A Reforma e o Homem – Francis Shaeffer

Conhecemos, pois, algo deslumbrante a respeito do homem. Entre outras coisas, conhecemos a sua origem e quem ele é – criado à imagem de Deus. É o homem maravilhoso não apenas quando é “nascido de novo” como um cristão, é também maravilhoso como o fez Deus a Sua própria imagem. Tem o homem valor e dignidade em função daquilo que foi originalmente, antes da Queda.
Estava, há pouco, fazendo uma série de preleções em Santa Bárbara, quando me foi apresentado um rapaz viciado em entorpecentes. Era um jovem de semblante delicado e expressivo, cabelos longos e encaracolados, os pés calçados com sandálias, e trajava calça rancheira. Assistiu a uma das preleções e confessou: “Isto é completa novidade para mim; nunca ouvi coisa alguma igual a isto”. Voltou na tarde seguinte e eu o saudei. Olhou-me firmemente nos olhos e disse: “O senhor me cumprimentou de maneira tocante. Por que me tratou assim?” Respondi-lhe: “é porque eu sei quem você é – sem que você foi criado à imagem de Deus”. Em seguida tivemos uma demorada e notável conversa. Não podemos tratar as pessoas como seres humanos, não podemos vê-las no alto nível da verdadeira humanidade, a menos que conheçamos realmente a sua origem – quem são. Deus diz ao homem quem ele é. Deus nos declara que Ele criou o homem à própria imagem. Portanto, o ser humano é algo maravilhoso.
Deus, entretanto, nos diz algo mais a respeito do homem – fala-nos acerca da Queda. Isto introduz o outro elemento que precisamos conhecer a fim de entendermos o ser humano. Por que é, a um tempo, criatura tão maravilhosa e tão degradada? Quem é o homem? Quem sou eu? Por que pode o homem realizar estas coisas que o fazem único, no entanto, porque é ele tão horrível? Por que?
Diz a Bíblia que você é maravilhoso porque é feito à imagem de Deus e degradado porque, em determinado ponto espaço-temporal na história, o ser humano caiu. O homem da Reforma sabia que a criatura marcha rumo ao Inferno em razão da revolta contra Deus. Todavia o homem da Reforma e aqueles que após a Reforma forjaram a cultura do Norte Europeu sabiam que, enquanto o homem é moralmente culpado diante do Deus que existe, ele não é o nada. O homem moderno tende a julgar-se ser nada. Aqueles, entretanto, sabiam que eram exatamente o oposto do nada porque conheciam o sentido de serem feitos à imagem de Deus. Embora decaídos e, a parte da solução não-humanista de Cristo e Sua morte substicionária, iriam para o Inferno, isto não significava, contudo que eram nada. Quando a Palavra de Deus,a Bíblia veio a ser ouvida, a Reforma teve resultados tremendos, tanto nas pessoas individualmente, que se tornavam genuínos cristãos, como na cultura em geral.
O que a Reforma nos diz, pois, é que Deus falou nas Escrituras tanto  acerca do “andar de cima” como do “andar de baixo”. Falou em verdadeira revelação acerca de Si mesmo – as coisas celestiais – e falou em verdadeira revelação a respeito da própria natureza – o cosmos e o homem. Portanto, tinham os Reformadores uma real unidade de conhecimento. Eles simplesmente não tinham o problema renascentista de graça e natureza! Obtinham real unidade, não que fossem mais sagazes, mas porque alcançavam uma unidade cuja base se achava no que Deus revelara em ambas as áreas. Em contraste com o Humanismo de Tomás de Aquino liberara e o Humanismo que o Catolicismo Romano fomentara, não reconhecia a Reforma qualquer porção autônoma.
Não queria isto dizer que não restava liberdade para a arte  ou a ciência. O oposto é que era verdade; havia agora a possibilidade da verdadeira liberdade dentro da forma revelada. Contudo, ainda que haja liberdade para a arte e a ciência, não são elas autônomas – o artista e o cientista também se acham debaixo da revelação das Escrituras. Como se verá, sempre que a arte ou a ciência procuraram fazer-se autônomas, certo princípio sempre se manifestou – a natureza “devora” a graça e, consequentemente, a  arte e a ciência bem logo começaram a parecer destituídas de significação.
A Reforma teve não poucos resultados de tremendo alcance e tornou possível a cultura que tantos dentre nós admiramos afetuosamente – ainda que a nossa geração a esteja agora lançando fora. Confronta-nos a Reforma um Adão que era, usando a terminologia característica da forma de pensamento do século vinte, um homem não-programado – não arranjado como um cartão perfurado de um sistema de computação. Uma característica que marca o homem do século vinte é que ele não pode visualizar isto, uma vez que é de todo infiltrado por um conceito de determinismo. A perspectiva bíblica, entretanto, é clara – homem não pode ser explicado como totalmente determinado e condicionado – posição que forjou o conceito da dignidade do homem. Há pessoas que buscam hoje apegar-se à dignidade do homem, entretanto não têm base conveniente em que se fundamentar pois que perderam a verdade de que o homem foi feito à imagem de Deus. Ele era um homem não programado, um homem revestido de significado numa história de alto sentido, capaz de alterar a história.

Temos, pois, no pensamento da Reforma um homem que é alguém. Vemo-lo, porém, envolvido numa condição de revolta e a rebeldia é real – jamais uma “peça de teatro”. Uma vez que é um ser não programado e de fato se revolta, ele incide em genuína culpabilidade moral. À vista disto, os Reformadores compreenderam algo mais. Tiveram uma compreensão bíblica da obra de Cristo. Compreenderam que Jesus morreu na cruz em função substitutiva e em ação propiciatória a fim de salvar o homem da verdadeira culpa que sobre ele pesa. Necessitamos reconhecer que, no instante em que nos pomos a alterar a noção bíblica da verdadeira culpa moral, seja falsificação psicológica, seja a falsificação teológica ou seja de qualquer outra forma, nosso conceito da obra de Jesus não mais será bíblico. Cristo morreu pelo homem que tinha uma culpa moral verdadeira por ele próprio ter feito essa real e verdadeira escolha.

