

5– a legislação

6– o culto

7– as promessas

8 – seus são os pais (Abraão, Isaque e Jacó)

9– procede deles a natureza humana de Cristo.

– O que Paulo fala nesses versículos é: “entristece-me profundamente saber, que Deus ricamente os abençoou com inúmeras vantagens, e ainda vocês, oh Israel, tem fracassado em corresponder a Ele.”

– Como essa reação negativa pode ser explicada? O que será do povo de Deus? Deus rejeitou totalmente a Israel?

  

 

  O Israel dentro do Israel 9:6-13

– Paulo agora começa a tratar mais afundo sobre a soberana escolha de Deus dentro da nação. É de suma importância para Paulo destacar a soberania de Deus e a infidelidade do povo como causa de sua rejeição.

– Ele começa sua argumentação no vers.6 dizendo que “nem todos de Israel são, de fato, Israelitas.” Aqui Paulo vai ao âmago do assunto. Ele não faz rodeios para amenizar a mensagem. Ele abriu o assunto destacando a identidade e linhagem espiritual de Abraão.

– Os Filhos da carne de Abraão (sua linhagem sanguínea) obviamente têm Abraão como ancestral, mas não como pai, pois Abraão só pode ser pai daqueles que são seus filhos na promessa e o texto diz que nem todoso são.

– Começando com o primeiro filho da promessa, Isaque, Paulo traça o primeiro herdeiro da promessa da salvação e, obviamente ao fazer isso, denota a rejeição de Ismael.

– Da mesma forma, Paulo acentua a escolha de Deus a Jacó e a rejeição a Esaú expondo que a eleição é dada para aqueles que foram predestinados para a promessa excluindo assim toda possibilidade dessa escolha divina estar focada nas obras, pois o texto enfatiza que os meninos não eram nascidos e nem tinham ainda praticado o mal.

– A idéia aqui é expor a soberana escolha de Deus na eleição antes mesmo da vida humana cometer algum delito. Isso nos leva a uma conclusão lógica que não podemos ser eleitos pela obediência ou reprovados por nossa impiedade já que, por exemplo, postura ímpia em Jacó não faltou, mas somos eleitos para a obediência.

Segue uma ilustração da idéia de Paulo:Ilustração da ideia de Paulo

A liberdade de Deus em Sua escolha (9:14-23)

 

– Conta-se que ao ser indagado pela doutrina da eleição, Martinho Lutero simplesmente respondeu: Deixe Deus ser Deus! É exatamente isso que os versículos 14 ao 23 está falando. A livre escolha de Deus não O rebaixa, ou O faz injusto. A livre escolha de Deus na eleição de indivíduos revela a sua natureza: Ele é Deus. Ele faz o que quer, quando quer e com quem deseja. Ele é a única pessoa livre para isso.  A.W. Tozer falando sobre a Soberania de Deus diz: “ a soberania de Deus exige que Ele seja totalmente livre para fazer aquilo que lhe apraz em qualquer lugar ou qualquer tempo e desempenhar o Seu propósito eterno em cada detalhe, sem a mínima interferência. Se fosse menos que livre seria menos que soberano.”

–  Deus revela seu poder na eleição dizendo:  “Terei misericórdia de quem Eu quiser ter misericórdia”. Essa afirmação destaca a autoridade de sua vontade. Essa autoridade humilha os homens, fere seu orgulho e o faz reconhecer que a salvação provem unicamente da parte de Deus mediante a sua soberana vontade.

– Deus não é injusto, pois ele não fere os direitos do homem. Uma vez que todos os homens estavam condenados  e mereciam ao inferno (Romanos 3:23) , inclusive os eleitos, não há injustiça de Deus em eleger alguns para a salvação. A eleição esta no âmbito da glorificação de Deus. O individuo eleito é somente um sujeito beneficiado de uma ação que vem de Deus para o próprio Deus. Somos eleitos para adorar aquele que nos elegeu.

– Ele não só elege quem o quer, mas também endurece o coração daqueles do qual não foram eleitos, para que de toda maneira não venham a conhecê-lo. Essa ação de Deus mostra ainda mais a incapacidade do homem (não eleito) de chegar a salvação por méritos próprios quando este se encontra fora da vontade  para a eleição e agora ainda mais com o coração endurecido pelo próprio Deus.

– Paulo também ressalta o pequinês do homem quando este questiona a Deus por suas escolhas. E para mostrar o quão débil o homem é em discutir a eleição com Deus, Paulo apela na comparação do homem (criatura) com o próprio Deus (criador).

– Os vers. 22 e 23 nos expõe a ira de Deus na condenação dos não eleitos em contraste com sua misericórdia na eleição. Ao fazer isso, Paulo chega a conclusão que a graça pode ser manifestada, visível e anunciada quando Deus a derrama em homens que outrora estava condenado a perdição. Ao agraciar o homem com a eleição Deus é glorificado, pois parte Dele o desejo de salvar os homens. Glórias a Deus por isso!

 

 

Deus chama um novo povo! (9:24-29)

 

– Ainda que gramaticalmente os vers. 24 esteja ligado ao 22 e 23, Paulo retorna ao tema da seção: O chamado soberano de Deus!

– Paulo usa as profecias de Oseías e Isaías para defender seus argumentos dos versículos anteriores e preparar os leitores para sua próxima explanação.

– A salvação dos gentios no vers.24 esta ligado com a demonstração de Deus em dar a conhecer a homens a riqueza de sua glória, a salvação.

– Ao demonstrar essa salvação a gentios, Deus mostra que Ele tem um “povo fora do povo”, ou seja, Ele tem seus eleitos fora da nação de Israel.

– Ao revelar sua salvação fora dos limites étnicos de Israel, Deus demonstra com as palavras proféticas de Isaias que somente o remanescente da nação de Israel é que será salvo.

 

 

Justificação pela fé, uma centralidade para a Glória de Deus (9:30-10:21)

 

– Paulo agora apresenta argumentos sobre o estado corrompido de Israel que é a causa (dentro do chamado soberano de Deus) para a inclusão de gentios na linhagem espiritual de Abraão.

– A causa da inclusão de gentios é somente uma: A justificação pela fé!

– A justificação pela fé também é a causa da rejeição de Israel, pois os judeus se tornaram culpados ao tentar acertar seus relacionamentos e situação com Deus com base nas obras, fundamentando a sua esperança de salvação unicamente na lei, do qual eles não conseguiam cumprir.

– Logo, os filhos da promessa são feitos mediante a justificação pela fé, abrindo assim a possibilidade dos gentios se tornarem filhos de Abraão.

 

O Paradoxo da Salvação (9:6-29 – 10:9-13)

– A incredulidade da maioria dos contemporâneos judeus de Paulo se deve tanto a aleição soberana de Deus (9:6-29) quanto a sua recusa em crerem Cristo. Aeleição divina incondicional e a responsabilidade humana se encontram lado a lado, e não se deve de maneira nenhuma, admitir que uma elimine a outra. J.I Parker em seu livro “A evangelização e a Soberania de Deus” aponta esse paradoxo como um “antinômio”, duas verdades que aparentemente são contraditórias, mas que em um plano eterno se encaixam perfeitamente. Uma ilustração usada para isso é as duas linhas do trilho do trem que andam separados uma da outra mas no horizonte distante  aparentam se encontrar e uma linha só.

 

Israel é indesculpável diante de Deus (10:16-21)

 – Paulo nessa seção usa as palavras de Moisés e Isaias para lembrá-los de um fato: Israel já ouvira sobre as promessas de Deus em incluir os gentios como seu povo. E conclui a seção lembrando que Israel (nação) tem tido revelações de Deus, mas este por sua vez se tornou um povo rebelde e contradizente.

 

O Remanescente de Israel (11:1-10)

 – Paulo ressalta que embora muitos da nação de Israel ficaram com um coração endurecido e rebelde contra Deus, há ainda um remanescente dentro da nação (os filhos da promessa) do qual o próprio Paulo faz parte como um eleito.

– Ao manter firme o remascente fiel (que foram também justificados pela fé) Deus cala a boca da nação os impossibilitando de dizer que Deus os abandonou.

– Paulo faz menção as palavras de Isaias comparando o remanescente com os 7 mil homens que não se corromperam a idolatria(1 Reis 19:18). Essa argumentação afirma ainda mais a soberana escolha de Deus em preservar um remanescente em toda a historia de Israel, colocando em descrédito a idéia de que a nação inteira pudesse ser salva por serem tão somente descendentes de Abraão.

 

O Ramos Enxertados 11:11-24

– Nessa seção Paulo aborda a salvação e permanência dos gentios na eleição. Para Paulo os gentios fazem parte de um plano perfeito de Deus onde Israel se torna culpado por rejeitar a Deus concedendo assim salvação para todos os povos.

– Paulo chama os gentios de ramos enxertados, ou seja, eles foram chamados em segundo estante, mediante a rejeição de Israel para ser colocados também como filhos da promessa feita a Abraão.

– Paulo expõe a glória da salvação dos gentios com base na reconciliação deixada pela rejeição de Israel. De fato, se Israel foi instrumento de Deus para reconciliação do mundo, maior ainda será a salvação dos gentios “trazendo vida dentro os mortos”(11:15).

– Paulo admoesta os gentios trazendo luz a rejeição dos ramos naturais (Israel). Paulo quer com isso exortar os gentios e desafiá-los a ficar firmes em seu chamado, lembrando sempre que Deus não poupou os ramos naturais e nem irá poupá-los caso se rebelem contra Deus. Caso isso acontecesse provaria para o próprio rebelado que ele próprio não foi chamado à eleição.