Distorcendo Mateus 18 – D.A Carson

Anos atrás, escrevi uma crítica bastante moderada ao movimento da igreja emergente como então existia, antes de se transformar em suas atuais configurações diversas. Esse pequeno livro me rendeu alguns dos mais furiosos e amargurados e-mails que eu já recebi – sem falar, claro, das postagens nos blogs. Houve outras respostas, claro – algumas de aprovação e gratidão, outros reflexivos, querendo dialogar. Mas os que mostraram a maior intensidade foram aqueles cuja indignação era tamanha por eu não ter primeiro abordado em particular aqueles cujas opiniões eu critiquei no livro. Que hipócrita eu era – criticando meus irmãos com fundamentos bíblicos ostensivos quando eu não estava seguindo o mandamento bíblico de observar um determinado procedimento muito bem definido em Mateus 18.15-17.D.A Carson - Exegeta do Novo Testamento

Sem dúvida esse tipo de acusação está se tornando mais comum. Está normalmente ligado ao “Peguei você!”, mentalidade que muitos blogueiros e seus leitores parecem alimentar. Pessoa A escreve um livro criticando algum elemento ou outro do confessionalismo histórico Cristão. Alguns blogueiros respondem com mais calor do que luz. Pessoa B escreve um blog com algum conteúdo, em resposta à pessoa A. A blogosfera se acende com ataques à pessoa B, muitos deles perguntando à pessoa B de forma bastante acusadora: “Você conversou com a pessoa A, em particular, primeiro? Se não, você não é culpado por violar o que Jesus nos ensinou em Mateus 18?” Esse padrão de contra ataque, com algumas variações, está prosperando.

A esse respeito, pelo menos três coisas devem ser ditas:

(1) O pecado descrito no contexto de Mateus 18.15-17 ocorre em pequena escala daquilo que transparece uma igreja local (sem duvida é o que se presume nas palavras “comunique à igreja”). Não está falando de uma publicação de ampla divulgação designada a afastar um grande número de pessoas de muitas partes do mundo do confessionalismo histórico. Esse último tipo de pecado é bem público e já está trazendo danos; precisa ser confrontado e seus danos desfeitos de maneira igualmente pública. Isso é bem diferente, digamos, de quando um crente descobre que um irmão esteve quebrando seus votos matrimoniais por dormir com uma pessoa que não é sua esposa, e vai a ele em privado, depois junto de outra pessoa, na esperança de provocar genuíno arrependimento e contrição, e só então trazer o caso à igreja.

Colocando de outra forma, a impressão que deriva da leitura de Mateus 18 é que o pecado em questão não é, em primeiro lugar, publicamente notado (diferente da publicação de um tolo, mas influente, livro). É relativamente privado, observado por um ou dois crentes, mas sério o suficiente para chamar a atenção da igreja se o ofensor se recusar a parar. Por outro lado, quando os escritores do Novo Testamento têm ter que lidar com falso ensinamento, outra ideia chama atenção: o ancião piedoso “apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela”. (Tito 1.9)

Sem dúvida, pode-se imaginar algumas situações contemporâneas que inicialmente podem fazer alguém coçar a cabeça e pensar qual seria o rumo mais sensato – ou, para enquadrar o problema no contexto das passagens bíblicas citadas acima, se deve ser respondida à luz de Mateus 18 ou de Tito 1. Por exemplo, um pastor da igreja local pode ouvir que um professor em seu seminário denominacional ou faculdade teológica está ensinando algo que ele julga estar fora da confissão dessa denominação e possivelmente claras heresias. Deixe-nos tornar a situação mais desafiadora postulando que o pastor tem um punhado de jovens em sua igreja que freqüentam esse seminário e estão sendo influenciados por esse professor em questão.  O pastor está de acordo com Mateus 18 ao falar com o professor antes de contestá-lo em público?

Essa situação é complicada no que o suposto falso ensinamento é publico em um sentido e privado em outro. É público no sentido de que não é meramente opinião privada, por estar certamente sendo promulgada; é privado no sentido de que o material não é publicado na arena pública, mas está sendo disseminado em uma sala de aula fechada. Parece-me que o pastor seria sensato em ir ao professor primeiro, mas não em obediência a Mateus 18, pois realmente não há relação, mas para determinar exatamente quais são realmente as visões do professor. Ele pode chegar à conclusão, afinal, que o professor é um judaizante; outra alternativa é que o professor foi mal interpretado (e qualquer professor com integridade vai querer tomar as dores de não ser mal interpretado no futuro da mesma maneira); ou ainda, que o professor é dissimulado. Ele pode sentir que tem que ir ao superior direto do professor ou alguém de maior autoridade. Meu argumento, no entanto, é que esse percurso de ação não está realmente traçando as instruções de Mateus 18. O pastor está indo ao professor, em primeira instância, não para reprová-lo, mas descobrir se há realmente um problema quando o ensino cai nessa categoria ambígua de não tão privado e não tão público.

(2) Em Mateus 18, o pecado em questão é, pela autoridade da igreja, passível de exclusão – em pelo menos dois sentidos.

Primeiro, a ofensa pode ser tão séria que a única decisão responsável que a igreja pode tomar é excluir o ofensor da igreja e vê-lo como uma pessoa não convertida (18.17). Em outras palavras, a ofensa é motivo de exclusão por causa de sua gravidade. No Novo Testamento como um todo, há três categorias de pecados que alcançam esse nível de gravidade: grande erro doutrinário (1 Tim 1.20), grande falha moral (1 Co 5) e discórdia divisiva e persistente  (Tito 3.10). Esses constituem o lado negativo dos três “testes” positivos de 1 João: o teste da verdade, o teste da obediência e o teste do amor. Em todo caso, embora não saibamos qual seja, a ofensa em Mateus 18 é passível de exclusão por causa de sua gravidade.

Em segundo lugar, a situação é tal que o ofensor pode efetivamente ser excluído da assembléia. Em outras palavras, a ofensa é passível de exclusão porque, organizacionalmente, é possível excluir o ofensor. Veja bem, suponha que alguém, digamos, na Filadélfia, estivesse afirmando ser um cristão devoto enquanto escrevia um livro que era, em certos aspectos, profundamente anticristão. Imagine que uma igreja em, digamos, Toronto, Canadá, decidiu que o livro é herege. Tal igreja pode, suponho eu, declarar o livro como equivocado ou herético, mas eles certamente não poderiam excluir o escritor. Sem dúvida, eles poderiam declarar o ofensor persona non grata em sua própria assembléia, mas isso seria um gesto fútil e provavelmente sem proveito. Afinal, o ofensor pode ser perfeitamente aceitável em sua própria assembléia. Em outras palavras, esse tipo de ofensa pode levar à exclusão no primeiro sentido – por exemplo, o falso ensinamento pode ser julgado tão grave que o ofensor merece ser excluído – mas não é passivel de exclusão no segundo sentido, por ser a  realidade organizacional de tal forma que exclusão não é praticável. Um ponto a observar é que, seja qual for, a ofensa em Mateus 18 é passível de exclusão em ambos sentidos: o pecado tem que ser grave o suficiente para justificar a exclusão, e a situação organizacional deve ser de tal forma que a igreja local pode ter uma ação decisiva que realmente exprima alguma coisa. Onde o primeiro e o segundo sentidos não se aplicam, não se aplica Mateus 18.