 

O que será da nação de Israel? (11:25:32)

– Os versículos 25 e 26 do cap.11 é uma das passagens mais difíceis de interpretação de toda a seção. Até aqui, Paulo menciona: a escolha soberana de Deus, a rejeição de Israel, a culpa da nação em se rebelar contra Deus e os ramos enxertados na linhagem da promessa.

Agora Paulo volta sua atenção para os propósitos de Deus em relação a salvação de Israel, salvação essa prometida no vers. 26.

– Vários teólogos tem tido sua visão acerca do texto, vejamos duas dessas interpretações:

1João Calvino no seu “Comentário do Livro de Romanos” entende que o “todo Israel” é a soma dos salvos da antiga aliança (remanescentes) com os ramos enxertados (gentios eleitos) destacando assim todo o povo de Deus.

2John Stott no seu comentário “A Mensagem do Livro de Romanos” defende Israel como a nação étnica somente, entendendo que Deus um dia voltará a salvar a nação por meio de alguns representantes eleitos.

 

Minha consideração acerca da passagem:

– Paulo afirma que se Deus pode escolher de forma soberana, e, surpreendente, um grande numero de gentios para integrar seu povo, ele também pode reverter posteriormente essa situação e voltar a escolher um grande numero de judeus. Portanto o “todo Israel” pode estar ligado com certo numero de representantes de todo o povo. Concordo nesse ponto com John Stott quando diz: “… por todo o livro de Romanos, no entanto, “Israel” significa o Israel étnico ou nacional, em contraposição as nações gentílicas. E é este obviamente o significado no versículo 25. Portanto a palavra dificilmente poderia assumir um significado diferente logo no versículo seguinte.

– É exegeticamente impossível dar a Israel neste versículo qualquer outra conotação senão aquela que vem sendo conferida ao termo no decorrer de todo o capítulo. Seria muito confuso para igreja de Roma interpretar a carta de Paulo, quando este muda o significado das palavras de um versículo par outro. Então concluímos que para Paulo o “todo Israel” esta se referindo a nação de Israel por meio de seus representantes que serão eleitos. Provavelmente um grande número de judeus que se converteram assumindo o papel dos remanescentes do vers. 5.

 

Os Propósitos Soberanos de Deus (11:33-36)

Paulo conclui sua análise do passado, presente e futuro de Israel com um hino de louvor a Deus, cujos caminhos estão além do seu entendimento. Ao encerrar com a glorificação a Deus por seu rico conhecimento e graça, Paulo deixa transparecer que nem ele mesmo entendia todos os propósitos de Deus.

– Paulo exalta a pessoa de Deus como Aquele que controla todas as coisas segundo a sua boa vontade.

– A sabedoria e o conhecimento de Deus referem-se particumente a revelação de seus propósitos em Cristo, autor e consumador da fé de todos que são salvos.

– O propósito revelado na pessoa de Cristo da a Paulo a certeza da perfeita demonstração de amor de Deus em relação aos seus eleitos. Foi a glorificação de Deus por meio da morte de Cristo que concede salvação aos homens, sendo o próprio Paulo um deles.

– Assim Paulo conclui que Deus é a fonte (pois Dele), o sustentador (por Ele) e o objetivo (para Ele) de tudo.

–  Com esse hino de glorificação a Deus, Paulo nos ensina a descansar e confiar em Deus e em seus eternos propósitos. A predestinação e a pré-ordenação de Deus fazem com que nada fuja de seu total controle.

– Assim, caí por terra também a idéia proposta pelo Teísmo Aberto, a crença em um deus auto-limitado e não onisciente que abriu mão de sua soberania para se relacionar com os homens. Os propagadores do Teísmo Aberto (Clark Pinnock, Richard Rice, John Sanders, Willian Hasker, David Basinger e atualmente no Brasil Ricardo Gondin) tenta demonstrar pela primeira vez historia do cristianismo um argumento “racional” fundamentando no sentido que o Deus da bíblia está conosco no tempo e não conhece o futuro em detalhe absoluto. Diante do texto de Romanos 9-11 é visível que o Teísmo Aberto é mais um emaranhado de pensamento humano para adequar os eventos do mundo dentro de uma perspectiva mais confortável e menos conflitante entre o homem e um “deus bonzinho”.

– Para Paulo a seção do cap.9-11 é indubitavelmente os capítulos da soberania de Deus, onde Ele controla tudo e a todos do qual ninguém, nem judeus ou gentios, se quer podem fugir de sua soberana escolha. Para Paulo, Deus é quem manda, Deus é sua própria lei. E é ele quem dita às regras jogo.