Pode-se, claro, argumentar que é sabedoria prudente escrever aos autores antes que você os critique em sua própria publicação. Posso pensar em situações em que pode ser uma boa ideia ou não. Mas tais tipos de raciocínio não fazem parte do argumento de Mateus 18.

(3) Há um aroma de justiça encenada, de indignação desproporcional, por trás dos atuais jogos de “peguei você!”. Se a pessoa B acusa a pessoa A de ter escrito um livro a favor de um entendimento revisionista da Bíblia, com erro grave e possivelmente com heresia, não é sábio fazer “tsc tsc” para a mente tacanha da pessoa B e sorrir com condescendência e desdém por tal julgamento. Isso pode funcionar bem entre aqueles que acham que a maior virtude no mundo é a tolerância, mas com certeza não pode ser o caminho mais honroso para o cristão. Heresia genuína é uma coisa execrável, uma coisa horrível. Desonra Deus e leva as pessoas a se perderem. Deturpa o evangelho e seduz as pessoas a acreditarem em coisas falsas e agir de maneiras repreensíveis. Claro, a Pessoa B pode estar totalmente enganada. Talvez a acusação que a Pessoa B está fazendo seja inteiramente equivocada, ou mesmo perversa. Nesse caso, deve-se revelar o fato, não esconder atrás de uma questão processual. O ataque da Pessoa B na séria argumentação bíblica deve ser analisado, não dispensado em um procedimento ilusório e um apelo errôneo a Mateus 18.

 

 

fonte: iprodigo

JANTANDO COM OS PECADORES – Rennan Dias

Certa vez, eu recebi um convite para jantar com uma determinada família. Ao chegar, me deparei com uma mesa farta de comida e bebida. Sentamos-nos e começamos a comer e conversar. De repente, uma pessoa se aproximou e me perguntou: “Como um cristão pode comer com alguém que bebe cerveja”? A minha resposta foi algo assim: “Um cristão pode comer com alguém que bebe porque Jesus assim o fez. Um copo de cerveja não poderia me impedir de estar aqui”!

Quantas vezes não somos impedidos de pregar o Evangelho porque há coisas diferentes na mesa – bebidas, práticas, palavras. Um dia, nós todos fomos parte dessa mesa. Agora, nos sentimos superiores ou diferentes. Hoje, nós não queremos mais sentar à mesa com pessoas que são iguais ao que éramos no passado.

Jesus não é assim! Mateus nos conta (Mt 9.9-13) que Jesus foi a sua casa para um jantar especial. Depois de receber um convite para seguir Jesus, Mateus resolveu fazer um jantar para todos os seus amigos – pecadores e publicanos. Enquanto estavam jantando, um grupo de fariseus apareceu com uma pergunta: “Por que o mestre de vocês come com publicanos e pecadores”?

Ao ouvir isso, Jesus responde aos fariseus, apresentando o coração do Evangelho. Primeiro, Ele diz que o Evangelho é como receber uma visita de um médico em casa. Só recebe o Médico de Deus quem se enxerga doente do pecado. Segundo, Jesus diz que o Evangelho é a manifestação da misericórdia de Deus. Ele manda os fariseus voltarem a ler suas Bíblias para aprender que Deus tem prazer numa religião que é fruto de Sua misericórdia e que desemboca em misericórdia para com o próximo. E por fim, Jesus diz que o Evangelho é receber o Seu convite para entrar em Sua casa. Ele veio – Ele nasceu – para chamar os pecadores, e não os justos!

Jesus ainda hoje deseja jantar com pecadores! Ao receber o Evangelho de Cristo em casa, nós somos chamados para levar o Evangelho de Deus às casas dos demais pecadores! Por que não seguir Aquele que nos salvou para sermos feitos em Sua imagem (Rm 8.29)? Por que não iniciar bons relacionamentos? Foi Jesus e não Mateus que primeiro falou! Por que não se aproximar daqueles velhos amigos com o propósito de repartir o Evangelho com eles? Por que não deixar o “espírito da religião farisaica” de lado para ganhar pessoas com a maior de todas as notícias? Jantemos com os pecadores para a glória de Deus!

Spurgeon plantador de Igrejas

Muitas pessoas não estão cientes da paixão extraordinária de C. H. Spurgeon por plantação de igrejas. Neste breve artigo, Peter Morden lança luz sobre como esse ministério impactou Londres.

O cenário Batista em Londres seria muito diferente hoje não fosse o ministério de plantação de igrejas de Charles Haddon Spurgeon. Algumas estatísticas nos ajudam a começar a compreender a extensão de sua influência. De forma impressionante, 53 das 62 novas igrejas Batistas de Londres fundadas entre 1865 e 1876 foram criadas graças ao seu trabalho; e no tempo da sua morte, em 1892, ele estava envolvido na plantação de quase 100 igrejas na cidade e nas áreas circunzinhas. A maioria dessas igrejas permanecem até hoje, muitos delas fortes e vigorosas, incluindo aquelas em Balham, Enfield, Greenwich, Norwood (Chatsworth), Teddington e Wimbledon (Estrada da Rainha).

Como Spurgeon conseguiu esse feito extraordinário? Seus métodos eram flexíveis e variavam dependendo do contexto, mas muitas vezes ele trabalhava da seguinte maneira. Para começar, Spurgeon identificaria uma área que parecia ser uma oportunidade missionária promisssora. Então ele enviaria um ou dois alunos do Colégio de Pastores para realizar cultos de pregação ao ar livre, muitas vezes com o apoio de outras pessoas da sua igreja. Se esses trabalhos “ao ar livre” fossem bem sucedidos, ele alugaria algumas salas para que novas reuniões pudessem ser realizadas. Se o trabalho continuasse a florescer (como normalmente aconteceu), terrenos adequados seriam comprados e instalações construídas. Spurgeon tinha o seu próprio advogado para ajudar as novas igrejas na elaboração das escrituras e com quaisquer outras questões jurídicas que surgissem. A parte financeira era suprida por seus muitos colaboradores – e também pelo próprio Spurgeon.

A Igreja Batista de Enfield, ao norte de Londres, é apenas um exemplo de uma igreja que deve o seu início, humanamente falando, a Spurgeon. Em 1867, após uma reunião que realizou com algumas pessoas interessadas daquele lugar, os cultos foram iniciados em uma sala em cima de um pub, o Rising Sun [Sol Nascente]. Uma “capela de ferro” temporária foi logo construída, e Spurgeon pregou o primeiro sermão no novo edifício. Havia então 30 membros e a igreja continuou a crescer. Em 1872, uma capela mais permanente foi erguida. Hoje, o elo com Spurgeon é tão forte como antes: Amanda James[1], o ministro titular, formou-se no Spurgeon’s College; o ministro em treinamento, Craig Downes, está atualmente estudando lá. Sob a liderança deles, a Igreja Batista de Enfield continua a prosperar e tem uma forte atuação em missões estrangeiras.

Falando de sua paixão por plantação de igrejas, Spurgeon disse certa vez:

“É com alegria … que encorajamos nossos membros a nos deixar para fundar outras igrejas; ou melhor, procuramos convencê-los a fazê-lo. Pedimos a eles que se espalhem por toda a terra, para se tornar a semente piedosa que Deus abençoará. Eu creio que enquanto fizermos isso, prosperaremos.”

Seu grande coração e sua paixão evangelística brilharam grandemente. Por qualquer padrão, o legado de novas igrejas que ele deixou foi um legado notável.

Fonte: The Recorder

Tradução: Felipe Sabino de Araújo Neto

Jesus Morreu por Todos? – R. C. Sproul

Um dos pontos mais controvertidos da teologia reformada tem a ver com o terceiro item de nossa lista de itens do Capítulo Cinco. É a expiação limitada. Este tem sido um tal problema de doutrina que há multidões de cristãos que dizem que abraçar a maioria das doutrinas do calvinismo, mas saem do barco bem aqui.


Referem-se a si mesmos como os calvinistas dos “quatro pontos”. O ponto que não podem sustentar é a expiação limitada. Freqüentemente tenho pensado que, para ser um calvinista de quatro pontos, é preciso que a pessoa não entenda pelo menos um dos cinco pontos. É difícil imaginar que a pessoa possa entender os outros quatro pontos do calvinismo e negar a expiação limitada. Existe sempre a possibilidade, contudo, da feliz inconsistência pela qual as pessoas sustentam diferentes pontos de vista ao mesmo tempo.

A doutrina da expiação limitada é tão complexa que, para tratá-la adequadamente, seria preciso um volume completo. Nem mesmo dediquei um capítulo inteiro a ela neste volume, porque um capítulo inteiro não lhe faria justiça. Eu pensei em não mencioná-la de todo, porque existe o perigo de que dizer pouco sobre ela seja pior do que não dizer nada. Mas penso que o leitor merece pelo menos um breve resumo da doutrina e assim procederei – com cuidado porque o assunto requer um tratamento mais profundo do que posso conceder aqui.

A questão da expiação limitada tem a ver com a pergunta: “Por quem Cristo morreu? Ele morreu por todos ou somente pelos eleitos?” 

Todos concordamos que o valor da expiação de Cristo foi suficientemente grande para cobrir os pecados de todos os seres humanos. Também concordamos que sua expiação é verdadeiramente oferecida a todos os seres humanos. Qualquer pessoa que coloca sua confiança na morte expiatória de Jesus Cristo certamente receberá os completos benefícios dessa propiciação. Estamos também confiantes de que, qualquer que responde à oferta universal do Evangelho será salvo.

A questão é: “Para quem a expiação foi designada?” 

Deus mandou Jesus ao mundo meramente para tornar a salvação possível às pessoas? Ou Deus tinha alguma coisa mais definida em mente? (Roger Nicole, o eminente teólogo batista, prefere chamar a expiação limitada de “Expiação Definida”).

Alguns argumentam que tudo o que expiação limitada significa é que os benefícios da expiação são limitados aos crentes que satisfazem as condições necessárias de fé. Isto é, embora a expiação de Cristo fosse suficiente para cobrir os pecados de todos os homens e para satisfazer a justiça de Deus contra todo pecado, ela efetiva a salvação somente para os crentes. A fórmula diz: Suficiente para todos, eficiente somente para os eleitos.

Esse ponto simplesmente serve para nos distinguir dos universalistas, que crêem que a expiação assegurou salvação para todos. A doutrina da expiação limitada vai além disso. Refere-se à questão mais profunda da intenção do Pai e do Filho na cruz. Declara que a missão e morte de Jesus foi restrita a um número limitado — a seu povo, suas ovelhas.

Jesus foi chamado de “Jesus” porque Ele salvaria seu povo de seus pecados (Mt 1.21). O Bom Pastor dá sua vida pelas ovelhas (Jo 10.15). Essas passagens são encontradas freqüentemente no Novo Testamento.

A missão de Cristo era de salvar os eleitos. “E a vontade de quem me enviou é esta: Que nenhum eu perca de todos os que me deu; pelo contrário, eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.39).

Não tivesse havido um número fixo de contemplados por Deus quando Ele designou que Cristo morresse, então os efeitos da morte de Cristo teriam sido incertos. E possível que a missão de Cristo tivesse sido uma tristeza e completo fracasso.

A propiciação de Jesus e sua intercessão são obras conjuntas de seu sumo sacerdócio. Ele explicitamente exclui os não eleitos de sua grande oração sumo sacerdotal: “…não rogo pelo mundo, mas por aqueles que me deste, porque são teus…” (Jo 17.9). Cristo morreu por aqueles por quem Ele não orou?

A questão essencial aqui diz respeito à natureza da oferta de Jesus. A oferta de Jesus inclui tanto expiação quanto a propiciação. Expiação envolve a remoção que Cristo faz de nossos pecados “para fora” (ex) de nós. Propiciação envolve uma satisfação pelo pecado “perante ou na presença de” (pro) Deus.