– Diante de tal revelação e diante de um Deus Sábio, Poderoso e Soberano na salvação a nossa resposta só pode ser uma “A Ele a Glória para sempre Amem”. (11:36)

 

 

Considerações finais:

– É notável que o Deus da bíblia é diferente do deu da cristandade moderna! O conceito de deidade que predomina hoje em dia, mesmo entre os que professam crer nas escrituras, é uma deplorável caricatura, uma burlesca imitação da verdade. O deus que é pregado nos púlpitos  do século XXI é um ser enfraquecido e incapaz, que não infunde respeito a qualquer pessoa que realmente pensa.

Diferente dessa percepção errônea da deidade, o Calvinismo ( que para mim é o próprio evangelho) trata o ser de Deus como Ele deve ser. A soberania de Deus destacada no Calvinismo é absoluta, infinita e irresistível. Quando o Calvinismo diz que Deus é de fato soberano ele assevera o Seu direito de governar o universo, criado para a sua própria Glória. O Calvinismo afirma que o direito de Deus é semelhante ao direito do oleiro sobre o barro, ou seja, moldá-lo em qualquer forma que deseje, produzindo, da mesma forma, uma vaso para honra e outro para desonra.

A soberania de Deus na perspectiva calvinista caracteriza todo o ser de Deus, não esquecendo nenhum de seus atributos. Ele é soberano em todos os seus atributos e em toda a historia.

 

Tiago H. Souza 03/03/2012

 

Livros Consultados:

Stott, John. A Mensagem do livro de Romanos. São Paulo: ABU, 2009.

Hendriksen,Willian. Comentário do Novo Testamento: Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

Bruce, F.F. Introdução e Comentário do livro de Romanos. São Paulo: Vida Nova.

Magalhões, Francisco Mario Lima. O Sentido de “Todo Israel” em Romanos 11:26 Segundo Calvino. Fides Reformata XI N°2, 2006

Thielman, Frank. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.

Tozer, A. W. Mais Perto de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 1980.

As Resoluções de Jonathan Edwards

 

Estando ciente de que sou incapaz de fazer qualquer coisa sem a ajuda de Deus; humildemente Lhe rogo que, através de sua graça, me capacite a cumprir fielmente estas resoluções, enquanto elas estiverem dentro da sua vontade, em nome de Jesus Cristo.

Jonathan Edwards (1703-1758)

 
RESOLVI que farei tudo aquilo que seja para a maior glória de Deus e para o meu próprio bem, proveito e agrado, durante toda a minha vida.

RESOLVI que farei tudo o que sentir ser o meu dever e que traga benefícios para a humanidade em geral, não importando quantas ou quão grandes sejam as dificuldades que venha a enfrentar.

RESOLVI jamais desperdiçar um só momento do meu tempo; pelo contrário, sempre buscarei formas de torná-lo o mais proveitoso possível.

RESOLVI jamais fazer alguma coisa que eu não faria, se soubesse que estava vivendo a última hora da minha vida.

RESOLVI jamais cansar de procurar pessoas que precisem do meu apoio e da minha caridade.

RESOLVI jamais fazer alguma coisa por vingança.

RESOLVI manter vigilância constante sobre a minha alimentação e aquilo que bebo, para ser sempre comedido.

RESOLVI jamais fazer alguma coisa que, se visse outra pessoa fazendo, achasse motivo justo para repreendê-la ou menosprezá-la.

RESOLVI estudar as Escrituras tão firme, constante e freqüente- mente, que possa perceber com clareza que estou crescendo continua- mente no conhecimento da Palavra.

RESOLVI esforçar-me ao máximo para que a cada semana eu cresça na vida espiritual e no exercício da graça, além do nível em que estava na semana anterior.

RESOLVI que me perguntarei ao final de cada dia, semana, mês, ano, como e onde eu poderia ter agido melhor.

RESOLVI renovar freqüente-mente a dedicação da minha vida a Deus que foi feita no meu batismo e que eu refaço solenemente neste dia, 12 de janeiro de 1722.

RESOLVI, a partir deste momento e até à minha morte, jamais agir como se a minha vida me pertencesse, mas como sendo total e inteiramente de Deus.

RESOLVI que agirei da maneira que, suponho, eu mesmo julgarei ter sido a melhor e a mais prudente, quando estiver na vida futura.

RESOLVI jamais relaxar ou desistir, de qualquer maneira, na minha luta contra as minhas próprias fraquezas e corrupções, mesmo quando eu não veja sucesso nas minhas tentativas.

RESOLVI sempre refletir e me perguntar, depois da adversidade e das aflições, no que fui aperfeiçoado ou melhorado através das dificuldades; que benefícios me vieram através delas e o que poderia ter acontecido comigo, caso tivesse agido de outra maneira.