O arminianismo tem uma oferta que é limitada em valor. Não cobre o pecado dos incrédulos. Se Jesus morreu por todos os pecados de todos os homens, se Ele expiou todos os nossos pecados e propiciou todos os nossos pecados, então todos seriam salvos. Uma oferta potencial não é uma oferta verdadeira. Jesus realmente fez oferta pelos pecados de suas ovelhas.

O maior problema com a expiação definida ou limitada é encontrado nas passagens que as Escrituras usam referentes à morte de Cristo “por todos” ou pelo “mundo todo”. O mundo por quem Cristo morreu não pode significar a família humana inteira. Deve referir-se à universalidade dos eleitos (povo de todas as tribos e nações), ou à inclusão dos gentios em acréscimo ao mundo dos judeus. Foi um judeu que escreveu que Jesus não morreu meramente por nossos pecados, mas pelos pecados do mundo todo. Será que a palavra nossos refere-se aos crentes ou aos judeus crentes?

Precisamos nos lembrar de que um dos pontos cardeais do Novo Testamento refere-se à inclusão dos gentios no plano da salvação de Deus. A salvação era dos judeus, mas não restrita aos judeus. Onde quer que seja dito que Cristo morreu por todos, algum limite precisa ser acrescentado, ou a conclusão teria de ser o universalismo ou a mera expiação potencial.

A expiação de Cristo foi real. Ela efetivava tudo o que Deus e Cristo pretendiam dela. O desígnio de Deus não foi e não pode ser frustrado pela incredulidade humana. O Deus soberano soberanamente enviou seu Filho para propiciar pelo seu povo.

Nossa eleição é em Cristo. Somos salvos por Ele, nele e para Ele. O motivo para nossa salvação não é meramente o amor que Deus tem por nós. É especialmente baseada no amor que o Pai tem pelo Filho. Deus insiste que seu Filho verá o trabalho de sua alma e ficará satisfeito. Nunca houve a menor possibilidade de que Cristo pudesse ter morrido em vão. Se o homem está verdadeiramente morto no pecado e preso ao pecado, uma mera expiação potencial ou condicional não somente pode ter acabado em fracasso, como muito certamente teria acabado em fracasso.

Os arminianos não têm razão verdadeira para crer que Jesus não morreu em vão. São deixados com um Cristo que tentou salvar a todos, mas na realidade não salvou ninguém.

A Heresia do Egocentrismo – John MacArthur

Não negligencieis a prática do bem e a mútua cooperação [koinonia]“Hebreus 13.16O egocentrismo não tem lugar na igreja. Nem devíamos dizer isso, mas, desde o alvorecer da era apostólica até hoje, o amor próprio em todas as suas formas tem prejudicado incessantemente a comunhão dos santos. Um exemplo clássico e antigo de egocentrismo fora de controle é visto no caso de Diótrefes. Ele é mencionado em 3 João 9-10, onde o apóstolo diz: “Escrevi alguma coisa à igreja; mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, se eu for aí, far-lhe-ei lembradas as obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras maliciosas. E, não satisfeito com estas coisas, nem ele mesmo acolhe os irmãos, como impede os que querem recebê-los e os expulsa da igreja”.

Diótrefes anelava ser o preeminente em sua congregação (talvez até mais do que isso). Portanto, ele via qualquer outra pessoa que tinha autoridade de ensino – incluindo o apóstolo amado – como uma ameaça ao seu poder. João havia escrito uma carta de instrução e encorajamento à igreja, mas, por causa do desejo de Diótrefes por glória pessoal, ele rejeitou o que o apóstolo tinha a dizer. Evidentemente, ele reteve da igreja a carta de João. Parece que ele manteve em segredo a própria existência da carta. Talvez ele a destruiu. Por isso, João escreveu sua terceira epístola inspirada para, em parte, falar a Gaio sobre a existência da carta anterior.

Na verdade, o egoísmo de Diótrefes o tornou culpado do mais pernicioso tipo de heresia: ele rejeitou ativamente e se opôs à doutrina apostólica. Por isso, João condenou Diótrefes em quatro atitudes: ele rejeitou o ensino apostólico; fez acusações injustas contra um apóstolo; foi inóspito para com os irmãos e excluiu aqueles que não concordavam com seu desafio a autoridade de João. Em todo sentido imaginável, Diótrefes era culpado da mais obscura heresia, e todos os seus erros eram frutos de egocentrismo.

Em nosso estado caído, estado de carnalidade, somos todos assediados por uma tendência para o egocentrismo. Isto não é uma ofensa insignificante, nem um pequeno defeito de caráter, nem uma ameaça irrelevante à saúde de nossa fé. Diótrefes ilustra a verdade de que o amor próprio é a mãe de todas as heresias. Todo falso ensino e toda rebelião contra a autoridade de Deus estão, em última análise, arraigados em um desejo carnal de ter a preeminência – de fato, um desejo de reivindicar para si mesmo aquela glória que pertence legitimamente a Cristo. Toda igreja herética que já vimos tem procurado suplantar a verdade e a autoridade de Deus com seu próprio ego pretensioso.

De fato, o egocentrismo é herético porque é a própria antítese de tudo que Jesus ensinou ou exemplificou. E produz sementes que dão origem a todas as outras heresias imagináveis.

Portanto, não há lugar para egocentrismo na igreja. Tudo no evangelho, tudo que igreja tem de ser e tudo que aprendemos do exemplo de Cristo golpeia a raiz do orgulho e do egocentrismo humano.

Koinonia

As descrições bíblicas de comunhão na igreja do Novo Testamento usam a palavra grega koinonia. O espírito gracioso que essa palavra descreve é o extremo oposto do egocentrismo. Traduzida diferentemente por “comunhão”, “compartilhamento”, “cooperação” e “contribuição”, esta palavra é derivada de koinos, a palavra grega que significa “comum”. Ela denota as ideias de compartilhamento, comunidade, participação conjunta, sacrifício em favor de outros e dar de si para o bem comum.

Koinonia era uma das quatro atividades essenciais que mantinha os primeiros cristãos juntos: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão [koinonia], no partir do pão e nas orações” (At 2.42). O âmago da “comunhão” na igreja do Novo Testamento era culto e sacrifício uns pelos outros, e não festividade ou funções sociais. A palavra em si mesma deixava isso claro nas culturas de fala grega. Ela foi usada em Romanos 15.26 para falar de “uma coleta em benefício dos pobres” (ver também 2 Co 9.3). Em 2 Coríntios 8.4, Paulo elogiou as igrejas da Macedônia por “participarem [koinonia] da assistência aos santos”. Hebreus 13.16 diz: “Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação [koinonia]“. Claramente, o egocentrismo é hostil à noção bíblica de comunhão cristã.

Uns aos outros

Esse fato é ressaltado também pelos muitos “uns aos outros” que lemos no Novo Testamento. Somos ordenados: a amar “uns aos outros” (Jo 13.34-35; 15.12, 17); a não julgar “uns aos outros” e ter o propósito de não por tropeço ou escândalo ao irmão (Rm 14.13); a seguir “as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros” (Rm 14.19); a ter “o mesmo sentir de uns para com os outros” e acolher “uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus” (Rm 15.5, 7). Somos instruídos a levar “as cargas uns dos outros” (Gl 6.2); a sermos benignos uns para com os outros, “perdoando… uns aos outros” (Ef 4.32); e a sujeitar-nos “uns aos outros no temor de Cristo” (Ef 5.21). Em resumo, “Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo” (Fp 2.3).

No Novo Testamento, há muitos mandamentos semelhantes que governam nossos relacionamentos mútuos na igreja. Todos eles exigem altruísmo, sacrifício e serviço aos outros. Combinados, eles excluem definitivamente toda expressão de egocentrismo na comunhão de crentes.

Cristo como cabeça de seu corpo, a igreja

No entanto, isso não é tudo. O apóstolo Paulo comparou a igreja com um corpo que tem muitas partes, mas uma só cabeça: Cristo. Logo depois de afirmar, enfaticamente, a deidade, a eternidade e a proeminência absoluta de Cristo, Paulo escreveu: “Ele é a cabeça do corpo, da igreja” (Cl 1.18). Deus “pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo” (Cl 1.22-23). Cristãos individuais são como partes do corpo, existem não para si mesmos, mas para o bem de todo o corpo: “Todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor” (Ef 4.16).

Além disso, cada parte é dependente de todas as outras, e todas estão sujeitas à Cabeça. Somente a Cabeça é preeminente, e, além disso, “se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam” (1 Co 12.26).

Até aquelas partes do corpo aparentemente insignificantes são importantes (vv. 12-20). “Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo?” (vv. 18-19).

Qualquer evidência de egoísmo é uma traição de não somente o resto do corpo, mas também da Cabeça. Essa figura torna o altruísmo humilde em virtude elevada na igreja – e exclui completamente qualquer tipo de egocentrismo.

Escravos de Cristo

A linguagem de escravo do Novo Testamento enfatiza, igualmente, esta verdade. Os cristãos não são apenas membros de um corpo, sujeitos uns aos outros e chamados à comunhão de sacrifício. Somos também escravos de Cristo, comprados com seu sangue, propriedade dele e, por isso, sujeitos ao seu senhorio.

Escrevi um livro inteiro sobre este assunto. Há uma tendência, eu receio, de tentarmos abrandar a terminologia que a Escritura usa porque – sejamos honestos – a figura de escravo é ofensiva. Ela não era menos inquietante na época do Novo Testamento. Ninguém queria ser escravo, e a instituição da escravidão romana era notoriamente abusiva.

No entanto, em todo o Novo Testamento, o relacionamento do crente com Cristo é retratado como uma relação de senhor e escravo. Isso envolve total submissão ao senhorio dele, é claro. Também exclui toda sugestão de orgulho, egoísmo, independência ou egocentrismo. Está é simplesmente mais uma razão por que nenhum tipo de egocentrismo tem lugar na vida da igreja.

O próprio senhor Jesus ensinou claramente este princípio. Seu convite a possíveis discípulos foi uma chamada à total autorrenúncia: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9.23).

Os doze não foram rápidos para aprender essa lição, e a interação deles uns com os outros foi apimentada com disputas a respeito de quem era o maior, quem poderia ocupar os principais assentos no reino e expressões semelhantes de disputas egocêntricas. Por isso, na noite de sua traição, Jesus tomou uma toalha e uma bacia e lavou os pés dos discípulos. Sua admoestação para eles, na ocasião, é um poderoso argumento contra qualquer sussurro de egocentrismo no coração de qualquer discípulo: “Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também” (Jo 13.14-15).

Foi um argumento do maior para o menor. Se o eterno Senhor da glória se mostrou disposto a tomar uma toalha e lavar os pés sujos de seus discípulos, então, aqueles que se chamam discípulos de Cristo não devem, de maneira alguma, buscar preeminência para si mesmos. Cristo é nosso modelo, e não Diótrefes.

Não posso terminar sem ressaltar que este princípio tem uma aplicação específica para aqueles que estão em posições de liderança na igreja. É um lembrete especialmente vital nesta era de líderes religiosos que são superestrelas e pastores jovens que agem como estrelas de rock. Se Deus chamou você para ser um presbítero ou mestre na igreja, ele o chamou não para sua própria celebridade ou engrandecimento. Deus o chamou a fazer isso para a glória dele mesmo. Nossa comissão é pregar não “a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos [escravos], por amor de Jesus” (2 Co 4.5).


Traduzido por: Francisco Wellington Ferreira
Editor: Tiago Santos
Copyright © John MacArthur & Tabletalk
Copyright © Editora FIEL 2012.

A Missiologia no Livro de Rute – Tiago H. Souza

Rute colhendo espigas no campo de Boaz, o resgatador.INTRODUÇÃO:

       - O livro de Rute tem seu destaque entre os livros do Antigo Testamento. Não é difícil explicar a atração exercida por esse breve livro.  A história contada no livro de Rute tem gerado varias opiniões entre os estudiosos. Alguns a vem como um simples romance, outros asseveram que de fato o evento aconteceu, mas todos concordam que Yahweh  intervém na história e surpreende a todos colocando uma moabita como descendente abraâmica. O autor dedicou  grande esforço para tornar seu livro em uma obra de arte,e é evidente que teve o propósito de que fosse aceito como histórico. É uma historia verdadeira, contada com beleza, seguindo o estilo das narrativas  patriarcais, em que aparecem alguns dos mesmos temas, como a fome, o exílio e a esterilidade, mediante o qual Yahweh se torna conhecido. Como que em uma novela, o livro de Rute apresenta um estilo altamente artístico em sua estrutura. Nessa historia, um enredo desenvolve-se em certo numero de episodio até atingir um desfecho e assim comunicar uma lição que os leitores devem interpretar.

            O livro de Rute nos relata o soberana intervenção de Deus sobre a história e sobre o tempo, demonstrando que suas promessas e bênçãos podem vir ao seu povo da maneira mais improvável. A fidelidade de Deus em Rute é vista quando este Deus faz de uma tragédia em Moabe uma benção para seu povo em Belém, incluindo uma pagã na linhagem direta do Rei Davi.

 

Titulo: 

- O nome “Rute” significa “amizade”, uma característica verdadeira daquela que deu o nome ao livro. É um dos seis livros históricos que levam o nome das principais figuras de ação e vida descritas neles (Josué, Rute,Samuel,Esdras,Neemias e Ester) É um dos dois livros bíblicos que levam o nome de uma mulher: Rute(a gentia que se casou com um rico judeu de linhagem real da promessa) e Ester (a judia que se casou com um rei gentio).

 

Autoria: 

- O livro não fornece nenhum indicio quanto á identidade do autor. A tradição judaica atribui a autoria do livro a Samuel, mas Samuel morreu antes de Davi se tornar Rei (1 Samuel 28:3). O mais provável é que o autor tenha sido um mestre-narrador, comissionado pela família real, para registrar a soberana intervenção de Deus na constituição da árvore genealógica real.

 

Data:

- Estudiosos da linha mais radical defendem uma data mais recente para o livro, argumentando que o uso de tradições deutoronomicas aponta para uma data posterior ao reinado de Josias (640-609 a.C). Outros poucos têm defendido a data do livro como próximo a era monárquica, o que é coerente com o conhecimento dos fatos relatados no livro e a ausência do nome de Salomão na genealogia.

 

 Contexto Histórico:

- O fato ocorrido no livro de Rute tem como pano de fundo o período dos juízes (1.1), um tempo de apostasia, desordem moral e social entre o povo. Em consonância com as maldições da aliança, uma terrível fome assolou a terra fazendo uma família efratita a peregrinarem em busca de pão chegando assim a uma terra chamada Moabe.

 

A Teologia de Rute: 

- A entrada de Rute na nação da aliança com todos os privilégios desta foi pronunciada pela posição dela como viúva estrangeira que, em uma época de necessidade desesperadora, foi salva de sua desesperança por um redentor que  pagou a hipoteca da propriedade da sogra dela, ao mesmo tempo, tomou a jovem como esposa. Não há dúvida de que Rute, apesar de sua etnia, serve como modelo de graça redentora de Deus. Desde o princípio, Deus tinha o propósito de produzir uma semente de Abraão que não só modelaria a natureza e o etos do Reino do Senhor, mas que também atrairia as nações da terra a o buscar e o encontrar, tornando-se, assim servos Dele.

A Missiológia de Rute:

- Como em vários outros livros do Antigo Testamento, Rute quer evidenciar o chamado de Deus para outras nações. No caso de Rute, Moabe é representada por Rute que é inclusa em Israel por intermédio da sua lealdade a sua sogra Noemi e sua disposição em se casar com Boaz, cuja hombridade trouxe segurança para Noemi. A mensagem Missional tem como objetivo ligar Davi a aliança abraâmica via a moabita e pagã Rute, que por sua vez, tornar-se-ia bisavó de Davi e ancestral direta de Cristo. O livro é um tiro contra o atnocentrismo hebreu, destacando a soberania de Deus em causar fatos e até mesmo tragédias em prol de salvar seus escolhidos, que no caso de Rute, estava alem dos limites étnicos de Israel.

 

 Contribuições singulares de Rute: 

1-    A Missão das Mulheres:

Dois livros do antigo Testamento têm nome de mulher: Rute, no início da história de Israel em Canaã, e Ester, no término da história de Israel do antigo Testamento. Rute foi umas das mulheres mais preeminentes no período inicial dos juízes. Outras foram Débora, Jael ,  a filha de Jefté e a mãe de Sansão. No livro de Rute, a simpatia de Noemi em difíceis provações traz sua nora para o Deus de Israel. O amor de Rute transcende laços raciais, e as duas virtuosas mulheres cumprem a lei dos judeus. Assim fazendo, contribuem para o nascimento de Davi, o grande rei salmista. O autor achou o relato da vida de duas nobres mulheres merecia um lugar na história de Israel, juntamente com as historias de grandes homens Israelitas.

 

2-    Fé dos gentios no Antigo Testamento (1:6):

A declaração de fé realizada por Rute é um clássico do Antigo Testamento: “O teu povo é meu povo, o teu Deus é o meu Deus”. Embora não seja a primeira conversão de gentios registrada no antigo Testamento, a conversão de Rute é a mais detalhada e famosa. Apresenta também um contraste interessante com a conversão de sua segunda sogra, Raabe. Enquanto a de Raabe é apresentada como uma reação ao medo do julgamento que viria, a de Rute é uma reação ao amor (Josué 2:9-13; Rute 1:16). O Senhor usa tanto o amor como o medo para ativar a fé de gentios no Antigo Testamento.

 

3-    A Providencia em Meio a Tragédia de Uma Família:

Rute é o único livro da Bíblia que focaliza as provações e dificuldades de uma única família, em vez de uma tribo ou nação numa perspectiva maior. O livro trata de uma viúva de Israel, atingida pelo triplo infortúnio de haver perdido o esposo e os dois filhos, depois de a fome te-la forçado, a ela e à família, a sair de Belém. Como o livro de Ester, essa história demonstra como Deus age na infelicidade a fim de cuidar dos seus fiéis em tempos mais difíceis, e como Ele fez com aquelas provações contribuíssem para o nascimento de Davi e, mais tarde, para a vinda do Messias.

 

4-    A Relação dos Moabitas com Davi e o Messias (4:18-22):

Embora os moabitas fossem descendentes de Ló e sua filha (por incesto) e fossem, portanto, primo de Israel, foi-lhes negada entrada na congregação israelita “até a décima geração” em virtude de sua hostilidade para com os judeus quando eles saíram do Egito (Deuteronômio 23:3-6). Por que, então, Rute foi bem recebida por Israel dentro de duas ou três gerações? Evidentemente aquela lei aplicava-se aos homens moabitas e não às mulheres, de modo semelhante ao regulamento registrado em Deuteronômio 21:10-13 acerca da mulher moabita enfatiza que, embora a linhagem de Davi e do Messias fosse formada apenas de hebreus pelo lado paterno, ela inclui muitas mulheres gentias. Tamar e Raabe eram cananéias, Rute moabita e Naamá, mãe de Roboão, amonita. O Messias realmente veio de extensa gama de nacionalidades pela linhagem materna.

 

5-    Rute: Meditação de Israel para o Pentecoste:

Esse livro era lido anualmente pela nação, em público, quando se reuniam para a festa de verão do pentecoste. A colheita lembra-os da colheita anterior de cevada dada por Deus e da recompensa do culto de amor que ainda viria. Do mesmo modo que o Pentecoste comemorava a primeira safra, a leitura de Rute recordava  a colheita das primícias dos gentios.  Lembrando que o Pentecoste do Novo Testamento comemora as primícias da colheita divina na Igreja, sendo gentios muitos desses crentes.

6-    Cristologia em Rute:

Há duas referencias básicas a Cristo no livro de Rute, ambas relativas a Boaz:

a-    Deduz-se que Boaz seja um tipo de Cristo como um parente redentor, qualificado e disposto a redimir o seu povo. É esse um aspecto da obra de Cristo ilustrado aqui. A expressão “resgatar” é usada seis vezes em Rute. Como redentor do crente, Cristo torna-se o seu Redentor para pagar todas as dívidas, seu Defensor para defendê-lo de todos os adversários, seu Mediador para conseguir reconciliação, e seu Noivo para união e comunhão perpétua.

 b-    O nome de Boaz esta registrado em todas as genealogias de Jesus, mas somente em Mateus 1:5 Rute também é mencionada. Nesta genealogia Mateus menciona de propósito o nome de Rute e de três outras mulheres estrangeiras. O ponto cristológico parece ter o objetivo de enfatizar a ampla genealogia internacional do Messias que viria trazer salvação para todas as nações. Ele não veio como um simples “Salvador” local.

 

 

A Relação Missiológica entre Rute e Gálatas 3:8

- Paulo escreve a Carta aos Gálatas para contrapor-se aos falsos mestres judaizantes que estavam abalando a doutrina central do Novo Testamento da justificação pela fé, Ignorando o decreto expresso no concilio de Jerusalém (At.15:23-29). Eles espalhavam o perigoso ensino de que os gentios deveriam primeiro, torna-se prosélitos judeus e submeter-se a todas as leis mosaicas antes de poderem se tornar Cristãos. Chocado com a receptividade dos gálatas a essa heresia demoníaca, Paulo escreveu essa carta a fim de defender a justificação pela fé e advertir essas igrejas a respeito das terríveis conseqüências de abandonar a doutrina essencial do qual já vinha sendo revelada. Em meio a sua argumentação para refutar a heresia da salvação por obras, Paulo trás a perfeita interpretação da Palavra de Deus dada a Abraão em Genesis 12:3, iluminando assim os gálatas e os advertindo que a salvação é somente pela fé, ocasionando a salvação de todos os povos.

- Quando Gálatas 3:8 se refere “… prenunciou o evangelho a Abraão: Em ti serão abençoados todos os povos da terra”, Paulo tem em mente que: Abraão sendo o primeiro a depositar fé nessa promessa, ele se torna tanto o patriarca daqueles que haveriam de crer, quanto o patriarca genético de Cristo. Ou seja, o que Paulo esta afirmando é que qualquer gentio de qualquer período do tempo pode ser salvo porque tal salvação é obtida mediante a fé em Cristo que foi da linhagem direta de Abraão, o pai da fé.

 - A Palavra abençoados (eveylogeo) é um verbo indicativo (ele indica uma certeza) na voz passiva (sofre ação). Gramaticalmente podemos afirmar então que todos os povos da terra de fato serão o alvo da benção de Deus depositada em Abraão. Por isso o verbo esta no tempo futuro, pois Paulo esta usando a passagem do Antigo Testamento para confirmar que a benção da justificação pela fé seria pregada as nações após Deus ter abençoado a Abraão.

- No caso de Rute podemos observar sua entrada na aliança não tão somente via o casamento com Boaz, mas crendo no Deus de Israel como sendo o seu Deus (Rute 1:16) e tendo total devoção a Ele chamando-O de Senhor. Rute creu em Deus da mesma forma que Abraão creu e a justiça também foi lhe imputada pela fé. A justificação pela fé em Rute esta em harmonia com os decretos divinos estabelecidos em Genesis 12:3 que tem como alvo a salvação não de um povo, mas de todos os povos. A devoção e a demonstração de fé exercida por Noemi fez com que Rute cresse no Deus da sua sogra, crendo aceitou ser também parte do povo Dele.

- Rute é um exemplo da forma que Deus salva os gentios em toda história. A maneira é a mesma: justificação pela fé.

 

 Considerações Finais:

   - Fica evidente no livro de Rute o propósito de Deus em relação aos povos da terra. Deus quer que eles o conheçam que o busque e que se torne seu povo. Rute deixa clara a manifestação de Deus em salvar seus escolhidos que estão fora dos limites étnicos de Israel. Rute, o moabita é um exemplo da disposição e fé que os gentios devem ter em relação ao Deus que é Senhor de todos os povos, o Deus que merece ser louvado por todos os povos (Salmos 67:3).

  - Assim, devemos levar o conhecimento de Deus as nações e povos da terra, do qual são alvos do amor de Deus e da promessa feita a Abraão onde “ …em ti serão abençoadas todas as famílias da terra ”(Genesis 12:3).

- Rute nos faz saber que os gentios são tão preciosos para Deus que Ele mesmo fez questão de colocá-los na linhagem e genealogia direta de Davi (4:18) do qual foi ancestral direto do Messias, o salvador de todos os homens.

 

Tiago H. Souza

 

 

Livros consultados:

MERRILL, Eugene H. Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Shedd Publicações, 2009

 PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso. Foco e Desenvolvimento do Antigo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2006.

 ALLISEN, Stanley A. Conheça Melhor o Antigo Testamento. São Paulo: Vida, 1999. 

EVERY-CLAYTON, Joyce Elizabeth W. Rute. Curitiba e Belo Horizonte: Missão Editora e Encontrão Editora, 1993.